Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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9 de mai de 2009

Sinal dos tempos?

1 – Eu torci para o Flamengo na decisão do Estadual do Rio de 2009. Que meus dois irmãos atleticanos não me ouçam ou leiam, sob pena de, ao fazê-lo, me destituírem do lugar de irmã. É que, seguindo o exemplo do meu pai, torcíamos todos pelo Galo. Eu deixei de torcer em meados dos anos oitenta, isto eles até perdoaram, compreenderam, pois o sofrimento que um time como o Atlético Mineiro provoca, só os fortes e valentes como eles suportam, não as mulheres de convicção frágil como eu. Torcedor do Atlético que se preze precisa torcer contra o vento, se a camisa do Galo estiver no varal. Minha passionalidade não vai tão longe, desculpem-me os manos. Na verdade, eu torcia pelo Reinaldo, em primeiríssimo lugar, depois pelo Cerezo, Paulo Izidoro, Luizinho o quarto zagueiro (naquela época existia esta posição) mais elegante que vi jogar - como sabem, por questões geracionais, não alcancei a atuação de Domingos da Guia. Até pelo João Leite eu torcia, em priscas eras, um atleta de cristo comedido, não esses chatos da atualidade que tudo fazem em nome do senhor Jesus. Era esta a minha passionalidade, novamente manifesta na torcida pelo Cuca, técnico do Fla, uma quase-eterno vice-campeão. Bem baixinho, devo confessar também que a torcida do Mengão arrepia, mesmo que os Perrela, administradores e donos do Cruzeiro digam, também em tom de confessionário, que se tivessem uma torcida apaixonada como a do Atlético, fariam do Galo um dos maiores times do mundo. Paciência! Enquanto uns administram o sucesso, outros administram dívidas. Mas não pensem que fui ao Maraca, não, não, mantenho meu medo salutar de multidões. Só Michael Jackson me fez entrar num estádio de futebol lotado, o Pacaembu, em São Paulo. 2 – Ronaldo Fenômeno - aquele que respondendo à pergunta de um jovem quanto ao sexo antes de uma partida, atrapalharia ou não o desempenho do jogador em campo, respondeu que “dependia do quanto, antes” e completou, “na dúvida, seja passivo” - corajoso, o rapaz, dizer isso num programa de televisão na maior rede do país... fez um gol fora das quatro linhas. Outro foi a crítica dura à organização do evento de premiação do Estadual Paulista de 2009, que poderia ter terminado em tragédia, com queimaduras generalizadas nas pessoas. Mostrou uma criticidade que só costumamos ver em jogadores que assumem o sindicato da categoria e não foram tão brilhantes dentro de campo. É bom presenciar um craque rompendo o estigma de que jogador fantástico dentro de campo é burro e acrítico fora dele. 3 – Nas entrevistas concedidas após vencer o campeonato do Rio, Cuca, o técnico, abriu o coração, ironizou aquele setor óbvio, mal formado e idiota da imprensa, tal como o jornalista que, achando-se muito inteligente e perspicaz perguntou: “Cuca, você teve medo de ser vice outra vez”? E o Cuca: “tive, é claro que tive, mas tive um medo grande, um medão, não este medinho que você tá falando aí”. É tão saudável ver um homem tido como bruto, que lida com outros considerados ainda mais brutos, admitir que sente medo. Pelo menos para isso a pergunta boba serviu, tomara que a resposta inspire outros homens. 4 – Numa das inúmeras mesas redondas de discussão das decisões dos campeonatos estaduais brasileiros - só naquele domingo foram seis -, um comentarista pregava o fim dos estaduais, argumentava que em determinado Estado, por exemplo, quatro times grandes disputam o título, contra dez times pequenos, que assim fica fácil e tal. Foi contraposto por um outro, cheio de autoridade, com uma discussão sobre desemprego e crise econômica mundial. O tal senhor, um ex-juiz de futebol, argumentava que acabar com os estaduais seria relegar um grande número de homens pouco letrados e sem outras habilidades ao desemprego. Eu nunca havia olhado o tema por este ângulo, o cara me fez pensar. Viu? Mesa redonda de futebol também é cultura! 5 – O Presidente do Botafogo, vice do Flamengo, deu uma entrevista pós-derrota tão lúcida e construtiva, tão responsável e cheia de ombridade, quase comovente. Uma lufada de ar fresco em meio à cartolagem estúpida, desonesta e prepotente. 6 – Por fim, a mãe de Felipe, goleiro negro do Corinthians, baiano exilado em São Paulo –baianos consideram exílio, a vida vivida fora da Bahia – desbancou o apresentador Milton Neves e ensinou a ele o que é um torso. Ela portava um na cabeça, charmoso, uma moldura para seu rosto bonito e bonachão. O tal apresentador, julgando-se espirituoso gritou: “olha, mãe do Felipe, se o Felipe ganhar a Copa do Brasil, eu vou até a Bahia pegar esse chapéu da senhora emprestado”. “Olha, isso aqui não é chapéu, não, viu? O nome é torso, isso aqui é um torso”, ela consertou. Depois disse mais baixo, não consegui perceber para quem, mas o microfone captou: “eu vou lá (no programa de TV) colocar o torso nele, não precisa ele ir até a Bahia, não”. Sempre que vejo um goleiro negro, lembro-me emocionada de Dida, aquele que provou que os negros brasileiros podem, sim, ocupar a posição que mais exige a confiança do treinador num time de futebol, podem ser goleiros. Foi Dida quem abriu o caminho para esses meninos todos que hoje brilham debaixo das traves dos principais times do país e estão entre os melhores goleiros em atuação. Santo Dida que quebrou o estigma de Barbosa, ele, que foi o maior no ano da Copa de 50 e antes dela, mas falhou e foi estigmatizado como qualquer goleiro seria ao falhar em momentos cruciais. A diferença é que Barbosa era negro e um negro quando erra, tem seu erro diretamente vinculado aos supostos atavismo e inferioridade, engendrados por seu pertencimento racial, logo, todos os daquele grupo são propensos a cometer o mesmo tipo de erro. Viu? Pensou que ia ser fácil sua vida de negro? Negro e goleiro, então...
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