Racismo no Brasil e afetos correlatos, livro novo de Cidinha da Silva

Racismo no Brasil e afetos correlatos, livro novo de Cidinha da Silva
Racismo no Brasil e Afetos Correlatos (Conversê Edições) é o novo livro com que a escritora Cidinha da Silva brinda os leitores brasileiros neste fim de ano. A obra, com 168 páginas, está dividida em duas partes. A primeira, reúne crônicas, a maioria já publicada no Blog mantido pela autora, e a segunda parte é dedicada a textos opinativos, elaborados, principalmente, a partir da análise de novelas, séries e programas globais. Cidinha da Silva é uma sagaz observadora dos fatos cotidianos da sociedade, mas os filtra pelas lentes da questão racial, o que dá um colorido crítico, mas não excessivamente militante, a cada um dos seus textos, quer as crônicas, quer os opinativos. Neste livro, o sétimo de sua carreira, a fonte para seus escritos são, sobretudo, a televisão - mais propriamente as novelas -, e a internet. Nada escapa aos olhos atentos e críticos da escritora/cronista. Do mendigo-gato que andou provocando comoção nacional à espetacularização em que se transformou a vida; da PEC das domésticas à posição de herói nacional a que o ministro Joaquim Barbosa foi alçado pelo povo (incensado pela mídia); da estética negra inovadora da minissérie televisiva Subúrbia à constatação de que as notícias circulam na internet tão velozmente quanto, cada vez mais, “desacompanhadas da qualidade da compreensão”. Cidinha não apenas capta os fatos como os analisa de uma perspectiva que surpreende e desconcerta, ao dar cunho político, racial, de gênero, aos acontecimentos e narrativas, aparentemente, comuns. Boa parte dos textos opinativos tem por foco novelas exibidas pela Rede Globo. Se não poupa críticas ora à escolha ou interpretação dos atores, ora ao texto (e suas omissões) ou diálogos, a autora também não economiza elogios quando percebe que há razão para fazê-los. De crônica em crônica, de opinião em opinião Cidinha aponta o dedo para a discriminação racial e, principalmente, para a relativização dessa atitude com base no afeto pelo negro que sempre mascarou as relações desiguais na sociedade brasileira. O livro ganhou belíssima capa da artista plástica Renata Felinto, apresentação de Marcos Fabrício Lopes da Silva, poeta e professor de literatura, e orelha do escritor baiano Fábio Mandingo. A mais nova obra de Cidinha da Silva, autora também de Cada tridente em seu lugar, Os nove pentes d’África, Oh Margem! Reinventa os rios e dos infantis O mar de Manu e Kuami.

