Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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9 de fev de 2013

O profeta da desgraça lido à luz de Schopenhauer


Por Bruno Antonio
MALAFAIA E UM SÁBIO LIVRO DE SCHOPENHAUER: uma reprodução atual dos clássicos esquemas argumentativos

Diante da repercussão da entrevista do Pastor Silas Malafaia, no programa da apresentadora Marília Gabriela, acabei revisitando um livro que tinha lido há vários anos: “Como vencer um debate sem precisar ter razão”, do grande mestre e filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Resolvi, então, fazer um breve passeio/interlocução entre Malafaia e o supracitado livro (citações), enumerando alguns estratagemas frequentemente utilizados no discurso do pastor e comentando suas nuances.

1) USO INTENCIONAL DE PREMISSAS FALSAS – “[...] adotaremos proposições que são falsas em si mesmas e verdadeiras ad hominem, e argumentaremos ex concessis, a partir do modo de pensar do adversário. [...] Devemos adaptar-nos a ele e usar o seu modo de pensar”.

No caso do Malafaia, é corriqueiro usar premissas falsas (artificial conhecimento sobre a genética, por exemplo) para aparentar suposto domínio do assunto.

2) PETIÇÃO DE PRINCÍPIO OCULTA – “Ocultamos uma petitio princippi, ao postular o que desejamos provar. [...] usando um nome distinto ou ainda usando conceitos intercambiáveis”.

Exemplo: Malafaia quando faz uso recorrente de um único estudo, totalizando-o a ponto de anular outras pesquisas (esvaziamento da pluralidade científica), com o objetivo de omitir dados de maneira intencional e deturpar o sentido real. Ademais, quando tenta camufladamente confundir conceitos, fazendo um intercâmbio velado entre eles (ex: homossexualismo, pedofilia e bandidagem), a fim de confundir a opinião pública.

3) PERGUNTAS EM DESORDEM – “Fazer de uma só vez muitas perguntas pormenorizadas, e assim ocultar o que, na realidade, queremos que seja admitido. Em contrapartida, expor rapidamente a sua própria argumentação, fundada nas concessões de outra parte, pois os que compreendem com lentidão não conseguirão acompanhar a discussão e não se darão conta das eventuais falhas e lacunas da demonstração”.

Malafaia evoca demais esse estratagema, pois abusa da brilhante capacidade de falar depressa. Muitas pessoas internalizam isso – ingenuamente – como indício de domínio do assunto.

4) ENCOLERIZAR O ADVERSÁRIO – “Provoca-se a cólera do adversário, para que, em sua fúria, ele não seja capaz de raciocinar corretamente e perceber sua própria vantagem. Podemos incitar sua cólera fazendo-lhe algo francamente injusto, vexando-o e, sobretudo, tratando-o com insolência”.

É o tratamento que Malafaia (Oráculo da verdade absoluta) dá aos que pensam diferente dele e, sobremodo, ao público-mor de sua ira: os homossexuais.

5) MANIPULAÇÃO SEMÂNTICA – “Se, por exemplo, o adversário propôs uma transformação, a chamaremos de ‘subversão’, porque está é uma palavra hostil. [...] No fundo, trata-se de uma sutil petitio principii: aquilo que se quer dizer é introduzido já na palavra, na denominação, da qual se deriva por um simples juízo analítico”.

Malafaia manipula inúmeras expressões, dentre elas a mistura proposital entre homossexualidade e homossexualismo. Repudia aquela e prefere usar esta, pois quer, de forma velada, associar o “ismo” de doença, isto é, homossexualismo = doença. Manipula as palavras, dando sentido pejorativo àquilo que lhe desagrada.

6) FALSA PROCLAMAÇÃO DE VITÓRIA – “Um golpe descarado é quando, depois de o adversário responder a muitas perguntas sem que as respostas fossem adequadas à conclusão que tínhamos em mente, declaramos e proclamamos triunfalmente demonstrada a conclusão que pretendíamos, ainda que de fato não se siga de suas respostas. Se o adversário for tímido ou tolo, e se tivermos boa dose de descaramento e uma bela voz, este golpe poderá funcionar. Este estratagema corresponde à fallacia non causae ut causae (tratar como prova o que não é prova)”.

Malafaia se apropria indevidamente da “genética” (discurso sobre a homossexualidade) e de falsas/manipuladas provas, a fim de provar o que não é prova.

7) VÁRIAS MODALIDADES DO ARGUMENTUM AD HOMINEM
É a confusão entre debate (ideia) e debatedor (pessoa). Invocam-se, propositalmente, supostos atributos pessoais para desqualificar o oponente. O efeito psicológico – principalmente na plateia – é imediato. Por exemplo: se é a favor da legalização das drogas, automaticamente, você é um drogado; se é a favor da legalização do aborto, inadvertidamente, você já abortou; se é a favor dos direitos dos homossexuais, você é homossexual ou, no mínimo, inclinado a ser; se é a favor da Marcha das Vadias, você é uma vadia; e por aí vai... O núcleo discursivo de Malafaia é pautado a partir dessa confusão, ainda que ele não faça isso explicitamente; está nas entrelinhas. Observe, por exemplo, o modo caricato quando se refere aos “comunistas”. E aqueles que ousam discordar do seu absoluto conhecimento? Descrentes são metamorfoseados em “hereges”. Ataca-se a pessoa e não a ideia. É mais cômodo.

