Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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8 de jan de 2009

O menino assentado no meio do mundo & outros contos

Este “O menino assentado no meio do mundo & outros contos” (FUNALFA Edições, 2003) é o segundo livro do Édimo de Almeida Pereira, escritor que conheci em Juiz de Fora, em novembro passado. Recebi o Menino das mãos do fabulador. Fabular é mais que contar histórias, mais que ser inventivo e criador, fabular é manufaturar a criação e a narrativa com o fio invisível da magia. Édimo é um artista da fábula. São seis os contos do livro, falarei do primeiro e do segundo, com os quais mais dialoguei. “Era uma vez um menino assentado no meio do mundo. Tudo o que ele fazia era ficar ali o tempo todo. Passavam-se os dias, vinham as noites e as noites passavam também. O menino sempre sem fazer nada, sem mover um só braço, um dedinho sequer. ___ Fico parado aqui porque não sei o que vim fazer neste mundo. Dizia a si mesmo o menino, já que era sozinho ali, parado no meio do mundo”. Assim começa o conto que dá título à obra e acrescentou complexidade às minhas reflexões sobre o suicídio: se não sei quem sou e não vejo sentido naquilo que faço, sinto um vazio que pode me levar à morte. E, se não tenho quem me ame para reconhecer meu lugar de importância no mundo, a morte sobrevém também. Embora tendo tudo isto, muita gente ainda se mata. Deve ser por estas, dentre outras, que em resposta à minha constatação de que escrevia literatura infantil-juvenil, o Édimo respondeu: “é aquela velha história, o que é a literatura infantil, para quem é a literatura infantil, eu escrevo literatura”... Por puro prazer li o conto três vezes, lerei outras tantas para entender os mistérios. “A fábula do girassol e da formiga”, segundo conto do livro, me transportou para as narrativas de ensinamento da tradição indiana, lidas há uma década. Uma mistura harmônica de lúdico despretensioso e busca da espiritualidade, algo além da promoção careta e literal de virtudes, que a gente costuma encontrar na literatura infantil e juvenil. “Ratataplim, ratataplam, ratataplim, ratataplam... Vinha pelo caminho uma formiga lava-pé, numa pressa que não tinha mais tamanho quando, de repente: ratataplim, ratataplam, tataplam, cataploft! Tropeçou em não se sabe lá o que, de um jeito tal, que acabou perdendo o traçado das pernas finas e foi cair a uns cinqüenta metros adiante – cinqüenta passos de formiga lava-pé -, lá fora do caminho. O que se seguiu a esse pequeno acidente foi uma série de ais! e de uis! Que eram da formiga e de mais alguém. É que o “não se sabe lá o que” não era “não se sabe lá o que coisa nenhuma”. Era, sim, uma semente de girassol que estava mergulhada na terra, tirando um sono momentos antes de a formiga surgir”. A semente e a formiga depois se tornarão amigas, como a gente espera, mas muita coisa acontecerá até que a amizade desabroche. E eu penso no amigo que volta de um país distante trazendo uma caixinha de Ferrero Rocher e se vai, num passo silencioso de formiga lava-pé, deixando a chave em baixo da porta e um escorredor de pratos sobre a pia, presente cheio de peças limpas.
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