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30/04/2008

Haiti em imagens

A crise no Haiti vai continuar

(Por: Claudia Jardim,do jornal Brasil de Fato) de Porto Príncipe, Haiti “Aquilo foi só o começo”. A sentença é de um vendedor ambulante que passa o dia em meio ao caótico centro de Porto Príncipe, capital do Haiti ao se referir à convulsão social vivida no país em meados de abril motivada pelo aumento dos preços dos alimentos. A aparente tranqüilidade conquistada após a destituição do primeiro-ministro e da promessa de redução dos preços do arroz, não perdurará de acordo com Juin Miguel: “Essa calma vai durar pouco”, adverte. Os principais jornais do país encabeçam seus editoriais advertindo que a crise continua. Na rua o sentimento é o mesmo. “Como um presidente, o chefe do país, diz na televisão que não pode fazer nada para garantir que o povo tenha comida, que é culpa do mercado? Eu não entendo isso. Não temos trabalho, não temos comida, não temos nada”, afirma Miguel, pai de quatro filhos, enquanto esperava pacientemente que alguém que lhe comprasse utensílios de cozinha. Já eram três da tarde e tinha ganho menos de um dólar. Em meio ao vai e vem e ao caos do trânsito e do mar de vendedores ambulantes, mulheres anunciam a gritos a mercadoria à venda. As bacias equilibradas na cabeça levam frutas, verduras, balas, chicletes, vende-se de tudo. Cerca de 92% dependem da economia informal. Motivo da revolta O aumento dos preços dos alimentos, do arroz em especial que foi triplicado em menos de uma semana, a política econômica e a presença das tropas da Minustah – missão de paz das Nações Unidas – motivaram as manifestações iniciadas dia 3 em Les Cayes, região Sul do país, e que se estendeu para a capital Porto Príncipe. A crise era previsível e, de acordo com analistas, o governo optou por não evitá-la. O incremento do preço do barril de petróleo, que alcançou o recorde de 113 dólares, o aumento da demanda de alimentos dos países asiáticos e a pressão para a produção dos agrocombustíveis incidiram no aumento dos preços. No entanto, para o economista Camille Chalmers, a instabilidade dos preços dos alimentos também está relacionada com a especulação do mercado financeiro mundial, afetado pela crise econômica global. A seu ver, muitos empresários vêm os alimentos como a saída para recapitalizar parte dos lucros perdidos em outros setores da economia. “O alimento é um produto de primeira necessidade, é vital, então é mais fácil lucrar desta forma. Se vemos a disponibilidade de alimentos no mercado mundial vemos que não há uma escassez tão grande que possa justificar um aumento tão rápido dos preços. É um fenômeno altamente especulativo”, avalia. Os cereais sofreram um incremento de preços de 88% entre março de 2007 e março deste ano. A cesta básica, que inclui carne, farinha e leite aumentou 57% neste mesmo período, de acordo com a FAO. “Tudo isso incide na alta dos preços que ganha um impacto devastador sobretudo em países como o Haiti”, afirma Camille. Protestos convocados por rádio Em Le Cayes, as manifestações foram organizadas por meio de uma rádio comunitária que informava as razões da mobilização e convocava a população às ruas. “Saímos a protestar pela alta de preços dos alimentos, contra a política neoliberal deste governo e para exigir a saída das tropas da Minustah”, afirma Guy Numa, do Movimento Democracia Popular (Modep) – uma das organizações que se uniu aos protestos na capital do país. “Essa situação é insustentável, o povo não agüenta mais tanto sofrimento”, acrescenta. As manifestações foram reprimidas pelas tropas das Minustah quando os manifestantes entraram na sede de telecomunicações da missão militar. Quatro pessoas foram mortas, três delas pela missão de paz das Nações Unidas, outra pela Polícia Nacional. Dezenas resultaram feridas. “Se queriam a saída da Minustah, com os protestos conseguiram ratificar o mandato das Nações Unidas por mais um longo período. Para a comunidade internacional isso prova que o Haiti ainda não alcançou estabilidade”, critica Patrick Elié, ex-ministro de Defesa durante o segundo governo de Jean Bertrand Aristid. Os protestos incendiaram a capital Porto Príncipe. Os manifestantes chegaram aos portões do Palácio de Governo para exigir a presença do presidente haitiano. Uma semana antes, Preval teria admitido em uma entrevista que ele também estava sofrendo pela alta dos preços dos alimentos e que se preciso fosse, se uniria às manifestações. Preval não saiu às ruas. Após três dias de manifestações, o presidente haitiano se comprometeu reduzir em 8 dólares o preço do arroz, apaziguando a revolta. A promessa tem o prazo limitado de um mês. Logo depois os preços se estabilizaram em 51 dólares por cada saco de 45 quilos de arroz. “É uma concessão muito limitada e artificial, não resolve o problema”, afirma Chalmers.

