Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Postagens populares

Visualizações de páginas da semana passada

Google+ Badge

Translate

25 de jun de 2009

Mais um caso de racismo no futebol brasileiro

Mais um caso de racismo no futebol brasileiro. Desta feita entre o Maxi López, jogador branco-argentino do Grêmio e Elicarlos, jogador negro-mineiro do Cruzeiro, durante a semi-final da Libertadores, jogada ontem, dia 24/06/09. Maxi chamou Eli de macaco e o agredido fez queixa na delegacia de polícia. Ânimos exaltados, ônibus de gaúchos interceptado, deslocamento até a delegacia para depoimentos. O técnico do Grêmio, exaltado, minimiza a agressão racial, sequer a menciona quando comenta o assunto na imprensa. Lembra o meu querido Presidente Lula ao dizer que a crise no Senado não é uma questão nacional. É a voz do comandante, guardadas as devidas proporções de alcance dos comandados, tentando descaraterizar a gravidade dos fatos. O mais irritante na atitude do técnico, Paulo Autuori, civilizado por um currículo de bem sucedidas atuações profissionais fora do Brasil, é a forma como ele desanca as terras tupiniquins, como se um um bando de energúmenos, fôssemos todos. "O Brasil precisa se tornar um país sério, sabemos que isso não vai dar em nada". Este tipo de declaração costuma fazer algum sentido na boca de quem luta contra o racismo, não na boca daqueles que pretendem fazê-lo inexistir pelo argumento de (pretensa)autoridade. Ai, ai, fico exaurida dessas histórias. Já dissemos tanto, já fizemos tanto e volta e meia é isso, o mesmo filme. Estou cansada mesmo, não continuarei desperdiçando minhas sinapses com esse assunto ou com esses personagens. Publico abaixo uma cronicazinha rasa que escrevi há algum tempo sobre o tema do racismo no futebol. (Jogo de cena!) – Viu a mesa esportiva de domingo à noite? – Eu não assisto a esses programecos de futebol. Um bando de homens desinteressantes falando de juízas e bandeirinhas e daqueles marmanjos que correm atrás da bola. Falam mal das conversas das mulheres em salões de beleza, mas mesa-redonda de futebol é igualzinho, pura fofoca e frivolidade. – Calma, calma. Perguntei porque teve mais um caso de racismo. – Grande novidade. Desde que os times não aceitavam jogadores negros até hoje, quase nada mudou. Pouco adiantou ter reis e príncipes negros no gramado: Leônidas, o Diamante Negro, inventor da bicicleta no futebol; Domingos da Guia, o zagueiro mais eficiente e craque de bola do mundo; Didi, o príncipe etíope; Garrincha, sem adjetivos; Pelé, o rei do futebol. Adiantou de quê? Os argentinos continuam nos chamando de los macaquitos e nos campos brasileiros nos chamam de macacos. – Não, mas parece desta vez vai ter punição. – Duvido. – Pelo menos a imprensa desportiva brasileira está tendo outra postura, saiu de cima do muro. – Eu quero é prova. Qual é a bola da vez? – O Antonio Carlos, aquele ex-zagueiro da Seleção, chamou o Jeovânio, jogador negro de um time do Sul, de macaco e alisou o braço, num gesto característico de referência à cor da pele. – E você acha que vai dar em alguma coisa? Li num jornal de esportes que no Tribunal ele declarou que alisou o braço em resposta à provocação do jogador adversário que o teria atacado dizendo que ele encerrava a carreira num timinho. Ele teria feito o gesto numa declaração de que “aquela pele vestiu a camisa de muitos clubes grandes”. Pode? Me engana que eu gosto e sou idiota. No final do jogo ele havia dito que alisou o braço pra mostrar ao juiz que estava arranhado. No Tribunal ainda deu uma de ingênuo – cínico, isso sim – e disse que não sabia que o gesto de alisar o braço (depois de chamar um negro de macaco) tinha conotação racista. O pessoal até riu. – É, mas a imprensa tá cobrando. Os dirigentes e técnicos fazem corpo mole, mas o pessoal dos jornais e da TV não tá dando trégua. Parece que as manifestações anti-racismo durante a Copa do Mundo surtiram efeito. Aliás, você viu as intervenções do pessoal da Frente 3 de Fevereiro? – Vi sim, muito legal. São aqueles artistas paulistanos que criaram um coletivo de arte anti-racismo e batizaram o grupo com a data da morte do dentista negro Flávio Ferreira Santanna, assassinado pela polícia. Segundo os matadores, o pobre foi “confundido” com um bandido em fuga. – Esses mesmos. Eles levaram faixas gigantescas para os estádios questionando a correção do Estado e a passividade do povo ao definir e aceitar que certas áreas das cidades alemãs não são aconselháveis para negros e migrantes, porque ataques racistas podem acontecer. Ora, ora, o Estado precisa coibir o racismo e não garantir lugares públicos para que ele seja exercido com tranqüilidade. – Corajosa, essa moçada. – E as entrevistas que eles fizeram com guardas que queriam discriminá-los nos estádios? – Irado! – Mas aqui no Brasil, não sei não. O trabalho deles que apareceu nas televisões do mundo todo, nos canais de cá, nem foi mostrado. E esse caso do Jeovânio deve ser arquivado. O agressor foi jogador da Seleção. Não viu o Luxemburgo dando declaração de apoio a ele, dizendo que a imprensa o está transformando em “bode expiatório”? “Afinal, o Brasil é um país de mulatos.” Isso tudo conta. – Parece que você tinha razão, saiu a sentença. – Diga aí. – Cento e vinte dias de suspensão por agressão, a tal cotovelada na cabeça do Jeovânio. Tem mais. Quatro jogos de suspensão por comportamento antidesportivo. – Veja que descaracterização deslavada, o crime de racismo se transformou em comportamento antidesportivo. Parece piada de mau gosto. Eu não disse? Bola pra frente e viva a Frente 3 de Fevereiro!
Postar um comentário