8) USO INTENCIONAL DA MUTATIO CONTROVERSIE – “Se notamos que o adversário faz uso de uma argumentação com a qual ameaça nos abater, não devemos consentir que prossiga neste rumo e chegue até o fim, mas devemos interromper o debate a tempo, sair dele ou desviá-lo e levá-lo para outra questão. Em suma, trazer à baila uma mutatio controversie”.

Malafaia, quando se depara com uma controvérsia, principalmente oriunda de um argumento científico, prontamente se antecipa e diz que é “mentira” ou desvia o assunto para readequá-lo à sua linha original de raciocínio. Exemplo: quando Marília Gabriela contesta os dados dele sobre a genética, qual foi o comportamento verificado? Bingo!

9) FUGA DO ESPECÍFICO PARA O GERAL – “Se o adversário solicita expressamente que apresentemos alguma objeção contra um ponto concreto de sua tese, mas não encontramos nada apropriado, devemos enforcar o aspecto geral do tema e atacá-lo assim. Por exemplo, se temos de dizer por que uma determinada hipótese física não é crível, falaremos da incerteza geral do saber humano, ilustrando-a com toda sorte de exemplos”.

A estrutura discursiva de Malafaia é genérica, bem articulada e sistematicamente desenvolvida. Por isso, consegue iludir tanta gente com sua retórica impecável, mas a densidade concreta do seu discurso em assuntos não religiosos é a mesma de alguns jogadores de futebol dando entrevista depois de um jogo.

10) PREFERIR O ARGUMENTO SOFÍSTICO – “Quando nos vemos diante de um argumento adversário que é meramente aparente ou sofístico [...] é ainda melhor se o combatemos e despachamos com um argumento igualmente sofístico e aparente. Pois aqui não se trata da verdade, mas da vitória. Se, por exemplo, ele apresenta um argumentum ad hominem, é suficiente tirar sua força com um contra-argumento ad hominem (ex concessis). E, acima de tudo, será mais rápido, utilizar um argumento ad hominem, se isto for possível, em lugar de uma longa explicação sobre a verdadeira natureza das coisas”.

Tática abundantemente adotada por Malafaia quando é chamado de fanático, intolerante, homofóbico etc. Em ato contínuo, o pastor destila todo o seu veneno na mesma moeda, com palavras histericamente hiperbolizadas, a exemplo de “safado, canalha, desgraçado, inescrupuloso”, entre outras adjetivações “carinhosas”, cujo objetivo é desviar o foco – conteúdo – da ofensa. Assim, Malafaia não se defende das acusações, pois sabe que elas têm procedência, de modo que prefere rebater adjetivando negativamente; acaba “jogando para a plateia”, porque o efeito é mais imediato.

11) IMPELIR O ADVERSÁRIO AO EXAGERO
Quando se estende uma afirmação para além do que o oponente havia exposto. É a deturpação ampliativa da proposição original. Silas Malafaia tenta confundir a opinião pública quando diz que os “homossexuais” querem ter um tratamento diferenciado, de modo a se transformarem em cidadãos privilegiados, formadores de uma nova “casta”. Ora, essa minoria historicamente subjugada não quer nada além do respeito aos seus direitos constitucionais. Ou será se esse grupo é respeitado pelo tecido sociocultural do país? Assim, Malafaia, com o seu giro retórico, distorce a pretensão legítima das relações homoafetivas (misturando religião e Estado), bem como desconsidera a opressão (preconceito, discriminação e violência) cotidiana em relação a essas pessoas, e cria, ao mesmo tempo e de forma proposital, uma falsa noção de “supercidadãos” para deslegitimar/caricaturar a postulação desses direitos preteritamente sonegados.

12) FALSA REDUCTIO AD ABSURDUM – “A arte de criar consequências. Da proposição do adversário tiram-se à força, através de falsas consequências e distorções dos conceitos, outras proposições que não estão ali contidas e que de fato não correspondam à sua opinião e que são, e, em contrapartida, são absurdas e perigosas”.

Silas Malafaia é perito na arte de criar consequências falsas, extraídas à força de proposições dos seus adversários. Exemplos: a) os homossexuais, como supercidadãos, desejam, na verdade, o sufocamento das igrejas, o esvaziamento da “moral”, a destruição da “família”, o sepultamento dos “valores” e a disseminação do ódio em relação aos religiosos; b) a adoção de uma criança por um casal homossexual é o fim do mundo, de maneira que essa criança vai estar fadada a receber uma educação perigosa, desviante, não ética e perturbadora; c) o “kit gay” (denominação usada por Malafaia), longe de ser um programa de conscientização e respeito à orientação sexual alheia, é um instrumento poderoso dos ativistas gays para ensinar o homossexualismo nas escolas.