29/04/2008

Literatura infantil recomendada pelo blogue da Mara Evaristo

(www.maraminas.blogspot.com) A linha assanhada - Autor: Carlos Jorge - Editora Dimensão. A manta - Autora: Sônia Rosa; Ilustrador Edu - Edições Paulinas. A menina que tinha o céu na boca - Autor: Júlio Emílio Braz; Ilustrador: Ivan Zigg- Editora Difusão Cultural do Livro. A semente que veio da África - Autores: Heloisa Pires Lima, Georges Gneka e Mário Lemos; Ilustradora: Véronique Tadjo -Editora Salamandra. A África, meu pequeno Chaka... Autora: Marie Sellier; Ilustradora: Marion Lesage - Editora Companhia das Letrinhas. Adivinha quanto eu te amo - Autora San McBratney; Ilustradora: Anita Jeram - Editora Martins Fontes. Aparências enganam - Autora: Tatiana Belinky; Ilustradora: Cristina Biazetto - Editora Cortez. As tranças de Bintou - Autora: Sylviane A. Diouf; Ilustração: Shane W. Evans - Editora Cosac & Naify. Boti e seus amigos da Amazônia / Bruna e a galinha d'Angola - Autora: Gercilga de Almeida; Ilustradora: Valéria Saraiva - Editora Pallas e Editora Didática e Científica ltda. Calvin e Haroldo - Autor Bill Watterson - Editora Best Expressão Social e Editora Ltda. Coleção Adivinhe Só - O que é? - Autora: Ana Maria Machado; Ilustrador: Claudius Ceccon - Editora Salamandra. Coleção Completa da Mafalda. Coleção Griot Mirim - Mazza Edições. Como as Histórias se espalharam pelo Mundo - Autor: Rogério Andrade Barbosa; Ilustradora: Graça Lima - Editora Difusão Cultural do Livro. CRIANÇAS CRIATIVAS - O Baú de Histórias - Autor: Gail e. Haley - Editora autora & Agentes & Associados. Fica Comigo - Autora: Georgina Martins; Ilustradora: Elisabeth Teixeira - Editora Difusão Cultural do Livro. Mestres das Artes Pablo Picasso - Autor e Ilustrador: Mike Venezia - Editora Moderna. O amigo do Rei - Autora: Ruth Rocha; Ilustradora: eva Furnari - Editora Ática. O colecionador de pedras - Autora: Prisca Agustoni; Ilustrador: André Neves - Edições Paulinas. O Congado para Crianças - Autor Edimilson Pereira; Ilustrador: Rubem Filho - Mazza Edições. O Contador de Histórias - Autor: Roberto Carlos Ramos; Ilustradores: rubem Filho, Fernando Rabelo, Hélvio Avelar, Carlos José Reis Fonseca, Luís Antônio Dourado Junior, Túlio Márcio de Oliveira - Editora Leitura. O emprego da Lua - Autor: Victor Louis Stutz; Ilustradora: sandra Bianchi - Editora Formato. O mundo maravilhoso - Editora Brinque-Book. O rato roeu a roupa - Autora: Ana Maria Machado; Ilustrador; Claudius - Editora Salamandra. Que Mundo Maravilhoso - Autor: Julius Lester; Ilustrador: Joe Cepeda - Editora Brinque-Book. Saladinha de queixa - Autora Tatiana Belinky; Ilustrador: Herrero - Editora Moderna. Tanto tanto - Editora Ática.

