Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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22 de mai de 2009

O primeiro beijo (sem censura) entre mulheres na TV brasileira

Finalmente aconteceu o primeiro beijo entre duas mulheres em uma série de TV brasileira. Quanta celeuma para deixar acontecer algo tão simples: numa novela um casal de lésbicas assumidas explodiu, noutra, o casal de jovens amantes precisou se transformar em Romeu e Julieta para dar um “selinho”, outras se beijaram por acidente e assim por diante. O beijo foi indolor, inofensivo, e aconteceu durante o terceiro episódio da série policial Força Tarefa, dia 02/05/09, da rede Globo. Ponto para a dramaturgia televisiva brasileira, ponto para os dois roteiristas, os escritores Marçal Aquino e Fernando Bonassi, entretanto, os elogios à cena não podem encobrir as falhas de roteiro (direção ou edição, não sei) do episódio, vejamos. Findo o bafafá da retomada do morro pela gang do traficante Exu, a gang miliciana que ocupava a área, composta por ex-policiais corruptos é desbaratada e capturada pela turma de policiais honestos do coronel Caetano (Milton Gonçalves, o nosso Morgan Freeman). É a vez do conflito amoroso do dia: Jaquinha, corruptela carinhosa de Jaqueline (Fabíula Nascimento), inventada por seu criativo e delicado namorado, o tenente Wilson (Murilo Benício), cobra satisfações do policial pois acha que ele vive um caso com a sargento Selma, representada pela ótima atriz Hermila Alves (O céu de Sueli e Baixio das bestas). O motivo da dúvida é que, como componentes da equipe de tiras honestos, os dois (Wilson e Selma) foram morar na favela para filmar a movimentação da milícia e traçar estratégia para pegá-la com a boca na botija na prática de extorsão aos moradores. Para segurança da própria Jaqueline, ela não sabia de nada (o roteiro não nos diz isso, nós é que somos inteligentes o suficiente para deduzir) e desconfiada do namorado que transa, mas não dorme com ela, segue-o no táxi de um motorista amigo. Chegando no morro, ela é interceptada pela milícia, de plantão porque o Exu vai invadir o morro e, sem saber, ela entrega o namorado aos bandidos, pois, na tentativa de furar a barreira miliciana, muito ingênua e honesta, ela diz aos milicianos que está indo ao encontro do namorado, um policial, para flagrá-lo com uma “vadia” (eles achavam que o tenente Wilson era taxista). A casa caiu. Os milicianos invadem a casa, armados até os dentes e Jaqueline, serena, como se as armas fossem de brinquedo, desgarra-se dos braços do miliciano sub-chefe e joga-se em cima da sargento Selma, chamando-a de vagabunda e quetais. O tenente Wilson diz que vai contar toda a verdade (para garantir a segurança de Jaquelime) e pede para que os caras a liberem. O sub-chefe aproveita para tirar a sargento Selma da sala, levá-la a um beco e tentar estuprá-la. No início do capítulo o sub-chefe havia demonstrado interesse sexual por Selma e ela, fingindo-se boa moça, disse que o irmão (Wilson) não a deixava sair à noite. Mas, e o beijo entre as moças, Jaqueline e Selma? Conto daqui a pouco. Vamos aos primeiros furos do roteiro. Jaqueline é construída como uma mulher estúpida, incapaz de pensar. Cega de ciúmes, ela não se apavora com as armas, com os tiros dos milicianos, não raciocina um segundo sequer e entrega o namorado. Ao entrar na casa, mesmo sob a mira de uma arma, o ciúme lhe dá super poderes, ela se desvencilha de um homem armado, bem mais forte do que ela e se joga sobre Selma, uma policial de elite, treinada no mínimo para se defender, mas facilmente derrubada pela namorada do colega de trabalho em franco delírio. Jaqueline continua não raciocinando, não percebe que todos correm risco de vida ali, só se preocupa em arrancar os cabelos de Selma e chamá-la de vadia ou vagabunda, não me lembro. Nesse ínterim o sub-chefe leva Selma para um beco com o objetivo de estuprá-la. Sem possibilidade de defesa, ela encara o agressor todo o tempo, grande interpretação de Hermila Guedes. Ele manda que ela tire a roupa, ela não tira e se defende como pode. Aparece um homem, do nada, um comparsa, aparentemente, e o miliciano tarado diz: “segura aí” e entrega a arma ao comparsa, para ficar com as mãos livres e tirar a roupa de Selma. Então, o super tenente Wilson aparece, dá uma coronhada no miliciano que parece desmaiar (não se sabe o que aconteceu com o comparsa, ele simplesmente some da cena). Os policiais pulam o corpo desmaiado, como fosse um saco de batatas e vão reforçar a equipe do coronel Caetano (Milton Gonçalves) que já armou o cerco sobre os milicianos. Até eu que não sou policial, nem expert em filmes policiais, sei que uma regra básica para imobilizar bandidos é algemá-los (com as mãos para trás) depois de desarmados. Isso não aconteceu com o sub-chefe da milícia. E o beijo? Presos os bandidos da milícia, Jaqueline e Wilson vão “discutir a relação” na frente de Selma. Esta, visivelmente irritada, diz saber como solucionar o problema do casal, ou seja, como mostrar a Selma que não tem nada com Wilson. Ela olha Jaqueline nos olhos e a beija (Wilson não vê o beijo, está de costas) e pergunta, “entendeu”? O tenente Wilson vai levar Jaqueline em casa e quer entrar, transar e dormir lá, mas ela o dispensa, foram muitas emoções, quer ficar sozinha. Ponto para o roteiro, quem sabe passado o efeito da surpresa, Jaqueline não gostou do beijo de Selma e reflete sobre isso? Em suma, uma no cravo, outra na ferradura, como contrapeso à ótima cena do beijo entre as duas mulheres, a completa pasmaceira de uma delas. Afinal, não podem deixar de nos idiotizar por completo (imagem: Hermila Guedes).
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