Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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31 de out de 2015

Nação bipolar


 Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 31/10/2015 na edição 874

Sofremos de uma bipolaridade crônica em nossos afetos. Ou “o inferno são os outros”, como advertia Sartre na peça Entre quatro paredes (1944), ou acreditamos que “o outro é o paraíso”, conforme canta Vander Lee, em Românticos (1997). No romantismo brasileiro, as posições extremistas já davam as cartas no terreno literário. Basta consultar os poemas Canção do Exílio(1846), de Gonçalves Dias, e A tristeza (1836), de Gonçalves de Magalhães. O entusiasmo da primeira geração romântica promovido por Gonçalves Dias elevou o Brasil à categoria de terra com “mais amores” e “mais vida”, onde o sabiá aqui canta melhor e mais alto. As palmeiras se destacavam em seu verde exuberante, cor da esperança que se espalhava na propaganda positiva da nação soberana, recém-liberta do jugo colonial lusitano. Porém, a expectativa nas nuvens se colocou como mãe da decepção.
A sensação de eterno semear e a constatação de um amor e de um país não experimentados em sua plenitude levaram embora as ilusões dos poetas que, a exemplo de Gonçalves de Magalhães, arvorados no sombrio mal de século, não tinham mais fé na luz no fim do túnel. Todas as fichas foram assim depositadas no pessimismo. O otimismo ficou nu, com a mão no bolso: “Triste sou como o salgueiro/Solitário junto ao lago,/Que depois da tempestade/Mostra dos raios o estrago./(…)/Fatal lei da natureza/Secou minha alma e meu rosto;/Profundo abismo é meu peito/De amargura e de desgosto/À ventura tão sonhada,/Com que outrora me iludia,/Adeus disse, o derradeiro,/Té seu nome me angustia./Do mundo já nada espero,/Nem sei por que inda vivo!/Só a esperança da morte/Me causa algum lenitivo”.
De repente, a câmera do olhar corta para A Insustentável Leveza do Ser (1984), de Milan Kundera, e o cinza reinante até então se esvai. Entra um lilás, tipo o cantado por Djavan, caetaneando o que é há de bom, mesmo que a voz poética do tropicalista, na canção Rocks (2006), escorregue em tom de rancor e fúria: “Tu é gênia, gata etc./mas cê foi mesmo rata demais/meu grito inimigo é: você foi mor rata comigo/você foi concreta e simplesmente/rata comigo demais,/rata comigo demais/rata”. Ficamos aborrecidos com quem mexeu no nosso queijo. Instinto proprietário que faz da gente ratos de nós mesmos. Mistura de Patético Mickey com Esperto Jerry. Pobre demais resumir o mundo a uma ratoeira. Voltemos a Kundera e sua linda forma de poetizar o amor: “Tomas pensava consigo próprio que ir para a cama com uma mulher e dormir com ela são duas paixões não só diferentes como quase contraditórias. O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor (desejo que se aplica a um número incontável de mulheres), mas através do desejo de partilhar o sono (desejo que só se sente por uma única mulher).”
Nosso Fla X Flu performático, porém, deforma acompanhantes em seguidores, admiradores em cúmplices, colaboradores em servos. Como as relações de interesse interditam a espontaneidade do desejo? Em O importante é amar (1975), filme de Andrzej Zulawski, ouve-se esta pergunta: “Você me ama quanto?” Prostituta solteira, Ginger vendia apenas seus encantos; mulher casada, vendeu sua liberdade. O marido lhe responde: “Muito, muito”. O amor de graça, na real, costuma cobrar juros e juras! Contrariando o sistema, apresentam-se Jorge Vercílio e sua Monalisa (2009): “Não se prenda/A sentimentos antigos/Tudo que se foi vivido/Me preparou pra você/Não se ofenda/Com meus amores de antes/Todos tornaram-se pontes/Pra que eu chegasse a você”. Desprendimento e maturidade em versos esplendorosos, visto que o ciúme simboliza o cúmulo do instinto possessivo, com direito a desconfiança cavalar e paranoica a reboque.
