Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Postagens populares

Visualizações de páginas da semana passada

Google+ Badge

Translate

26 de fev de 2013

Wilson Simonal de Castro


Wilson Simonal foi um vitorioso homem negro brasileiro de musicalidade inacreditável. Nasceu dia 23 de fevereiro de 1938 e faleceu, no ostracismo, dia 25 de junho de 2000, jovem, aos 62 anos. Complexo, controverso, incompreendido, arrogante, presunçoso, competente, criativo e talentoso são adjetivos que somados a outros tantos podem tentar defini-lo. Mas, o que tenho mesmo a dizer sobre Simonal está no texto "Wilson Simonal de Castro" publicado em Oh, margem! Reinventa os rios! (Selo Povo, 2010).






Wilson Simonal de Castro
Por Cidinha da Silva

Quando perguntado se o sucesso o tinha deixado mascarado, Simonal respondeu: “Eu sempre fui mascarado!” Um preto que diz ao mundo – eu sou e me basto – é um preto condenado à morte.

O homem que encontrava problemas raciais, apesar de se chamar Wilson Simonal de Castro, e declarava isso antes de cantar um hino a Martin Luther King Junior é um negro que sabe de si. De Castro, porque Simonal era corruptela de Simonar, sobrenome do médico que ajudou a sustentar sua família, supostamente mal entendido pelo tabelião no momento de registrá-lo.

Um negro sabedor de si incomoda muita gente. Se, além disso, for sofisticado, incomodará muito mais. Se fizer dueto com Sara Vaughan, se cantar samba de um jeito diferente e apaixonante, se interpretar Tom Jobim como se a música do maestro houvesse sido composta para a voz dele, se levar 40, 60, 80 mil pessoas no Maracanãzinho ao êxtase, cantando afinadamente “Meu limão, meu limoeiro”, sob a regência dele, um preto mascarado, incomodará ainda mais. À direita porque domina a massa, à esquerda porque diverte a massa.

Disseram no filme que Simonal, o rei do suingue, caiu no ostracismo porque não teve jogo de cintura. Conclusão torpe. A rima é outra; ele sucumbiu por racismo e, é lógico, contribuiu pessoal e enfaticamente para o previsível desfecho da história com sua arrogância de preto bem-sucedido, cercado de brancos, traído pela altura do Kilimanjaro.

Rei iludido, blefou ao dizer-se apadrinhado pelos milicos da ditadura. Achou que a afirmação teria o efeito cândido da amizade nutrida pelo sargento da Polícia Militar da esquina, com quem crescera. Rei refratário a entender como funciona a política, cavou a própria cova, enfeitiçado pelo sucesso. E todos, a direita, a esquerda, a imprensa, a plateia branca magnetizada e os artistas concorrentes já tinham as pás de cal para enterrá-lo.

Ninguém sabe o duro que você deu, meu velho, mas a inveja dos 320 shows por ano te derrubou. Você, como definiu alguém, não se achava o rei da cocada preta, você era o rei! Mas não podia esquecer que preto na plateia de sua apresentação consagradora na Record só mesmo Gilberto Gil, extasiado, seguindo suas ordens de regente.

A vida não foi suave contigo, Simonal. Mas você também errou, meu rei! Sentou-se à mesa de garfo e era dia de sopa! Esqueceu-se de que era um preto reinando entre brancos.


Postar um comentário