28/04/2008

O dilema de Barack Obama

(Por: John Gerring e Joshua Yesnowitz. Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil). "Seu discurso realça a luta por direitos para todos na era pós-industrial. Sua história de vida encarna a esperança de outra globalização possível. Suas posições estão bem à esquerda da média do Partido Democrata. Mas como ele enfrentará o desafio da disputa eleitoral, num país marcado pelo conservadorismo? John Gerring, Joshua Yesnowitz Além de uma campanha eleitoral clássica, a candidatura de Barack Obama é um movimento, como revelam as multidões eletrizadas que comparecem a seus encontros, as dezenas de voluntários que o apóiam e mais de um milhão de pequenos doadores. Este movimento agregou uma grande quantidade de novos eleitores ao processo de escolha do Partido Democrata, particularmente jovens e independentes [1]. Como resultado deste entusiasmo, o comparecimento às primárias e caucuses do Partido Democrata alcançou um recordes históricos. Aparentemente, Obama injetou nesta disputa um calor que esteve ausente por muitos anos [2]. E no entanto, há enormes diferenças de opinião sobre o significado da candidatura de Barack Obama. Para seus eleitores, ele é uma força fundamentalmente nova para a política norte-americana, já que vai além do partidarismo e convida a ultrapassar um jogo eleitoral viciado. Para seus oponentes no Partido Democrata (aqueles que apóiam a candidatura da senadora Hillary Clinton), ele é um espalhafatoso vulgar, combinando juventude e inexperiência. E para os partidários ao republicanismo, é um sujeito fascinante, mas que não tem nada de misterioso: um progressista ultrapassado, desejoso de redistribuir a renda por meio de impostos, pouco diferente daqueles que o precederam. Cada uma destas perspectivas contém elementos de verdade. Porém, o que este homem traz de novo, seu ineditismo, e também sua história de vida, têm fornecido um amplo acervo para os diversos palpites. Tendo um pai do Quênia e uma mãe do Kansas, Obama foi criado no Havaí e na Indonésia, para onde sua mãe se mudou a fim de aprofundar suas pesquisas de doutorado em Antropologia (e onde acabou se casando de novo, o que deu a Obama um padrasto Indonésio). Ele freqüentou a faculdade na Califórnia (Occidental) e em Nova Yorque (Columbia), depois mudou-se para o Sul de Chicago, onde foi organizador de comunidades, até receber seu diploma de Direito em Massachussetts (Harvard). Não é de surpreender que Barack Hussein Obama tenha servido como um pergaminho de diversas camadas, sobre o qual o mundo projetou muitos dos grandes temas contemporâneos. Barack Obama é um mensageiro, mas não um arquiteto do moderno Partido Democrata. Exotismos à parte, a candidatura de Obama está fincada nas questões que agora são tradicionais do Partido Democrata. Do fim do século 19 até a metade do século 20, as causas do partido eram definidas pela oposição à concentração de poder e dinheiro na sociedade norte-americana. Candidatos democratas à presidência – incluindo William Jennings Bryan (em 1896, 1900, 1908), Woodrow Wilson (1912, 1916), Franklin Roosevelt (1932, 1936, 1940 e 1944), e Harrry Truman (1948) – fizeram campanha pelo “povo” e contra os “interesses [privados]”. Eram marcados por uma visão plebiscitária do poder político, em que as pessoas comuns se juntavam para governar diretamente (ou o mais diretamente possível), e conchavos “privados” entre representantes do poder eram considerados corruptos, plutocráticos. Nos discursos, investiam contra o poder concentrado dos capitalistas, referindo-se a eles como trusts e Big Business. Contra os privilégios desfrutados pelas elites, os democratas lutavam pelos direitos do homem comum -– este, assumidamente branco e de origem européia. Assim foi era populista da ideologia do Partido Democrata [3]. Mutações no discurso do Partido Democrata. A luta por um "governo da maioria" e a denúncia do Big Business são substituídas pelos "direitos para todos" — inclusive as minorias Na Era pós-II Guerra, a começar pelas campanhas de Adlai Stevenson (1952,1956), e depois com as de John Kennedy (1960), Lyndon Johnson (1964) e Hubert Humpphrey (1968), o discurso ácido da era populista diluiu-se. O antagonismo das classes sociais foi deslocado. Em seu lugar, entram os novos objetivos políticos e auto-imagem do partido. Os democratas do pós-guerra defendiam as reformas sociais da era progressista e do New Deal, e de vez em quando buscavam estender o alcance destas políticas (especialmente, as de seguridade social). No entanto, em seu discurso público, todas as conotações ligadas à luta de classes desapareciam. No lugar delas, os democratas adotaram a ideologia do universalismo, em que todas as raças, credos e classes pudessem estar envolvidas. Essa estratégia retórica tinha como objetivo central o desejo de escapar dos possíveis perigos de um comunismo em ascensão (sobretudo, no auge da Guerra Fria), e da crescente impopularidade do movimento trabalhista. Os democratas do pós-guerra raramente faziam apelos ao governo para regular