Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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28 de fev de 2013

O texto afirmativo e inovador de Lado a lado



Por Cidinha da Silva

A matéria do semanário elogiava a fotografia de Lado a lado, a atuação de vários atores, das atrizes, principalmente, detalhava uma série de aspectos técnicos favoráveis e afirmava tratar-se de um bom texto.  Destacava no enredo as informações históricas sobre a formação dos morros cariocas no início do século XX e também mencionava algo sobre o carnaval. Tecia comentários superficiais sobre a Revolta da Chibata, abordada na trama.

Entretanto, não houve uma menção sequer à tomada de posicionamento dos autores (Cláudia Lage e João Ximenes Braga) em relação ao debate racial e a humanidade da pessoa negra. O texto é bom, os diálogos são ótimos, justamente por esse motivo, pelo menos aos olhos do seleto público, seguidor da novela.

Quando afirmamos que o texto é bom, é impossível não destacar a tensão racial presente todo o tempo, bem como a afirmação de valores humanos, éticos e proativos das personagens negras. Zé Maria (Lázaro Ramos), por exemplo, diz a Constância (Patrícia Pillar): “Elias (Afonso Nascimento Neto) tem por Albertinho (Rafael Cardoso) mais desprezo do que eu tenho pela senhora. Seu filho foi a primeira pessoa que tratou Elias como lixo, só porque ele é do morro.”  Constância contemporiza: “ele não sabia quem era o Elias.” Zé: “para quem foi senhor de escravos deve ser difícil entender isso.” Constância, entre cândida e cínica: “nas fazendas do meu pai e do meu marido, os escravos quase não eram castigados, só quando necessário, e eu sempre vertia lágrimas.” Zé Maria, taxativo: “enquanto eles (os escravizados) vertiam sangue.”

O texto é bom, é excelente, mas é mais do que isto. É um texto afinado com um lado da História, um lado vencido pela historiografia conservadora e elitista, o lado negro (dos negros, não, sobre os negros).

Em outro momento, Chico (César Mello) em conversa informal com Albertinho, depois do episódio do pó-de-arroz no corpo para passar-se por branco urante jogo de futebol no time dos janotas, este, para afirmar sua benevolência, lembra àquele que emprestou a própria camisa para que o negro limpasse o rosto e continuasse em campo de cara limpa. Chico responde: “você é racista, é ignorante, não é diferente daquele Fernando, nem daquele Humberto (jogadores do time que haviam sido muito hostis com Chico). O erro maior foi meu, eu nunca deveria ter aceitado passar pó-de-arroz no rosto.” Ora, este é um diálogo que afirma um lugar político digno para os negros. Não é possível dizer que o texto é bom, sem destacar uma discussão como esta, mas a mídia conservadora consegue fazê-lo.

Outro momento emblemático se dá em conversa frugal entre um casal que vive junto por conveniência, como tantos outros, Margarida (Bia Seidl) e Bonifácio (Cássio Gabus Mendes). Ele lê artigo do jornalista fantasma Antonio Ferreira, sobre o jogo de futebol no qual Chico se destacou. O político corrupto ironiza uma afirmação da reportagem “um dia o maior jogador do mundo poderá ser negro.” Nossos olhos contemporâneos sabem que se trata de uma referência premonitória a Pelé e sabem também que ela não foi posta ali pelos autores, gratuitamente. Bonifácio gargalha diante da frase e Margarida comenta indignada: “é divertido desrespeitar negros e mulheres, mulheres negras então” (notem, é uma mulher branca, de elite, quem tem essa percepção; é algo muito inovador). Margarida acrescenta argumento sobre a mãe de Fernando (uma negra), “houve outra mulher a quem você desrespeitou mais do que ela? Só a mim.” Estamos acostumadas à invisibilização do debate racial, mas até as inúmeras questões de gênero propostas e bem postas pela novela, a mídia conservadora consegue ignorar, seja em momentos de tensão, seja nas reflexões da estabanada Celinha (Isabela Garcia), que vai pouco a pouco percebendo a própria falta de coragem para romper padrões que a infelicitam e, principalmente, compreende a falta de amor próprio, determinante em sua solidão.

Por fim, Isabel (Camila Pitanga) pergunta a Edgar (Thiago Fragoso), amigo e advogado: “como é que eu vou explicar pro meu menino que ele foi roubado pela própria avó pelo racismo dela?” Alguém sabe responder?
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