Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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27 de jun de 2009

Apenas uma fã

Os Jackson Five foram os primeiros ídolos do meu panteão, ainda bem criança, antes de aprender a ler. Tive o privilégio de assistir o desenho animado na TV, acho que na mesma época do Harlem Globe Throters e também do Scoobydo. Só uns anos depois Gil e Milton ganharam espaço na minha galeria e como os Jackson, nunca saíram. Guardei a lembrança do grupo de irmãos cantores e aos 11 anos, Michael Jackson entrou sozinho, de forma arrasadora em minha vida, com o álbum de 79 e aquele gritinho atrás do smoking de mangas dobradas, meias brancas e sapatos pretos. Thriller, mais tarde, encantou o mundo e também ao Milton que fez uma gravação belíssima no disco Crooner, no qual canta músicas que gosta de ouvir e cantar em casa. E por toda a década de 80 ouvi o Michael, deixando guardados os Jackson. Em 93 fui assisti-lo em São Paulo, primeira e única vez a entrar num estádio de futebol cheio. Houve um artigo do Arnaldo Antunes tão generoso e compreensivo com as transformações do Michael, algo como alguém que fazia do próprio corpo um campo de experimentações tecnológicas e estéticas. Eu que sempre olhara os Titãs com olhos tortos, naquele momento descobri o Arnaldo, por causa do olhar dirigido pelo ex-Titã ao Michael. É óbvio que as datas se misturam e minha proposta não é fazer uma cronologia, apenas escrever alto sobre minha relação com o Michael, no dia seguinte ao seu desaparecimento. Sempre fui fã dele, desde criança, desde a minha infância e dele infante. Entretanto, algo se rompeu na admiração pelo Michael inteiro, por causa das acusações de abuso sexual a crianças, mesmo com a absolvição alcançada no segundo caso. E no primeiro, houve aquele acordo espúrio e escandaloso com a família do garoto para retirar a acusação. Coitado do menino, com uma família daquelas, não poderia mesmo esperar proteção e justiça. Hoje, a vizinha torturadora de criança gritava com a filha de dez anos, durante a briga mais intensa do dia: “você vai ver o que é bom, você acaba me matando. Não viu o Michael Jackson? Morreu com 50 anos, sua mãe vai morrer com 45 e você vai ser a culpada e vai morar com a sua madrasta! Você vai ver o que é bom, ser criada pela madrasta!” O que a vizinha e o Michael têm em comum? Ela é completamente infeliz e o Michael também o era. E acho que a perplexidade e a comoção mundial pela morte precoce do Sol do mundo pop, aquele que conquistou os símbolos midiáticos e celebrativos que a vida contemporânea glamouriza – dinheiro, bens, poder de ditar moda -, que tornou-se um refém-dependente das dores de ser quem era, escondem um elemento do inconsciente coletivo das últimas décadas do século XX e deste XXI. Ora, se Ele, o único, múltiplo e solar, morreu tão jovem e sem ter sido feliz, o que o mundo reservará a nós, simples mortais?
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