o setor privado; e nunca atacaram o setor do Big Business. Além disto, a adoção de uma ideologia universalista de união nacional não era somente uma ferramenta retórica, por meio da qual se evitavam acusações de práticas de socialismo e não-americanismo. Ela também articulava um novo objetivo político, fundamental para o Partido Democrata. A partir de 1948, com a adoção do primeiro modelo de direitos civis, os democratas passaram a apoiar o engajamento ativo do governo na garantia de direitos para as mulheres e minorias. No princípio, o significado de minorias ficava restrito aos afro-americanos. Com o passar do tempo, o precedente dos direitos civis aos negros foi se estabelecendo, e o partido passou a defender, da mesma forma os direitos das mulheres, dos hispânicos, dos homossexuais e uma miríade de outros temas, menos etnicistas e mais baseados em causas. Assim, a filosofia dos direitos foi incessantemente estendida. De fato, o partido ao longo do curso do século vinte passou pelo processo de transformação, da ideologia do “governo da maioria” para a ideologia de “direitos das minorias”. No entanto, o passo seguinte nesta caminhada para a unidade entre irmãos e irmãs acabou não acontecendo. O padrão dos candidatos do partido à presidência inclui apenas homens e brancos. Mulheres e minorias foram encorajadas a votar para os democratas, mas nunca contempladas com a indicação ao posto (ainda que alguns tenham tentado, como Geraldine Ferraro e Jesse Jackson). Agora, depois de pregar a fala da inclusão por meio século, o partido está sendo induzido a dançar conforme a música. Este ano, não importa qual dos dois candidatos for escolhido, tanto ele (Barack) quanto ela (Hillary) vão encarnar, em suas histórias de vida, a marca do Partido Democrata contemporâneo. O único postulante sério com pele branca e cromossomo Y – John Edwards – suspendeu sua campanha após ser davastado nas primárias, em que não ganhou sequer em um estado. É de notar que Edwards promovia uma campanha populista, focada em disparidades de classe e desigualdade de renda, uma estratégia falida para ganhar força. Obama afirma-se enquanto o ápice da inclusão democrática. Sua vitoriosa história de vida e sua retórica retumbante captam o clima desta era pós-industrial Dos dois candidatos-líderes, um colocou o tema universalista com maior força que o outro. Enquanto Hillary Clinton apresenta-se como mestre da política, protagonista dos cuidados com a saúde e co-presidente da administração Clinton, Barack Obama afirma-se enquanto o ápice da inclusão democrática. Não somente sua vitoriosa história de vida, como também sua retórica retumbante captam o clima do partido nesta era pós-industrial. Apresentado a uma platéia nacional pela primeira vez em julho de 2004, quando se dirigiu à convenção do Partido Democrata, o então candidato de Illinois ao Senado cativou os delegados com seu apelo não-ideológico à comunidade e sua crença cívica. Estas palavras pertencem ao discurso que fez na ocasião, e que se tornou famoso: Não existe uma América liberal e uma América conservadora: existem os Estados Unidos da América. Não existe uma América branca e uma América negra, uma América latina e uma América asiática: existem os Estados Unidos da América... Nós cultuamos um Deus todo-poderoso nos Estados azuis [democratas], e não gostamos de agentes federais bisbilhotando nossas bibliotecas, nos Estados vermelhos [republicanos]. Nós organizamos campeonatos de basquete nos estados azuis e temos amigos gays nos estados vermelhos. Existem patriotas que se opõem à guerra no Iraque e patriotas que a apóiam. Nós somos um só povo, todos nós prezamos a as estrelas e as listras, todos nós defendemos os Estados Unidos da América. Nos eventos de campanha – que chegaram a ser comparados, por observadores, a rituais religiosos – Obama relembra seus apoiadores, de forma consistente, que todos os norte-americanos, sem distinção de raça, classe, ou gênero podem prosperar. Seu próprio nome, ele diz, é um símbolo da possibilidade norte-americana de mobilidade e destaque social: [Meus pais me deram] um nome africano, Barack, ou “abençoado”, acreditando que, em uma América livre, um nome não deve ser uma barreira para o sucesso. Eles me imaginaram freqüentando as melhores escolas do país, mesmo que não fossem ricos, porque em uma América generosa você não precisa ser rico para realizar seu potencial. Como mostrou no caso do Iraque, ele não evita tomar posições. Mas seus apoiadores as minimizam muitas vezes, em favor da representação de conjunto que ele expressa Obama promove sua candidatura enquanto um político pós-partidário e pós-racial, buscando construir uma totalidade inclusiva, um consenso para a “mudança”. Isto permite a seus eleitores definir o que Obama representa para eles mesmos, livres das reais posicões políticas que o candidato defende. Não é tanto que Obama tenha evitado tomar posições (ele as assumiu de forma clara, por exemplo, sobre a guerra do Iraque: [4] são seus apoiadores que as minimizam muitas vezes, em favor da