Dilma Rousseff conseguiu quebrar o país
A paixão pelas extremidades faz a gente acreditar que viver entre tapas e beijos é sinal de equilíbrio amoroso. Acontece que em briga de marido e mulher não se mete o diálogo. “Falha a fala, fala a bala”, adverte Paulo Lins, em Cidade de Deus (1997). Informa o Instituto Avante Brasil que, em 2012, ocorreram 4.719 mortes de mulheres por meios violentos no Brasil: significam 393 mortes por mês, 13 por dia, mais de 1 morte a cada duas horas. O Brasil é o 7º país que mais mata mulheres no mundo. Por trás desta triste estatística, encontra-se a indiferença explosiva que perigosamente aciona atitudes intolerantes e crimes passionais. Em pensar que o feminicídio, crime praticado contra a mulher por razões da condição do sexo feminino, começa onde “falha a fala”, isto é, na violência simbólica sistematizada pelo machismo de plantão em detrimento das mulheres, até descambar para o extermínio misógino do público feminino. Basta acompanhar aviolência de gênero promovida sistematicamente pelos meios irresponsáveis de comunicação, quando se dirigirem à presidenta da República, Dilma Rousseff. A respeito, exemplificaremos o nosso parecer, a partir de duas grosserias, travestidas de opinião, que foram cometidas pelos colunistas Vicente Nunes e Ari Cunha, ambos do Correio Braziliense.
Vicente Nunes, no artigo “Virando pó” (Correio Braziliense, 27/10/2015), ignora solenemente o mérito administrativo de Dilma Rousseff à frente da gestão técnica que, dentre outras conquistas, ajudou a alavancar o êxito socioeconômico do país desde os tempos de Lula no comando da nação, projetando o Brasil como relevante referência na escala global, ao instrumentalizar os programas sistêmicos de combate à fome e a promoção da transferência de renda e da escolaridade, voltadas ao atendimento das classes mais populares e desassistidas. Porém, com o seguinte parecer ostensivo, o citado jornalista prefere jogar a Presidenta na cova dos leões, culpabilizando-a exclusivamente pela crise conjuntural que atormenta não só o Brasil, mas o mundo como um todo:
“A incapacidade do governo de chegar ao tamanho do rombo fiscal em 2015 é impressionante e só comprova como a máquina federal se acostumou com as manobras, as maquiagens e as pedaladas fiscais para esconder a situação das contas públicas. Sabe-se que o buraco é enorme e, se realmente for contabilizado por completo, pode ficar próximo de R$ 100 bilhões. Mas, independentemente do valor a ser divulgado e das justificativas que venham ser dadas, o certo é que Dilma Rousseff conseguiu a façanha de quebrar um país que, quando lhe foi entregue, crescia a 7,6% ao ano.”
Educar para a cidadania
Enquanto Vicente Nunes investe todas as suas fichas, ao chamar explicitamente Dilma Rousseff de administradora incapaz, contribuindo para a subalternização histórica da liderança feminina, o jornalista Ari Cunha, no artigo “Resumo da ópera” (Correio Braziliense, 27/10/2015), com requinte de crueldade, ofende e animaliza a Presidenta da República, chamando-a de “pata manca”. É estarrecedor verificar o tom virulento expresso pelo referido colunista do periódico distrital:
“Neste exato momento, a certeza geral é de que a permanência de Eduardo Cunha à frente da Câmara dos Deputados não vale três tostões furados. Outra certeza de momento é de que, mesmo faltando três anos para terminar o mandato, a presidente Dilma Rousseff é uma pata manca. Do mesmo modo, outra certeza a esta altura dos fatos, é de que boa parte daqueles políticos que viviam à sombra do Planalto, apoiando o governo em troca de pixulecos variados, está com os dias contados para seguir à degola da cassação.”
Isto não é uma reflexão “analítica”, nem muito menos “substancial”, conforme tipologia proposta pelo estudioso Stephen Toulmin, no livro Os usos do argumento (2001). Trata-se de uma atitude tirânica e discriminatória que mais parece fundamentar o veredito emitido por um inquisidor da Idade Média do que a avaliação sóbria de um jornalista que precisa ser responsável em promover, em termos plurais e democráticos, a opinião pública consistente e consciente.
