Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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14 de nov de 2008

110 anos sem Cruz e Souza

(Por: Florentina Souza*, fonte – Irohin www.irohin.org.br).“Há 110 anos, em 15 de março de 1898, morria o poeta Cruz e Sousa, no estado de Minas Gerais para onde foi em busca de melhoria da saúde. Jornalista engajado nas questões políticas e literárias de seu tempo, ativista do movimento abolicionista no Brasil, nasceu a 1 de novembro de 1961 e morreu aos 37 anos. Na sua biografia consta o exercício de uma série de atividades como: redator de jornal, diretor do Jornal O Moleque, colaboração na Revista Ilustrada e nos Jornais Novidades, Folha Popular, O tempo e Cidade do Rio, arquivista da Central do Brasil, entre outras atividades, nenhuma das quais lhe garantiu recursos suficientes para uma vida equilibrada financeiramente. Esteve na Bahia em 1885 quando proferiu palestra intitulada “O Abolicionismo” – trecho da qual está publicada no volume de sua Obra Completa de 1995. De sua autoria, em vida, o poeta publicou apenas o livro em prosa Missal, (em fevereiro de 1893) e o livro de poemas Broquéis (agosto do mesmo ano), no prelo deixou Evocações, além de vários textos dispersos. Considerado pela historiografia literária institucional como o grande nome do Simbolismo no Brasil, o poeta Cruz e Sousa até hoje provoca dissensões entre os críticos literários. Alguns acusam sua poesia de hermética, de possuir linguagem preciosa e distanciada da realidade por ele vivida; outros descrevem-na como detentora de uma sensualidade libertina; outros ainda vêem no poeta um virtuose no uso dos recursos expressivos caros à chamada literatura erudita. A grande crítica literária brasileira da época, investida de uma certa aura que sempre a caracterizou, principalmente no decorrer das últimas 3 décadas do século XIX, não deu grande importância ao poeta de Florianópolis, autor de estilo “esdrúxulo” e carregado de adjetivos. Sílvio Romero e José Veríssimo e Araripe Jr, a chamada santíssima trindade da crítica do período, falam sobre a obra do poeta, na maioria das vezes de modo ambivalente, quando não apontando falhas e obscuridade de linguagem, destacando também a excepcionalidade artística do poeta negro. Segundo Tasso de Oliveira(1), após os estudos de Nestor Vitor no início do século XX, somente a partir da crítica do francês Roger Bastide, publicada em 1943, observa-se um maior interesse dos críticos brasileiros pela poesia do autor. Em 1961 é lançada uma edição de suas obras completas e em 1995, já esgotada há muito a primeira edição, a obra é reeditada com acréscimo de textos dispersos recolhidos por estudiosos e pesquisadores(2). Nesta edição, encontramos 4 livros de poesia, 6 de prosa e algumas correspondências. Raimundo Magalhães Jr foi editor de uma importante biografia do poeta cuja obra tem sido traduzida para várias línguas. Nestes 110 anos alguns estudiosos têm se voltado para os seus textos no intuito de entender e/ou analisá-los(3). No banco de teses da Capes, a partir 1995, encontramos cerca de 23 teses cadastradas que têm como tema central vida e/ou obra de Cruz e Sousa, além de outros registros nos quais ele/a obra aparece como parte da temática central. Assim, constatamos que os estudos sobre o poeta parecem ter ganho mais espaço na contemporaneidade. Por outro lado, escritores e poetas afro brasileiros contemporâneos têm ressaltado a importância de Cruz como precursor ou talvez motivador de suas produções literárias e deste modo, escrevem textos de homenagem em que destacam aspectos significativos da obra do poeta do século XIX a exemplo do poeta Luis Silva Cuti no poema intitulado “Tradição(4)” sob a vasta bigodeira de machado/ os lábios da raça escondidos acho/ a lâmina do riso e o discreto escracho/ em cruz fico muito á vontade/ para reunir setas de revolta/ angústia e cravos/ ensaio o arrombamento de portas/ com o pé –de – cabra/ que me empresta/ com o deboche de sua risada/ o gama/ com o lima afio as facas/ entro na trama/ solano eu abraço/ no boi-bumbado socialistado/ num salto a- rap-iado/ chego junto com os mano/ nossa vida/ muito tato e tutano. O poeta teve a vida marcada pela miséria e tragédia. Pobreza, discriminação os efeitos do racismo parecem tê-lo acompanhado decididamente: Loucura da esposa, salário ínfimo, morte do pai, tuberculose, tudo isto seguido do desprezo, ironia e depreciação de seu trabalho por grupos racistas da elite intelectual da época devem ter contribuído para a morte prematura do poeta. A dor, a tristeza, a angústia, a morte e o desespero percorrem os seus textos nos quais se pode observar por um lado uma revolução no modo de construir os versos e por outro, vê-se também um coração e uma mente que lutam incessantemente