representação do conjunto que ele expressa. Nada expresa melhor a confluência entre forma e conteúdo, na mensagem de Obama, que seu slogan “Sim, podemos” Yes, we can. Ele incorpora temas universalistas de inclusão e tolerância, num estilo em que o orador faz o apelo e espera a resposta, remanescente da tradição participativa da igreja afro-americana (Ver, em “Yes, we can” um exemplo) Não é de se supreender, no entanto, que as massas do Partido Democrata tenham se unido a este arauto na atual temporada de primárias. Obama reflete o que o partido veio afirmando durante toda a segunda metade do século passado. Ele é a apoteose do universalismo democrático. Ao longo do curso da campanha, Obama foi atacado repetidas vezes – primeiro por Clinton e agora pelo senador John Mccain, provável candidato republicano. Ambos julgaram-no “meramente retórico” e “eloquente, mas vazio” querendo dizer sem substância, sem estofo. Alega-se que seu conhecimento de política é fraco e que ele não tem uma agenda clara. A modernidade de Obama não tem nada a ver com a de Bill Clinton. Se escolhido por seu partido, Obama será o mais à esquerda entre os democratas desde George Mc Govern, em 1972 Embora esta linha de ataque expresse uma preocupação legítima, é também necessário apontar que a política é uma arte feita de palavras, o elemento mais forte e sonoro que evoca poesia no léxico político de hoje (“poeta” é outro epíteto, supostamente desqualificador, atirado contra Obama). As palavras e a capacidade de usá-las são habillidades da profissão, visto que a política é essencialmente uma arte retórica. As pessoas ouviam Ronald Reagan e gostavam do que ele dizia. O mesmo não poderia ser dito de H.W. Bush, nem de G.W. Bush. Da mesma forma, o sinal que distingue Bill Clinton de de quase todos os outros recentes aspirantes a presidente democratas (incluindo sua esposa) é sua maestria na arte de comunicação. Sem isto, Obama (ou Hillary) não podem conseguir grande coisa. O senso comum (repetido incansavelmente na campanha de Hillary Clinton) de que se faz campanha em poesia e se governa em prosa omite que, nesta era de permanente campanha, é preciso dominar ambos os meios, todo o tempo. Não é por acidente que os líderes norte-americanos julgados como grandes são aqueles de cujas palavras podemos nos lembrar. Assim como Obama hoje, Lincoln foi também acusado, por seus oponentes, de disfarçar sua verdadeira agenda por trás de uma névoa de palavras bem-ditas, mas substancialmente ambíguas. Durante sua campanha para presidente, em 1860, ele foi pressionado várias vezes a tomar partido claro em relação à abolição da escrevatura. Mas a bandeira sob a qual preferiu conduzir sua campanha foi a do nacionalismo. Lincoln autodenominava-se um salvador da União e não o protetor dos homens e mulheres negros. Ele declarou sua repugnância pela escravidão, mas sempre deixou claro que esta era uma opinião pessoal e não partidária, e teria poucos desdobramentos políticos, caso fosse eleito. Neste sentido, a performance de Lincoln poderia ser vista como um dos maiores estelionatos eleitorais na história da política... E, ainda assim, é um dos mandatos que os norte-americanos, brancos e negros, provavelmente defenderiam hoje. Sua estratégia era a única que poderia assegurar sua nomenação como candidato republicano, e — com um pouco de sorte... — a presidência. Se Obama for escolhido entre os democratas para defender suas cores em novembro, o ponto mais sensível de seu discurso político não será a raça, mas o caráter supostamente progressista de sua candidatura. Seu histórico de votações (como parlamentar no Estado de Illinois e senador em Washington), assim como suas alianças políticas, indicam que ele está na ala esquerda do Partido Democrata, e bem mais à esquerda que a maioria dos candidatos recentes. Neste sentido, a modernidade de Obama não tem nada a ver com a de Bill Clinton, quando eleito em 1992. Se for o escolhido de seu partido, Obama poderá ser classificado pelos historiadores como o mais à esquerda entre os democratas desde George Mc Govern, em 1972. Optará por fazer campanha como um progressista de carteirinha? Ou preferirá aparecer como alguém acima das disputas políticas"? [1] Cidadãos que optaram por não se afiliar a nenhum dos dois grandes partidos, no momento de sua inscrição eleitoral. A questão sobre seu vínculo partidário lhes é apresentada para determinar de que primárias eles poderão participar. Porque, em muitos Estados, um eleitor inscrito como democrata, ou como republicano, não pode participar da primária de outro partido. [2] Para dados sobre grupos demográficos e participação eleitoral, ver The United States Election Project http://elections.gmu.edu. [3] Este esboço histórico inspira-se em John Gerring, Party Ideologies in America, 1828-1996. Cambridge: Cambridge University Press, 1998. [4] Em 2/10/2002, no momento em que uma maioria dos norte-americanos parecia apoiar a política do presidente George W. Bush, Obama participou de uma manifestação anti-guerra e pronunciou um discurso importante.