13) PROVOCAR A RAIVA – “Se, diante de um argumento, o adversário inesperadamente fica zangado, devemos utilizar assiduamente esse argumento; não apenas porque é bom deixá-lo irado, mas também porque presumimos que a esta altura tocamos o lado mais fraco de seu raciocínio, e que o adversário, neste ponto, já não consegue tirar de nossas mãos o domínio da situação”.

Malafaia, nesse estratagema, é bem esperto. A lógica da argumentação dele envolve o despertar da ira nos grupos que são alvo do seu preconceito. Por sua vez, no momento em que a ira alheia é transformada, muitas vezes, em ódio, Malafaia usa a tática da vitimização, isto é, de algoz passa a ser vítima, gerando, em parte da sociedade, a sensibilidade necessária para (re) afirmar suas premissas e conclusões. A alteridade do público, então, não é dirigida à vítima primária, mas, sim, ao agressor inicial, metamorfoseado em vítima a posteriori.

14) ARGUMENTO AD AUDITORES – “Em geral, adota-se este estratagema quando uma pessoa culta discute com um auditório inculto. [...] formulamos um ad auditores, isto é, uma objeção inválida, mas cuja invalidade só um conhecedor do assunto pode captar. [...] As pessoas são inclinadas ao riso fácil, e os que riem estão do lado daquele que fala. Para demonstrar que a objeção é nula, o adversário deverá entrar numa longa discussão e remontar aos princípios da ciência ou a qualquer outro recurso. Mas não é fácil encontrar um auditório interessado nisso”.

Silas Malafaia, em seu discurso, vomita um suposto conhecimento de “genética” e da ciência. Digamos que ele fosse para um debate público – numa plateia de leigos – com um geneticista. Não é difícil imaginar quem “ganharia” o debate, né?

15) ARGUMENTUM AD VERECUNDIAM – “Em vez de fundamentos, utilizamos autoridades, segundo os conhecimentos do adversário. [...] Pode-se também, caso necessário, não só deformar o sentido dessas autoridades, mas diretamente falsificá-las e inclusive citar algumas que são pura invenção. Geralmente o adversário não tem o livro à sua disposição nem tampouco sabe consultá-lo”

Silas Malafaia, dentro da sua astúcia, resgata o “conhecimento científico” no seu discurso, mormente para “parecer não ser” estritamente religioso. No debate com Marília Gabriela, inundou sua fala com “genética daqui, genética acolá”, pegando no ponto fraco da apresentadora/debatedora. Ora, Gabi ficou numa “sinuca de bico”, já que o conhecimento em que ela acredita (científico) estava sendo “aparentemente” – e falsamente – dominado pelo pastor. Entretanto, mais tarde, Malafaia seria vergonhosamente desmascarado pelo geneticista Eli Vieira, que deu uma verdadeira aula de genética, contrapondo todos os argumentos falaciosos do pastor.

16) INCOMPETÊNCIA IRÔNICA – “Quando não se sabe opor nenhum fundamento aos do adversário, pode-se declarar com alegação irônica de incompetência”.

Malafaia procede a uma representação irônica para camuflar o seu desconhecimento em torno de determinado assunto; faz uma piadinha engraçada, desvia a atenção do público e sai por cima, como se estivesse com preguiça de debater, ou seja, indiretamente inferioriza o seu oponente, que é encarado a partir de um viés indigno de ser ouvido. Desse modo, Malafaia (re) afirma sua autoridade – superioridade “epistemológica” – perante os ouvintes incautos.

17) RÓTULO ODIOSO – “Um modo rápido de eliminar ou, ao menos, tornar suspeita uma afirmação do adversário é reduzi-la a uma categoria geralmente detestada, ainda que a relação seja pouco rigorosa e tão só de vaga semelhança”.

Exemplo: Malafaia, quando usa o termo homossexual(ismo), insinua ser uma doença. Ademais, implicitamente, associa o “homossexualismo” à pedofilia e à bandidagem, bem como diz que a maioria dos homossexuais é assim porque foram vítimas de abuso sexual na infância. No mesmo sentido, os indivíduos que não comungam da mesma fé do pastor, estariam condenados ao “inferno”, pois são “hereges” dentro de um contexto de monopolização da fé e privatização do espaço celestial. Assim, nessas comparações incomparáveis e absurdas se constroem as caricaturas e os rótulos, facilmente digeridos e subliminarmente internalizados; daí o imaginário popular se (de) forma.

Enfim, é sempre bom revisitar a mãe da sabedoria (filosofia), a fim de vislumbrar as nuances de alguns arquétipos argumentativos, sobretudo os sorrateiramente falaciosos. O grito é o instrumento de sucesso de muitas pessoas, conjugado com uma retórica formalmente impecável e sedutora.
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