Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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14 de jan de 2009

A dança das editoras de quadrinhos no Brasil

(Por: Claudinei Vieira. Para acessar todo o artigo vá ao blogue do autor). "Quem não acompanhou as notícias dos últimos meses do mercado editorial de quadrinhos no Brasil está perdendo uma história emocionante, com vários lances de suspense, reviravoltas, esperanças frustradas, esperanças renovadas, quedas e novidades. O tom das notícias em sua maioria é de desânimo e ceticismo, não se enxerga futuro promissor. Eu não sei. É até engraçado eu dizer isso, pois meu normal é de ceticismo tremendo (em geral e com tudo). No entanto, apesar das expectativas ainda serem vagas e nebulosas, penso que o que está se abrindo são possibilidades interessantes que, se aproveitadas e melhor pensadas e trabalhadas, talvez signifiquem uma real mundança em nossa relação com os quadrinhos neste país. No mínimo, a consciência da necessidade (vou repetir, com maiúscula e aspas: “Necessidade”) dessa mudança. Ou, quem sabe, estas possibilidades não existam e eu esteja somente entusiasmado (ansioso, afobado, quase desesperado com a espera) com algumas publicações prometidas para daqui a pouco. Como disse, as notícias não são novas, mas só para situar a conversa: da Pixel saiu no final do ano passado um editor-chefe, Cassius Medauar, sob cuja gestão houve vários lançamentos importantes, a venda da editora para a Ediouro, e a conquista do prêmio HQMix, o ‘Nobel’ dos quadrinhos no Brasil, de Melhor Editora do ano passado. A saída foi confusa, e em sua carta de despedida publicada no blog da editora, anunciava discordâncias com uma suposta mudança de pensamento editorial. Apesar do desconforto, Medauar continuaria trabalhando com a Pixel, agora como uma espécie de assessor. A editora soltou um comunicado pela sua comunidade do orkut, dizendo que não haverá mudanças significativas (só teriam acontecido algumas “ações administrativas”), os lançamentos serão mantidos, e a linha de qualidade garantida. Apesar da tentativa de acalmar os ânimos, a carta é vaga, não confirma datas nem especifica os lançamentos para os próximos dias, e como bem enfatiza Paulo Ramos, em seu Blog dos Quadrinhos não foi publicada ainda nem no “site da editora nem no blog da Pixel, canais oficiais de divulgação da empresa na internet“. E o “Fábulas Pixel”, uma de suas revistas mensais, não saiu em dezembro“… A Conrad, que lançou ano passado dois portentos poderosos, ‘Chibata! - João Candido e a Revolta Que Abalou o Brasil’, de Hemeteiro e Olinto Gadelha, e o clássico finalmente editado no Brasil ‘Che - Os Últimos Dias de um Herói’, do escritor Oesterheldde e dos desenhistas Alberto e Enrique Breccia, vem diminuindo paulatinamente o ritmo de suas edições (várias estão atrasadas), está há meses negociando sua venda para alguma editora grande para mitigar um tanto de seus problemas financeiros. As conversas com a Ediouro não deram certo, agora estão tentando com a Companhia Editora Nacional. Por enquanto, ninguém diz como estão as negociações, o que só aumenta as incertezas. Vamos ver o que acontece (...) A Companhia das Letras assumiu um selo dedicado aos quadrinhos. É uma grande notícia, por certo! Assumem uma tendência que a editora já vinha tomando há algum tempo quando publicou, de forma esparsa, algumas obras fundamentais e belíssimas, como ‘Maus’ e ‘Persépolis’, mais recentemente a coleção completa do ‘Tintim’. O novo selo, Quadrinhos na Cia, apesar no nome bobo, publicará também autores nacionais, com alguns projetos muitíssimo interessantes (a ideia é de fomentar trabalhos com duplas nacionais, em parceria com a RT/Features; o primeiro já está definido: ‘Cachalote’, do escritor Daniel Galera e o desenhista Rafael Coutinho), e encaminhou uma lista de lançamentos importantes para este ano, como ‘Bottomless Belly Button’, de Dash Shaw; ’Jimmy Corrigan: the smartest kid on Earth’, de Chris Ware, e este aqui, uma das obras mais espetaculares dos últimos tempos, um romance gráfico magnifico, poético e surpreendente, ‘Blankets’, de Craig Thompson (o qual falarei com prazer e mais detalhes, mais pra frente). Caso minhas expectativas estejam corretas, a formação de um selo dedicado exclusivamente para quadrinhos por parte da Companhia das Letras pode significar muito mais do que à primeira vista pode parecer. Através de um pragmatismo pleno que foi se maturando ao longo dos anos (além das obras que já citei anteriormente, não nos esqueçamos das obras de Eisner!, por exemplo!) e trazendo a carga de seriedade que a editora carrega, há possibilidade de, afinal, no Brasil se formatar o pensamento das novelas gráficas como obras de arte, Desde que como projeto editorial consumado. Isto é, não somente como obras únicas e independentes. Não somente como exceções. Não somente como opções interessantes (ou até muito interessantes), e que se colocavam como representantes de um ramo um tanto ou quanto bizarro (quadrinhos!), embora não ’sérias’. Novelas gráficas encaradas como uma verdadeira linha editorial e colocadas no mesmo patamar de obras de literatura (as tais realmente ’sérias’!). Ter um selo desses, proveniente de uma editora do porte da Companhia das Letras tem o mesmo valor e o mesmo peso, em termos nacionais (e guardadas as devidas proporções, por favor) de obras de novelas gráficas nos Estados Unidos ganharem prêmios literários como o Guardian First Book Award ou até de jornalismo como o Pulitzer. Isso é um começo (um mero início) de que pode-se mudar o conceito e a recepção das obras de novelas gráficas, como nunca antes. Não acontece de forma casual. Não houve uma iluminação zen-budista nos editores da Companhia. Tudo isso faz parte do mesmo movimento e de uma intensíssima agitação em terras brasileiras. A Opera Graphic deixar de funcionar também faz parte da equação. Talvez se preocupar menos com o elevado e desproporcional luxo das edições em um país onde a quantidade de leitores é irrisória e a porcentagem dos que se dedicam a separar uma parte de seu dinheiro para novelas gráficas é ainda menor, quem sabe seja somente uma questão de bom senso. Espero não dar a impressão de detestar livros e edições luxuosamente encadernados e com primorosa (e custosas) publicações. Não sou nada contra. É maravilho tê-los em mãos. Eu só gostaria de maiores oportunidades de conseguir alguns. Claro que questão do preço também se relaciona com o respeito com os leitores (e com a possibilidade de se vender os exemplares, oras…). No ano passado, logo após o anúncio da criação do selo Quadrinhos na Companhia, o blog especializado em quadrinhos Gibizada perguntou a André Conti, editor responsável pelo Quadrinhos na Companhia, exatamente sobre isso: “Blankets” e “Jimmy Corrigan” (e “American Born Chinese”) serão publicados em edições únicas? Será possível publicar “Blankets” em uma edição não muito cara, já que o livro tem 600 páginas? André Conti: Os três livros serão publicados em volume único, e não devem passar dos R$ 50, o preço médio de um romance grande. Esses valores ainda não estão fechados, mas estamos trabalhando com essa margem.” Claro, cinquenta reais (caso seja mantida essa média) não é um preço barato, mas ainda assim está-se bem longe do que era praticado pela Opera Graphic. No entanto, o que mais gostei foi a comparação com ‘romances’, usado como exemplo para a avaliação. E, claro também, há que se pensar como isso vai realmente vai se efetivar, o que vai acontecer na prática. Quem viver, verá. E lerá".
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