Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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22 de fev de 2013

Carnes frescas e afins


Há alguns anos, antes do episódio da carne de cavalo usada para consumo humano na Europa, escrevi o Carnes frescas e afins, depois do choque de ver carne bovina, pingando o líquido vermelho que a define, transportada a céu aberto em uma caminhonete imunda pelas vias periféricas de São Paulo. O carro-frigorífico e eu fazíamos o mesmo percurso e acompanhei por longo tempo a exposição da carne a tudo o que se possa imaginar: fumaça, poluição, chuva, sol, vento, bichos voadores, cachorros que se aproximavam nos momentos de parada do semáforo, uma festa de reintegração do bicho morto à natureza. Não faltavam pessoas, aparentemente acostumadas com à cena. O produto, provavelmente, era processado em algum abatedouro clandestino e entregue em açougues isentos de fiscalização pública. Também a narrativa de Pedro Juan Gutierrez, sobre o consumo de carne de cavalo no interior de Cuba, em períodos de fome, inclusive cavalos mortos por doença, é bom que se diga, dialogou comigo. 

                                                                                                                  


Por Cidinha da Silva

 Ninguém me tira da cabeça que aquilo era carne de cavalo. Seu Benzoildo nunca inspirou confiança como dono de açougue. Virava e mexia, o pessoal passava mal ao comer a carne dele, digo, do açougue “Carnes Frescas e Afins”.
      
Você fritava, a bicha endurecia, parecia filé de pneu na hora de mastigar. Refogava, a bicha espumava e exalava mau cheiro de espantar urubu.
            
Carne de gato não era segredo que ele vendia. Quem tinha gato no bairro passou a prender em gaiola, amarrar em coleira, pra proteger dos facões amolados e das mãos ligeiras de seu Benzoildo. Gatuno de gatos. “Achado não é roubado”, defendia-se. Pegava os bichanos na rua para alimentar... “deixar gordinhos e passar a faca”, a vizinhança completava. Desenvolveu a tese, assimilada pela população, de que a carne de gato era prima da carne de coelho, portanto, apropriada ao consumo humano. O povo aventava que carne de cachorro também era vendida no estabelecimento. Como ele matava cada espécie de bicho era tema de churrascos, cervejadas, rodas de truco e samba da moçada.
             
Certeza mesmo tiveram no dia em que seu Benzoildo diversificou os negócios e abriu, no bairro vizinho, uma revenda de couro de animais para tambores. Ele só não esperava que alguém reclamasse. Dona Ermira visitou a loja, reconheceu o couro do Dirceu, seu gato, comprou, represando as lágrimas. Candidamente solicitou nota fiscal, com especificações detalhadas do produto. Juntou fotos do bichano, fotografou o couro, amealhou testemunhas e perfilou-se no juizado de pequenas causas para dar queixa.
            
O juiz, para infortúnio de seu Benzoildo, estava enlutado pelo desaparecimento do Hildo, seu gato, preto como uma pantera. Encolerizou-se, proferiu sentença de fechamento do estabelecimento e intimou seu Benzoildo a depor. O depoente esperneou, negou as acusações, alegou inocência, perseguição política e simulação de provas. Não adiantou. Começava a derrocada de seu Benzoildo.
            
Solerte, o juiz expediu outro mandado, desta feita acionou a Vigilância Sanitária para vistoria criteriosa no açougue “Carnes Frescas e Afins”. Onde já se viu – “afins” –, o proprietário mesmo já se denunciava. Chegaram homens e mulheres vestidos de branco, com máscaras esquisitíssimas, botas, luvas, pranchetas, vidros para coletar amostras, máquinas fotográficas, um arsenal. O povo juntou na porta do açougue, alguém tratou de escrever uns cartazes, bradavam por justiça. Fizeram uma lista enorme com o nome dos gatos desaparecidos e afixaram no poste. Leram para a rede de TV que apareceu por lá. Seu Benzoildo não cria no que via.
            
Uma técnica da vigilância sanitária examinava as paredes do fundo do açougue com um martelinho e a cada toc-toc, colava o ouvido para examinar o som produzido. Encontrou o esperado, chamou uma colega de trabalho para conferir. Era mesmo barulho de coisa oca. Sem dificuldade, lastreados pela experiência, encontraram o fundo falso, forçaram e chegaram ao início do túnel que levou a equipe de sanitaristas a um quarto fétido e mal iluminado, nos subterrâneos do “Carnes Frescas e Afins”. Lá depararam com dezenas de peles de gato penduradas em varais, algumas cabeças de cavalo com olhos estatelados, fixadas na parede, tíbias e fêmures imensos, provavelmente dos cavalos mortos, amontoados em um canto, infestados de moscas e varejeiras. Abriram uma porta menor e encontraram cachorros à espera do desossamento, apenas sem couro, semi-congelados.
            
Completava o cenário de horror os instrumentos usados para matar os bichos, tirar o couro, desossá-los. Fotografaram tudo, coletaram amostras e imediatamente ligaram para o juiz: “Olha dr. Anacleto, tem infração suficiente pra ele envelhecer na cadeia”. O mandado de prisão foi imediato. A polícia foi chamada para conter a multidão furiosa que queria depredar o açougue. Alguém mais lúcido conteve a massa, argumentando que se destruíssem o lugar, ajudariam o açougueiro, pois destruiriam as provas. Começaram a chegar advogados, firmas de advocacia, oferecendo-se para mover ações indenizatórias contra seu Benzoildo. Parecia saguão de aeroporto em dia de acidente aéreo, bando de urubus querendo uma lasquinha.
            
Foi assim que o bairro do antigo “Carnes Frescas e Afins” se tornou um enclave vegetariano na região.

Do livro "OH, MARGEM! REINVENTA OS RIOS!"
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