Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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29 de dez de 2009

2009-2010!

São inevitáveis, ao fim de cada ano, as avaliações dos 365 dias vividos e da vida por extensão, ou da vida em primeiro plano, tendo o ocaso do ano corrente como mote. Tenho pensado e conversado com alguns amigos sobre o tema da honestidade intelectual. Sobre a necessidade vital de dar nome aos que nos influenciam, aos que nos injetam ânimo, aos que nos tiram do lugar com suas idéias inquietantes, àqueles aos quais somos tributárias(os). Ao mesmo tempo, desprezo o pensamento que se locupleta do pensamento de outrem e não o nomina. Às vezes, quando os amigos me mostram como isso acontece na blogosfera fico irritada, noutras, rio um riso de escárnio e segue a vida, porque há brigas que não quero comprar (prezo a honra e travo o bom combate), diálogos impossíveis de desenvolver, pois o autoritarismo é essencialmente não-dialógico. Continuaremos em 2010 apresentando idéias, pouco importando que os covardes se valham delas sem referi-las. Das coisas boas do ano (e da vida) há as flores e o perfume do caminho. O Pentes é minha flor mais bela, como Ayana, minha personagem. Ah... como foi trabalhoso (e compensador) produzir esta novela. A produção é o processo todo, vocês sabem, mais do que a escritura. Escrevi o livro em cinco dias, exatos. Antes de trabalhar no computador desenvolvi vários trechos à mão, escrevi muita coisa na cabeça, depois coloquei tudo e mais um pouco na tela durante as manhãs dos tais cinco dias. Revisava durante as tardes e noites o que havia escrito pela manhã, reescrevia os registros à mão, lia até cansar – na tela, em papel, de pé, deitada, na cozinha, na sala, na varanda, de cabeça para baixo -, para testar a sonoridade da palavra e acertar o ritmo da narrativa. Depois de escrito, mais uns três meses de trabalho da linguagem. Primeiro foram as leituras críticas e tantas boas sugestões vieram. Também alguns comentários tortos que serviram para robustecer a certeza de algumas escolhas. Alguém me perguntou, por exemplo, se os personagens eram negros, pois isso não ficava “claro”. Disseram-me também que as personagens não “mereciam” os nomes que as batizavam - Abayomi, Ayana, João Cândido, Onirê, Aganju, Ainan, Zazinho, Ayrá, Aroni, dentre outros -, haja vista o fato de “não demonstrarem consciência sócio-racial”. Eu estava no caminho certo, concluí. Esta é a literatura que desejo, a tal “consciência sócio-racial” não me interessa. Outra leitora acusou-me de exagero na escolha dos nomes de origem africana. Disse que forço a mão, não são usuais e são conhecidos num círculo muito fechado. Por fim, este exagero emprestaria um caráter artificial ao livro. Recorri à Aritimética para contra-argumentar. Há no Pentes sete nomes próprios de origem africana, dois de origem tupi-guarani, catorze nomes “comuns”, ocidentais ou ocidentalizados, sete personagens sem nome e três grupos de apoio compostos por personagens cujos nomes são vulgarizados na cultura de massas (Rin-tin-tin, Lassie, Tornado, Corcel Negro, dentre outros). O suposto excesso só poderia vir do incômodo causado pela força vital da África! Aos olhos desacostumados (ou refratários), a pulsão da africanidade é uma ameaça à hegemonia branco-européia. Dentre os vários comentários oportunos, destacarei um, aquele que, em várias nuances me ajudou a cortar aspectos militantes do texto e me trouxe de volta à literatura. Esta literatura transbordante de africanidades que me localiza na cena. E aí, quando achava que o livro estava pronto para ser entregue à editora e publicado, ela o recusa, peremptoriamente. Esbravejei, me retorci em cólicas, discuti asperamente com a editora, desqualifiquei os argumentos dela. Passada a cólera, coloquei minha violinha no saco e voltei ao texto. Continuo discordando de todos os argumentos apresentados, à exceção de um, essencial, a saber, o formato inovador que eu jurava ter adotado não atingiria o público infanto-juvenil, tal qual a versão publicada atinge. Neste sentido, este comentário de Maria Mazarello foi fundamental para definir a pegada de um livro que pretendia ser lido por determinado público. Refiz o que merecia ser refeito e mantive minhas certezas. Deu certo! Veio a segunda fase de leituras críticas e o momento delicioso de acertar detalhes, pois o texto já estava pronto, maduro para ser apresentado aos leitores. Quanto ao público, eu duvidava do interesse das crianças, achava que o Pentes seria lido e “compreendido” por adolescentes e gente mais velha, mas, tenho tido a surpresa feliz do diálogo com os pequenos, que têm sugerido muitas coisas, algumas já incorporadas no meu primeiro romance para crianças, escrito, revisado e pronto para as leituras críticas no mês de janeiro de 2010. Quanto à minha editora, finalmente se rendeu ao Pentes e reconhece seus méritos. Quanto a mim, fazer o caminho consciente das escolhas é imperativo. Saber por onde vou e porque vou são buscas constantes. Isso me dá tranqüilidade para deixar o imponderável operar sem grande resistência.
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