27/04/2008

Fala, Gil!

(Entrevista concedida pelo Ministro Gilberto Gil, em 17/04/2008, a Estéban Linés, do jornal La Vanguardia, de Barcelona) La Vanguardia - O senhor continuou no ministério no segundo governo do presidente Lula. O que exigiu dele para continuar no gabinete?Gilberto Gil - Que íamos superar a papelada burocrática. LV - Parte dos músicos mais importantes, como Caetano Veloso, criticou sua política de panos quentes, de não ter feito quase nada no campo musical.Gil - Você me conhece e sabe que as decisões de peso devem ser tomadas com uma margem de tempo. A crítica é saudável, mas também é verdade que a população brasileira nos deu confiança para continuarmos mais alguns anos. E agora tenho certeza de que poderemos começar a fazer coisas visíveis. LV - O senhor não duvidou em revolucionar a dialética do acesso livre à rede.Gil - Toda a minha obra musical é de acesso livre na rede. É fundamental aplicar a democracia de raiz. LV - Mas que o diga o senhor, como ministro da Cultura de uma das grandes potências musicais, é...Gil - O presidente Lula foi paciente comigo. Me deu maior confiança. Queremos levar a cultura a todos os cantos do país. LV - De longe, isto parece campanha eleitoral.Gil - Lógico, atrás do samba e da bossa nova há muitas coisas por fazer. O Brasil é o perpétuo país da incoerência, quero dizer que não é suficiente que vivamos da fama de nosso grande patrimônio musical. LV - Como vê isso de ser juiz e parte quando falamos de música?Gil - Da forma mais natural. Agora estou acabando meu novo disco solo, que sairá depois do verão, e enquanto isso estamos tentando mudar toda a legislação cultural, que está com mais de meio século de defasagem. Tudo um pouco complicado. LV - Sua nova obra, seu novo disco, não pode surgir prostituída pelo fato de o senhor ser o ministro do ramo?Gil - Poderia ser, sem dúvida. Mas existem técnicas de relaxamento e de abstração de caráter oriental que me são profundamente úteis. LV - O senhor não pode avaliar as novas apostas da música brasileira.Gil - É claro. Ninguém me perdoaria, me matariam. Mas a cena brasileira é tão rica que não é preciso fazer nenhum tipo de prognóstico. LV - Na verdade pretendia lhe dizer que depois de sua geração, depois dos nordestinos ou dos sambistas ou bossanovistas, o panorama pode chegar a ser inquietante?Gil - Não é preciso que se inquiete, o Brasil tem um excesso de oferta, há muitas músicas e músicos. Mas uma árvore tem de morrer para que apareça a nova raiz. LV - Fale sobre o concerto de hoje. Gil - Eu, meu filho Bem, minha voz e minha guitarra. Explico as necessidades de minha vida. Esta turnê é uma das condições que pedi ao presidente. Tenho de buscar e encontrar válvulas de escape, arejar-me e oxigenar-me. São cerca de 20 canções tiradas de 40 anos de profissão. LV - Mas tem outras coisas entre... Gil - Claro. Com meu grupo amplo continuamos viajando o espetáculo Banda Larga, e enquanto isso estou gravando meu novo disco, Banda Larga Cordel, um disco declaradamente pop. LV - Volto ao princípio. O senhor defende o acesso livre à música. Gil - Para mim, as prioridades culturais são que as pessoas leiam mais, vão aos museus e valorizem seu patrimônio. É preciso mudar as leis de consumo cultural. O acesso à música tem de ser livre, gratuito e de qualidade. O autor deve ser compensado, é claro, mas aquilo vem primeiro.

