Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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26 de set de 2008

Introdução à palestra de Ângela Davis, em Salvador

(Por: Luiza Bairros*, em Salvador, Salão da Reitoria da UFBA, 06 de agosto de 2008. Fonte: Irohin.) "Apenas ontem à noite fui convidada para fazer esta pequena introdução à palestra de Ângela Davis. Isso significa que não tive tempo suficiente para desenvolver um texto sobre a importância da visitante, que perpassa uma multiplicidade de aspectos: a projeção internacional da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos dos anos 1960 e 1970; o impacto de sua trajetória sobre as escolhas das mulheres negras, em especial as que decidiram dedicar suas vidas às varias formas de ativismo político; a sua influência na nossa percepção sobre o que é e como se expressa a beleza negra; o seu exemplo como intelectual pública e intelectual acadêmica que, com a força de suas idéias, confronta a sistemática negação do racismo à nossa capacidade de produzir conhecimento fora dos cânones que dominam o pensamento acadêmico. Na impossibilidade de cobrir todos, ou alguns destes aspectos, decidi recorrer a textos que eu já tinha escrito antes, fazendo aqui uma breve atualização sobre o que tem acontecido com a política racial brasileira, desde a última vez que encontramos Ângela Davis. Foi em dezembro de 1997, em São Luis do Maranhão, na I Jornada Cultural Lélia Gonzalez, realizada pelo Grupo de Mulheres Negras Mãe Andreza, com o apoio da Fundação Cultural Palmares, então presidida por Dulce Pereira. A Jornada foi pensada por suas organizadoras como um espaço de dialogo, convivência, reflexão, de lazer e troca entre militantes e profissionais de diversas áreas. Desde 1997, muita coisa mudou na política racial brasileira. Multiplicaram-se as formas de organização do Movimento Negro, porque também se definiram novas formas de manifestar politicamente nosso existir enquanto negros nessa sociedade: existe um maior número de grupos de mulheres, quilombolas, jovens, gays e lésbicas, estudantes, religiosos de matriz africana, pesquisadores, entre outras. Desde 1997, tornou-se mais evidente o fato de que já não e mais possível ‘naturalizar’ tanto os privilégios de ser branco , como as desvantagens de ser negro no Brasil. O discurso da democracia racial já não tem forças para sustentar o consenso que existia nas elites, de direita e de esquerda, sobre as formas de pensar a sociedade brasileira em termos raciais como algo harmonioso e indiferente á condição racial dos indivíduos. Ate por isso, entre as elites, hoje, também não há propostas consensuais de tratamento do racismo e das desigualdades raciais. Tanto é assim que as conquistas em relação às ações afirmativas, o fato novo dos anos 2000, com menos de cinco anos de existência, têm estado sob constante ataque. Exemplos disso são as manobras judiciais para considerar como inconstitucionais as cotas para estudantes negros nas universidades públicas; a não implementação da lei nacional da educação que, desde 2003, tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana no sistema educacional; a falta de incentivos para a criação de áreas técnicas de atenção à saúde da população negra nos estados e municípios; a desqualificação do direito à terra da s comunidades quilombolas. Os conflitos envolvendo questões como as exemplificadas acima ocorrem apesar da proliferação nos últimos anos de órgãos governamentais de promoção da igualdade racial, tanto no governo federal como nas esferas estadual e municipal. A existência mesma desses órgãos, que marca nossa entrada no mundo das políticas públicas, é freqüentemente colocada em questão pelos setores conservadores. Estes não percebem que estas estruturas governamentais têm que existir, porque nós mulheres e homens negros, comprometidos com os destinos de nosso povo, ainda não temos uma representação político-institucional condizente com o nosso peso na formação deste país. ou seja, porque ainda não estamos proporcionalmente representados na Câmara dos Deputados, nas Assembléias Legislativas, nas Câmaras de Vereadores. Porque ainda não temos mulheres e homens negros como governadores e prefeitos, como membros do judiciário, que sejam porta-vozes e defensores intransigentes de nossos direitos. A verdade é que, hoje, o debate sobre a questão racial adquiriu uma visibilidade inusitada, por força da ação do Movimento Negro e da reação daqueles (as) que, agora, livres dos limites impostos pela etiqueta racialmente democrática, manifestam suas posições e comportamentos racistas, sem disfarces. E é isso também que explica o fato de nos últimos anos terem crescido assustadoramente os assassinatos de jovens negros, geralmente em conseqüência do racismo institucional. É isso que também explica o fato de que o aumento de nossa presença nas universidades brasileiras, e na Bahia não é diferente, ainda seja acompanhado pelo assassinato intelectual praticado por setores de um professorado majoritariamente branco, que continua negando aos estudantes negros a capacidade de aprender e gerar conhecimentos; que continua estabelecendo uma falsa oposição entre o saber militante e o saber acadêmico, ao mesmo tempo em que, contraditoriamente, aceitam para o grupo racial dominante a possibilidade de constituírem seus próprios intelectuais orgânicos. Em 1997, nos encontramos com cerca de 70 mulheres negras de várias partes do país e, naquela oportunidade, pudemos exercitar formas de conviver com respeito em meio às diferenças. Mais do que isso, pudemos entender que nossa experiência na diáspora africana, nos caminhos traçados pela ação política dos negros no Brasil e nos Estados Unidos é que tornaram possível a convergência das contribuições de Lélia Gonzalez e de Ângela Davis. O potencial transformador daquele momento não se restringiu apenas a quem dele participou – da Bahia, Luiza Bairros, Vilma Reis, Dete Lima e Valdecir Nascimento. Foi capaz de influenciar gerações de militantes que surgiram posteriormente, como no caso de Raquel Barreto, que também foi rapper no Rio de Janeiro, que em 2005 concluiu seu mestrado em História Social da Cultura, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, apresentando um estudo comparado entre Lélia Gonzalez e Ângela Davis, que analisa as experiências e a formação de intelectuais públicas e ativistas da diáspora nos Estados Unidos e Brasil. Como relatei brevemente, a política racial no Brasil hoje é outra; ao contrário da primeira vez, sua nova visita ao Brasil é promovida por uma universidade, onde negras intelectuais orgânicas nem sempre são legitimadas, respeitadas no seu fazer acadêmico. Mas, apesar disso, ou até por isso, acreditamos que sua passagem por aqui será capaz de produzir outros frutos que fortaleçam o nosso existir enquanto mulheres e homens negros aqui, agora e no futuro da luta anti-racista no Brasil e no mundo." * Secretária de Promoção da Igualdade Racial do Governo do Estado da Bahia.
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