Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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5 de set de 2008

Paulina Chiziane e uma visão critico-moçambicana do acordo ortográfico da Língua Portuguesa

(Do Caderno Cultural de Maputo, por Gil Felipe) "O ACORDO Ortográfico da Língua Portuguesa é um instrumento regulador na escrita do idioma oficial de Moçambique e sete outros países membros de uma organização que comunicam entre si em português. O documento foi assinado a 16 de Dezembro de 1990 por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, mas não podia entrar em vigor por não ter sido ratificado por todos os países. Porém, numa cimeira da CPLP havida em Brasília, em 2002, foi aprovada uma alteração aos estatutos que permitem a entrada em vigor de qualquer acordo desde que seja ratificado por pelo menos três países, passando a vigorar nesses Estados-membro, o que fez com que, até ao presente, Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe tenham aprovado quer o Acordo Ortográfico quer o respectivo Protocolo Modificativo, estando oficialmente em vigor nestes três países desde Janeiro.Moçambique já prometeu ratificar o acordo, em finais do ano passado (2007), faltando saber precisamente quando é que o fará. Apesar de não haver avançado datas, ficou claro que o Governo moçambicano não colocará entraves ao “sim” à alteração da ortografia do português no nosso país. Ora, esta eminente aceitação do acordo pelas autoridades moçambicanas levanta algumas preocupações na nossa sociedade, uma vez que este acordo é, em si, uma fonte de desacordo no seio dos Estados-membros da CPLP. Recentemente entrevistámos a escritora Paulina Chiziane, que, tal como muitos moçambicanos, tem na actual ortografia do português um instrumento fundamental para passar as suas mensagens. Sobre o acordo em si, a autora que tem como mais recente livro o romance “O Alegre Canto da Perdiz”, afirma que “é algo confuso”. “O acordo ortográfico apenas me cria confusão. Eu defino a língua portuguesa como a minha viola e com ela quero tocar as músicas que quero. Se tenho que tocar com regras fixas ou se tenho que me adaptar, acho que isso é um problema menor. O acordo em si consiste, no fundo, em tirar o ‘c’ do facto ou o ‘p’ do óptimo. Se for só isso é pode ser um problema menor. Mas o que me preocupa são os efeitos colaterais dessa corrida por um acordo ortográfico”, comenta a escritora, questionando de seguida: “quantos dicionários Moçambique terá que comprar de novo? Quantos livros terá que mandar rescrever? Quantos livros de escola terão que ser refeitos, em nome de um acordo ortográfico? Será que valerá a pena sacrificar tanto dinheiro dos pobres só para tirar um ‘c’ e um ‘p’ do que está escrito?” A escritora diz não recear problemas – se se confirmar a alteração ortográfica – em adaptar-se a novas regras. Contudo, convida a sociedade, a começar pelos centros de decisão do nosso país, para repararem nos efeitos colaterais de uma aceitação de um instrumento que mesmo em Portugal não colhe consenso. “Esteticamente não me afecta muito mudar de ortografia, porque será apenas uma questão de adaptação. Olhemos bem para o que temos como acervo literário do país. Teremos que trocar tudo! Tudo, incluindo os livros que os miúdos têm nas bibliotecas ou que os pais os guardam ou mesmo as Bíblias, que são lidas por vários milhões de nós, só por causa de um simples acordo ortográfico. Penso que é um capricho tão desnecessário quanto caro”. A recomendação de Paulina Chiziane para os centros decisórios do país em relação ao acordo ortográfico é de que se pense “no que é bom para o nosso bolso, para os cofres do Estado, porque não há cooperação que vai suportar este capricho”. A nossa entrevistada denuncia o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa como uma bola que está a ser jogada a dois eixos do Atlântico: Portugal e Brasil. “É claramente a estes dois países que este assunto interessa. Nós não nos deveríamos concentrar nisso, porque temos muito mais com que nos preocupar. Nós e os outros (países da CPLP, exceptuando lusos e brasileiros) estão a ser arrastados. Quem é que quer ser dono de quem?”, indaga. “O projecto da lusofonia é do nosso antigo inimigo comum, mas de repente aparece o Brasil com muito mais força, porque tem também os seus interesses. É de facto um jogo de potências para o qual não sei se nós, como moçambicanos, de uma maneira geral, estamos preparados para participarmos nela. Acho que somos demasiado pobres para perdermos energias com isso, quando devemos fazer muito mais”.Se tivesse que escolher, Paulina Chiziane não defenderia exactamente a manutenção da actual ortografia, “porque aceito o direito que a língua tem para evoluir e não podemos parar no tempo”. Está contra – clarifica – “fazer um acordo porque algum sector acha que se tem que tirar, como já disse, um ‘c’ ou um ‘p’ de determinadas palavras. E contra a atitude dos governantes em embarcar nessa sem a necessária avaliação dos efeitos colaterais”. PORQUE É QUE TENHO QUE SER LUSÓFONA? Um único instrumento aparentemente une os países que fazem parte da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), o idioma que todos eles têm como oficial. Erradamente, se tem dito que se trata de uma comunidade de mais de 200 milhões de falante. Errado porque, por exemplo em Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, nem todos têm o português como “sua” língua. Ou seja, o idioma luso não é usado na comunicação pela totalidade dos seus habitantes. Só no nosso país, estimamos que, pelo menos, 30 por cento dos cerca de 20 milhões de habitantes que somos não tem domínio da língua portuguesa. Polémica dos números à parte, Paulina Chiziane é uma cidadã céptica quanto ao andamento e utilidade da CPLP. “Quando ouvi falar da CPLP antes pensei que era uma coisa bonita, mas hoje cada vez que me falam, falam-me também da lusofonia e por isso chamam-nos cidadãos lusófonos. Eu já sou africana, sou moçambicana, ainda vou ser lusófona? O que é isso? O que é que é que estas organizações querem? Não sei”.A escritora afirma recear que esta organização e outras similares venha trabalhar na recolonização de uma mente que já está colonizada. “Quando se está na lusofonia, é preciso falar lusofonicamente. Se eu e o meu povo não sabemos falar o luso, como é que vamos falar lusofonicamente? Então, não gosto muito e tenho medo destas instituições”, sublinha. “Dizem que sou escritora e que fui a primeira mulher moçambicana a escrever um romance. Eu apenas conto estórias”. Estas palavras pertencem à escritora que mais livros ofereceu à literatura. Mas a qual literatura? Moçambicana? Não, não, porque esta ainda não existe, segundo Paulina Chiziane. “Não penso que possamos dizer que temos uma literatura moçambicana, ou seja que se identifique como tal. Nós estamos todos os dias à procura de estéticas de isto ou daquilo para escrevermos ou para abordarmos a literatura. Os nossos modelos de aprendizagem ainda são os europeus. Até que ponto nos esforçamos por fazer reviver a estética tradicional moçambicana?” Este questionamento é resposta a um outro, que colocámos a Paulina Chiziane, sobre a literatura moçambicana. “Esta não é uma crítica que faço aos outros, pois eu também sou alvo dela. Reparemos numa coisa: a música é diferente da escrita, porque o músico, pelo menos, canta na sua língua”, explica a escritora, segundo quem “para você poder ser bom na literatura, salvo algumas e raras excepções, tem que escrever em modelos de A, ou de b, ou de C. Ora, bolas, que eu saiba, na nossa estética tradicional, quando se vai contar um grande conto, primeiro começa-se pelos ditados ou provérbios, etc. Essa é a estética da minha terra. Eu sou muitas vezes criticada e os meus críticos dizem e escrevem que ‘a Paulina escreve coisas que não têm forma’. E eu pergunto, forma de quê? Já foi muito bom eu aprender a ler e a escrever uma língua que não é originariamente nossa”, comenta. Na opinião desta proeminente escritora, os autores moçambicanos e muitos outros de outros países africanos – de expressão portuguesa e não só – têm, ainda que de forma inconsciente, escrito em modelos que lembram os europeus. Defendendo a ideia de que a literatura moçambicana é algo que ainda está por nascer, “porque os nossos escritos não nos identificam suficientemente como moçambicanos, fora as histórias que contamos”, Paulina Chiziane é de opinião que se devia investir na criação de um modelo de escrita nosso, baseado, por exemplo, na forma como são apresentados os contos orais. “Escrevemos na língua do outro, na estética do outro e ainda não investimos na busca da nossa própria estética. Atenção, eu própria estou inclusa nesta crítica”. “Não tenho muitas boas palavras para explicar bem o que quero dizer, mas posso dar o exemplo de uma viola: é um instrumento europeu, ao alcance de qualquer indivíduo no mundo. O chinês compra-a e faz acordes chineses, portanto que o identificam. O moçambicano compra-a e faz acordes ou chopes, da marrabenta ou de todas as outras coisas que nós somos na música. O árabe idem, dedilhando o seu som”, comenta. “Neste momento a nossa viola é a língua portuguesa. O que é que nós fazemos com a língua portuguesa em Moçambique? Eu escrevo na língua portuguesa e ainda me pedem para usar a estética da escrita da língua portuguesa. Por amor de Deus!”, desabafa a autora, que se considera escritora, mas que, segundo ela, ainda não atingiu maturidade para chamar-se a si mesma escritora moçambicana."
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