para dominar estética e tecnicamente as palavras, a forma poética e, com a mesma intensidade, lutam para expressar as ambivalências e os dramas pessoais vivenciados por um homem negro e pobre que se encontrava “fora de lugar” na sociedade brasileira do século XIX. Um grupo de críticos contemporâneos ainda insiste em minimizar as conseqüências do racismo de que foi vítima nosso poeta, “ esquecem” do trabalho do escritor martiniquenho Franz Fanon que, nos idos da década de 50 do século XX, aborda situações pessoais e de outras indivíduos que vivenciaram situações semelhantes “aquelas vividas por Sousa nos finais do século XIX. Em seu Pele negra máscaras brancas, como psiquiatra, analisa as nefastas conseqüências que a pessoa negra sofre em sua psiquê em decorrência dos embates cotidianos contra os mitos da inferioridade das pessoas negras. É interessante pontuar como o negrura de Cruz e Sousa foi “notada” e registrada pelos críticos que, teoricamente, deveriam analisar apenas os seus poemas, de modo independente do seu pertencimento racial. No livro organizado por Afrânio Coutinho, composto de fortuna crítica de Cruz e Sousa, publicado em 1979, dos 31 textos críticos selecionados, 8 deles, em seus títulos fazem referência à afrodescendência do poeta; isto sem computar aqueles, grande maioria, que o fazem no corpo do texto. Deste modo, falar de Cruz e Sousa como um grande poeta negro reitera, em parte, o modo como ele é lido pela crítica literária no Brasil. Em sua larga produção poética, a maior parte de organização póstuma, Cruz e Sousa abarca um vasto leque de temáticas. Uma das obsessões do poeta é pela linguagem e pela forma - o desejo de atingir uma relação íntima entre palavra, sentimento e estética. De acordo com os programas estéticos dos simbolistas, o poeta insiste na musicalidade e no abandono do pretendido distanciamento e objetividade para, em texto intitulado “Estilo” , enfatizar o seu desejo de “domar” o seu material de trabalho, a linguagem, mas não como os parnasianos, e sim de um modo que a forma e a palavra não amesquinhassem a potência da criatividade subjetiva: O vocábulo pode ser música ou pode ser trovão, conforme o caso. A palavra tem a sua anatomia; e é preciso uma rara percepção estética, uma nitidez visual, olfativa, palatal e acústica apuradíssima, a exatidão da cor, da forma e para a sensação do som e do sabor da palavra” (O.C. p.685) (...) para além da retórica e da metafísica, afastando-se dos princípios de todos os dias rubricados pelo fastio das chapa, amarrados pelos barbantes de uma gramática oficial e convencionada que obriga a idéia a fazer cabriolas ....” (O.C .p. 686) A vertente musical de sua produção poética foi exaustivamente apontada pelos críticos mas uma leitura atenciosa de sua obra apontará que além da exploração da potência sonora das palavras, sua poesia se volta também para temas da sua contemporaneidade, entre eles a escravidão, como ilustram poemas que por muito tempo foram “esquecidos” pelos críticos tais como: “Escravocratas”, “Da Senzala”, “Dilema”, “25 de março”, “Titãs Negros”, “Sete de setembro”, “Crianças Negras” e “Grito de guerra” ( todos presentes na edição da obra completa de 1995). O poema “Grito de guerra” é dedicado “ Aos senhores que libertam escravos” e no poema “Sete de Setembro”, louvando políticos e poetas do século XIX que se empenharam em intervir na vida brasileira brada contra o regime escravagista: È preciso com esforço,/ Colossal, estranho, ingente,/ Ir o cancro, de repente/ Esmagar que nos corrói!.../ É preciso que essa Deusa,/ Raie enfim na Imensidade/ Mais altiva como sói!...(O.C. p.334) A poesia, a atividade literária, consistia na vida para o poeta, sem a arte , o poeta sentia-se impossibilitado de viver, como podemos constatar no poema intitulado “Esquecimento”, publicado em Faróis, coletânea de publicação póstuma organizada por Nestor Vitor : Ó meu verso, ó meu verso, ó meu orgulho,/ Meu tormento e meu vinho,/ Minha sagrada embriaguez e arrulho/ De aves formando ninho/ Verso que me acompanhas no Perigo/ Como lança preclara,/ Que este peito defendo do inimigo/ Por estrada tão rara!/ Ó meu verso, ó meu verso soluçante,/ Meu segredo e meu guia,/ Tem dó de mim lá no supremo instante/ Da suprema agonia./ Não te esqueças de mim, meu verso insano,/ Meu verso solitário/ Minha terra, meu céu, meu vasto oceano,/ Meu templo, meu sacrário./ Embora o esquecimento vão dissolva/ Tudo, sempre, no mundo,/ Verso! Que ao menos o meu ser se envolva/ No teu amor profundo!