Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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5 de fev de 2013

Um princípio de diversidade humana na novela Lado a lado




Por Cidinha da Silva

O núcleo negro de vilões de Lado a lado apresenta características diversas e interessantes do ponto de vista humano, dramatúrgico e racial. Caniço (Marcello Melo Junior) começou a novela como um capoeirista sem personalidade, mero interessado em auferir pequenas vantagens em tudo, um desonesto insinuante. Ganhou espaço na trama, passou de cético seguidor de Zé Navalha (Lázaro Ramos) a grande bandido e mau caráter negro da trama, com cartel respeitável de vilanias a serviço dos brancos.

Zenaide (Ana Carbatti) transformou-se de coadjuvante manipulada pelas maldades da irmã, Berenice (Sheron Menezzes), em vilã autoral, protagonista de maus tratos dirigidos a Elias (Afonso Nascimento Neto), o filho raptado de Isabel (Camila Pitanga). O crescimento do espaço ocupado por Zenaide a cada capítulo parece ser decorrente da ótima interpretação de Ana Carbatti que empresta à personagem amargura ímpar. A caracterização de Zenaide é tão fantástica que quando vejo uma fotografia de Ana na vida real, não consigo enxergá-la como Zenaide. Isso, a meu juízo, é construção impecável de personagem.

Berenice, por sua vez, é a vilã-mor e está ganhando mais espaço. Seu papel é fundamental para o sucesso do folhetim. Para que a mocinha brilhe, uma antagonista é necessária. Neste caso, uma mulher linda, tão linda quanto Isabel, mas desfocada, invejosa, maledicente, destruidora, perversa, contraposta a tudo de bom e nobre que a mocinha negra representa. O coração ruim de Berenice, suas frustrações, também nos movem a amar Isabel, para além de suas características altruístas.

A performance de Berenice como quitandeira nas ruas do Rio cenográfico desperta em alguns críticos o sentimento de que os autores escorregarão e estereotiparão a mulher negra, à medida que a bela moça comece a seduzir os homens enquanto trabalha com o tabuleiro de quitutes. Eu sou do time das que não vêem estereotipia nisso pelo fato simples de que a personagem de Berenice comporta esse tipo de atitude, algo que faz parte da diversidade humana de mulheres negras e brancas.

Esse passo se enuncia também importante no enfrentamento do racismo. Somos diversos, não somos apenas Zé Maria, Jurema (Zezéh Barbosa), Afonso (Milton Gonçalvez) e Isabel. Somos também Caniço, Zenaide e Berenice. Somos Joaquim Barbosa e Celso Pitta.

Só não podemos perder o tempo da História e as nuances de tratamento à diversidade humana de brancos e negros. Quando Celso Pitta foi justamente condenado por corrupção, decretou-se sua morte política e pessoal. Os antigos amigos e padrinhos (esse tipo de personagem negro não tem seguidores, ele segue, apenas) o abandonaram na arena dos leões justiceiros, relegaram-no ao ostracismo e à decadência moral, física, por conseguinte, e à morte dolorosa, afinal.

Muita gente boa, tida e havida como gente decente e pensante, foi para os holofotes da mídia vociferar que nunca mais votaria em negros para cargos diretivos. Eram testemunhas participativas do resultado do voto em Pitta. Curioso ou compreensível pelas normas racializadas que nos regem é que os corruptos brancos não  mereceram, tampouco merecem tratamento semelhante. Estão aí, em plena atividade, felizes, corados e saltitantes, Collor, Sarney e Renan Calheiros.
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