Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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30 de mar de 2008

Cidinha na Revista Urbana

(Entrevista concedida ao jornalista Davi Amorim para a Revista Urbana, edição de março 2008. Trata-se de uma revista cultural mensal que circula no Alto Tietê Cabiceiras, São Paulo). RU: Quais são as suas motivações para escrever? O que te faz escrever? Cidinha: Escrever é a coisa que mais me dá prazer e alegria, veja bem, falo do campo das coisas e não das relações humanas, aí é outro papo. Viver o afeto e as relações amorosas é mais intenso do que escrever. Escrevo porque preciso comunicar ao outro meu jeito de ver o mundo e como o mundo me dói, como me toca, me emociona, me faz rir, chorar, pensar. Escrevo porque o real dói e eu o transformo, às vezes em mais dor com certa poesia, mas o que vale é imprimir minha marca. Escrevo porque acho que o que tenho a dizer ao mundo é singular e como tal, só pode ser dito por mim, e acredito que haja um lugar no mundo literário para o que tenho a dizer. Por essas razões escrevo. RU: Você se identifica com esse movimento que temos chamado de literatura marginal? O que isso significa para você? Cidinha: Sim, eu me identifico, respeito e admiro, mas não o integro. Acompanho, sou solidária e bem recebida, os escritores e escritoras marginais ou periféricos demonstram respeito por meu trabalho e o acolhem. Literatura marginal ou periférica no meu modo de ver, parte essencialmente de um lugar geo-político-afetivo. É um jeito de morar, viver e produzir na favela e nas periferias, para a favela e com a favela, usando as armas do amor e da guerra. O lugar geográfico periferia é de suma importância para que os integrantes da literatura marginal ou periférica emitam sua voz. Ali tudo começa, a partir dali tudo se desenvolve. Eu não moro na periferia, não tenho meu coração plantado nesse lugar político, transito por lá, vou buscar perfume e deixar minhas flores, mas emito minha voz de outro lugar. Sou uma escritora negra, é literatura negra o que escrevo, mais do que qualquer outra coisa. Uma literatura negra que pretende alcançar todo mundo, que não quer se prender a uma fatia de público apenas. RU: Quais são suas influências e quais os personagens históricos que admira? Cidinha: Eu fui muito influenciada por música, por quadrinhos, literatura dispersa em revistas e jornais literários. Li muitos cronistas e muita poesia na infância e adolescência, os mineiros principalmente, Drummond, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos. Depois, Machado de Assis e Lima Barreto. Mais tarde, Adélia Prado e Guimarães Rosa, basicamente literatura brasileira. Ainda estou por estudar os clássicos da literatura mundial. Hoje leio muito a literatura produzida por mulheres, gosto muitíssimo de Leda Martins, Elisa Lucinda, Nélida Pinõn, Rachel de Queiroz, Conceição Evaristo, Tony Morrison, Rosa Monteiro, Paulina Chiziane, Isabel Allende e Alice Walker. Dentre o pessoal da literatura periférica sou fã de carteirinha da literatura da Dinha, pelo vigor, pela precisão, pela ausência de concessão poética e política, pelas construções poéticas maravilhosas. À medida em que é publicada no Brasil, leio também a literatura produzida por escritores (as) africanos (as). A observação da vida e das relações humanas também me influencia muito. É preciso viver para escrever. Quanto às personagens da História que admiro, não vou me lembrar de todas, são muitas, mas vamos às que vêm à cabeça primeiro: Sueli Carneiro, Hélio Santos e Luiza Bairros; Nelson Mandela, Malcoln X, Ângela Davis, a primeira geração dos revolucionários africanos que libertaram Angola, Moçambique e os demais países lusófonos do jugo colonial português, Winnie Mandela, Stevie Biko, Lula e Evo Morales, dentre outros. RU: Fale um pouco sobre seu trabalho e seu novo livro: Cidinha: Estou agora trabalhando em meu primeiro livro juvenil, em parceria com a Iléa Ferraz, artista plástica responsável pelas ilustrações. É um livro desenvolvido a partir de uma letra de música. Estou muito animada com o projeto, principalmente porque meu trabalho literário se aproximará mais das crianças da minha casa, pelo menos enquanto não consigo escrever textos mais adequados à faixa etária delas, entre seis e dez anos. Edito diariamente o blogue www.cidinhadasilva.blogspot.com e é um exercício constante de escrita bem interessante e útil ao meu processo de criação. Escrevo para um boletim eletrônico e para alguns sítios literários. Desenvolvo alguns trabalhos que garantem minha sobrevivência que passam pela formação de professores(as) em relações raciais e de gênero e pesquisa e redação de textos encomendados por empresas e órgãos públicos. Sobre o Tambor, meu livro novo, trata-se de um livreto singelo que aborda o amor e a solidão, vistos e sentidos por personagens femininas, principalmente. São olhares críticos, ácidos, vez ou outra líricos, outras tantas humorados e com mais uma dose de acidez. Jeferson De afirmou na orelha que a autora é cruel. Nazareth Fonseca asseverou no prefácio que “é montado um painel de pessoas e vidinhas comuns, ritmado pela busca de afeto, de companhia, de casual sex, de sexo, sexo, sexo, ou mesmo de soluções incomuns que ajudem a aliviar o corpo torturado pelo desejo. São por isso histórias de humores e impulsos para desbancar a solidão ou o vazio de uma convivência que sabe a cebola e cerveja ou que incomoda como o contato de sola de pés tipo lixa” (...) Não sei, não sei! Você precisa ler para formar sua própria opinião. O Tambor é ilustrado pela amiga e artista plástica Lia Maria, que já havia produzido a capa do Tridente (2ª edição) e a coleção de postais Tridentiana. São lindos os desenhos. Para contar um pouco sobre como o livro foi feito, digo-lhes que depois do Tridente, várias pessoas, escritores em especial, sugeriram que eu me dedicasse a textos mais longos, pois demonstrara fôlego para fazê-lo. É óbvio que gostei da sugestão, mas resolvi me desafiar de outra forma, quis escrever textos curtos, alguns curtíssimos e dar meu recado em poucas linhas. O resultado é só conferir no Tambor editado.
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