/ (O. C. p. 121) Como vemos, nos versos cabem céu, terra, oceano, templo e sacrário, ou seja tudo, todos os sentimentos, e mais, os versos são capazes de superar a precariedade humana; a poesia é eterna e poderá eternizar o poeta, levá-lo ao “Caminho da glória”(5),um poeta que assim sonhava, termina vendo-se com humilde entre s humildes seres. O contexto do final do século XIX não poderia ser menos hostil a Cruz e Sousa e seu desejo de inscrever-s no seleto grupo de intelectuais brasileiros, ou melhor, intelectuais da corte ( Rio de Janeiro) É sabido que o final do século XIX faz da atividade intelectual uma moeda de ascensão para pobres e empobrecidos mas não para os negros como atestam cartas e textos de Cruz e Sousa e Lima Barreto, por exemplo. Observam-se nos dois escritores o insistente desejo de participar da intelectualidade brasileira, e a certeza de que sua capacidade e talento não eram reconhecidos. Nos Últimos sonetos, também de publicação póstuma, podemos ler uma ansiedade do poeta diante do descaso para com sua obra artística. Vários poemas tematizam o desejo de reconhecimento artístico, de perfeição, de grandeza; podemos perceber que o poeta parecia ter consciência da proximidade da morte e desesperava-se diante do fato de não palmilhar o “Caminho da glória”. O livro parece fundir fatos autobiográficos no desenvolvimento de uma teoria-poética sobre o artista: Diante do impasse de reconhecer-se inteligente e criativo e não ter sua obra legitimada pelos grupos de escritores da época, o poeta desabafa nos sonetos a angústia, e principalmente o forte deseje de fazer parte da plêiade de poetas e escritores do então centro político e cultural do Brasil, o Rio de Janeiro. Para ele o “Grande momento”(6) é aquele da consagração do artista, quando reconhecido é recebido pelos já iniciados, assim sonha: Inicia-te, enfim, Alma imprevista,/ Entra no seio dos Iniciados,/ Esperam-te de luz maravilhados/ os dons que vão te consagrar Artista” Sousa não teve a oportunidade de presenciar nem a consagração de sua maestria poética nem a publicação em livro destes versos... Em outro momento, expressa mais umas vez a mesma sensação no poema “Vida obscura”: “ ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,/ ó ser humilde entre os humildes seres./ Embriagado, tonto dos prazeres, o Mundo para ti foi negro e duro”(...) Ninguém te viu o sentimento inquieta, /Magoado, oculto e aterrador,secreto,/ que o coração te apunhalou no mundo” ( O. C. p.183) Em alguns textos, talvez ainda esperançoso de que assumindo alguns ideais “burgueses” pudesse ser aceito no grupo, Sousa não é tão enfático na revolta diante da galhofa e indiferença das críticas quanto no antológico texto “Emparedado” do livro Evocações, publicado em 1897 e que ele deixou no prelo. Poema em prosa, expressão lírica e dolorosa de um eu que se vê impotente e acuado pelo racismo, pela discriminação agenciados por um universo que se define branco e que reage violentamente contra aqueles que não refletem seu rosto e tradições. É também um texto de reflexão estético-crítica no qual o sujeito poético vai discutindo concepções de atividade artística e intelectual, dialogando com as referências teóricas aceites, com destaque para a oposição construída pela tradição ocidental entre emoção e razão, entre Europa e África. Uma oposição discriminatória que leva o poeta a inquirir: “Deus meu! Por uma questão banal da química biológica do pigmento ficam alguns mais rebeldes e curiosos fósseis preocupados, a ruminar primitivas erudições, perdidos e atropelados pelas longas galerias submarinas de uma sabedoria infinita, esmagadora, irrevogável!” Aqui, o poeta evita as sugestões ou meios termos e rebate explicitamente as bases deterministas e racistas do pensamento e das práticas intelectuais de sua época. A produção textual de Cruz e Sousa abarca várias outras temáticas que estão disponíveis para os estudiosos, críticos e leitores interessados em conhecer e apreciar a literatura brasileira para além dos limites do cânone historiográfico". (*Professora Adjunta de literatura brasileira da UFBA Pesquisadora de literatura e cultura afro-brasileiras CNPQ e CEAO).Referências básicas: COUTINHO, Afrânio. ( org.) Cruz e Sousa.Rio de Janeiro,: Civilização Brasileira, 1979( col Fortuna crítica, v.4). CRUZ E SOUSA. Obra completa. Org. Andrade Murici. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. LEMINSKI. Cruz e Sousa: o negro branco. São Paulo: Brasiliense,2003. (1)In: Coutinho, Afrânio. Cruz e Sousa, p.46. (2) Todas as referências a textos de autoria de Cruz e Sousa serão feitas a partir da Obra completa de 1995, grafada a partir de agora O.C. (3) Em 1979, Afrânio Coutinho fez o levantamento de textos sobre a obra de Cruz e Sousa e publicou o que para ele havia “de mais representativo” . (4) CUTI. Negroesia: Antologia poética. Belo Horizonte: Mazza, 2007. (5) Título de poema publicado em Últimos Sonetos. (6) Título de outro poema publicado no livro Últimos sonetos
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