Bem ao estilo bipolar, traduzido na popularesca expressão “morde e assopra”, o Correio Braziliense parece ter como procedimento editorial a cordialidade transbordante, conforme atesta os emblemáticos versos do poeta pré-modernista Augusto dos Anjos: “O beijo, amigo, é a véspera do escarro/A mão que afaga é a mesma que apedreja.” Na mesma edição do jornal distrital, que contemplou o ímpeto espinafrador de Vicente Nunes e Ari Cunha, o editorial, em contrapartida, elogia o louvável mérito da proposta de redação do Enem, uma das páginas mais bonitas da história da educação brasileira:
“Poucos assuntos são tão comentados quanto a redação do Enem. O tema envolve universo muito maior que os milhões de candidatos que se submetem à prova. Avós, pais, irmãos, tios, amigos, todos participam do debate. O assunto abandona o escaninho dos especialistas e ganha visibilidade nacional. Trata-se de oportunidade não só de avaliar a habilidade de escrever, mas também de educar para a cidadania.
Graças e homenagens por todo o sempre”
A proposta do exame de 2015 serve de exemplo — a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira. Ao falar em persistência, fechou as portas para a negação do fato ou para teses que atenuem as ocorrências. Não só. Como um dos critérios do julgamento da redação é o respeito aos direitos humanos, os jovens precisaram partir do fato de que o problema existe e sugerir intervenção (outro critério) para solucioná-lo. […]
A violência machista é cultural e, por isso, vista com naturalidade por parcela significativa da sociedade. Há que reeducar a população. Nada mais adequado que levar o debate às salas de aula. Como disse Maria da Penha, que há quase uma década inspirou a lei que recebeu o seu nome, duas intervenções são necessárias. Uma: investimento na educação cidadã. A outra: políticas públicas aptas a enfrentar a tragédia que se perpetua através dos tempos. No século 21 poucos comportamentos soam tão extemporâneos quanto bater em mulher.”
A bipolaridade crônica em nossos afetos vem apresentando desdobramentos cruéis e passionais por conta de uma cultura maniqueísta que coloca a dinâmica amorosa em maus lençóis, fazendo-nos acreditar no velho clichê assim cantado por Carlos Cachaça: “todo amor no princípio tem sabor,/tem perfume, tem odor, que embriaga o coração/mas depois é uma taça incolor/que só contem amargor, dissabor e maldição”. Este sentimentalismo vitimizado é alienador, pois o amor, como expressão plena e sincera da alteridade, precisa ser reinventado a cada instante. Não só em nove semanas e meia, como recomenda aquele apimentado filme norte-americano, dirigido por Adrian Lyne, mas, essencialmente, em “nove dias de cultos a ti”, conforme brilhantemente sugere a escritora Cidinha da Silva, na crônica “Durga e a Senhora das Águas”, que integra o fabuloso livro Baú de miudezas, sol e chuva (2014):
“No primeiro [dia] te oferecei flores e água fresca e desejarei, em silêncio, que abras olhos e braços à sede que tens de mim./No segundo, o coro de colibris de Odé cantará o canto de amor que compus para ti./No terceiro te darei minerais, preciosos ao teu gosto fino: quartzo, ouro, diamantes, turmalinas./No quarto dia te permitirás ser ninada por meus dez braços./No quinto compreenderás que não existo sem ti./No sexto, explodindo de contentamento, a Lua criará mais uma fase, cheíssima de amor./No sétimo dia brindaremos às águas, com vinho branco de palma, da adega de Ogunjá./No oitavo dia Olodumaré e Shiva sorrirão ao nosso amor./No nono te beijarei a boca de ameixa, sorverei tuas águas de amora e dormirei em teu leito de lavanda/No décimo dia, o dia da vitória, teu ego morrerá de morte consciente e dobrarás os joelhos aos pés de Oxum, a fim de agradecer e acolher o amor mandado por ela, para te render graças e homenagens por todo o sempre.”
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