26/04/2008

Estatuto da Igualdade Racial

(Isolamento e descrenças, texto de Edson Lopes Cardoso, a partir de depoimento feito por ele à Comissão Especial da Câmara dos Deputados que examina o projeto, em 10/04/08. Fonte:Irohin www.irohin.org.br ) "No PL 6.264/2005, que institui o Estatuto da Igualdade Racial, não consta a palavra racismo, nem nas disposições preliminares onde se definem alguns termos essenciais. Disse isso ontem aos parlamentares da Comissão Especial da Câmara dos Deputados que examina o projeto. Imagino que sejamos o país que mais adjetive o substantivo racismo: racismo invisível, racismo escondido, racismo que praticamos sem saber, etc. Mas o ápice dessas tentativas de fuga é a expressão racismo cordial. Nos raros momentos em que admitimos a desumanização dos afro-brasileiros, o fazemos para atenuá-la ou negá-la no mesmo sintagma nominal. Em racismo cordial, o adjetivo ‘cordial’ exprime obviamente não uma qualidade do substantivo, uma vez que este é por definição avesso a qualquer afetuosidade, mas uma denegação, uma recusa patológica em admitir os fatos econômicos e sociais do cotidiano brasileiro que expressam a sujeição do negro. O Estatuto foi mais longe ainda e suprimiu a palavra e o conceito. As desigualdades aparecem como resultado de práticas de discriminação racial, mas estas são estranhamente descoladas dos valores afirmados e inculcados pelo racismo. Sugeri aos deputados não só a inserção, como a obrigatoriedade de campanhas anti-racistas, realizadas com parte dos recursos milionários gastos com propaganda oficial em todos os níveis de governo. Passei às mãos do relator da Comissão, Dep. Antônio Roberto (PV-MG), para exemplificar a necessidade de atualizações indispensáveis no texto do Estatuto, o capítulo 9 do II Plano de Políticas para as Mulheres (Enfrentamento do Racismo, Sexismo e Lesbofobia), dizendo-lhe que atualizações semelhantes são também necessárias em muitos outros capítulos do projeto. (Passei às mãos do relator na mesa da Comissão, ao microfone, durante a sessão, é bom constar isso.) Insisti também na necessidade de se obter maiores garantias de financiamento das políticas de superação das desigualdades raciais do que as meras autorizações que constam do capitulo IV do PL 6.264/2005. Sugeri aos deputados, por exemplo, que reabrissem o diálogo com a Caixa Econômica. A Caixa não aceitou ( em parecer por escrito) que para compor o Fundo fosse destinado, entre outras fontes, um por cento do prêmio líquido dos concursos de prognósticos. Mas aceitou logo depois criar uma loteria para socorrer clubes de futebol inadimplentes. A proposta do Fundo permanece de pé, consta do PL 3.198/00, que está na Mesa da Câmara desde dezembro de 2002. O problema é que mal começaram os trabalhos e os poucos deputados que comparecem às sessões já manifestam algum desânimo e o desejo de deixar as coisas como estão. Estão isolados até da Comunicação da Casa. Ontem o Dep. Vicentinho (PT-SP) sugeriu que se encaminhasse um requerimento à TV Câmara para sanar o problema. A invisibilidade tem estimulado a evasão. A invisibilidade e a falta de pressão política. O Movimento Negro, creio eu, pensa que o Congresso acabou. Os parlamentares, por sua vez, em boa parte oriundos do movimento sindical, manifestam abertamente sua descrença na capacidade de pressão das organizações negras. Tem que haver um meio de campo aí". (Entrevista de Jurema Werneck a Juliana Nunes, da Rádio Nacional), 24/04/2008, sobre a desafagem entre as políticas públicas de saúde no Brasil e o que está posto no Estatuto da Igualdade Racial - Fonte: Agência Brasil). Há quase uma década em tramitação no Congresso Nacional, o Estatuto da Igualdade Racial não acompanhou os avanços ocorridos nas políticas de saúde para a população negra. Essa é a avaliação da médica e integrante da organização não-governamental Criola, Jurema Werneck, que participou ontem (23), como convidada, de audiência pública na comissão especial que analisa o estatuto na Câmara dos Deputados. “Em dez anos, nós, ativistas da área de saúde, e mesmo o Sistema Único de Saúde [SUS], o Ministério da Saúde, o Conselho Nacional de Saúde, avançamos no que vêm a ser as políticas de saúde da população negra. Temos uma política já aprovada e em fase de pactuação com os gestores locais”, explicou Jurema. “O estatuto deve manter a previsão de assistência para anemia falciforme, de promoção do atendimento para quilombolas, mas precisa incluir as novas diretrizes. Entre elas, formação de profissionais, treinamento, financiamento de pesquisas, reconhecimento do saber popular, combate ao racismo institucional, inclusão do item cor nas identificações, educação e comunicação para saúde.” Para que o estatuto avance, a ativista defende ainda que políticas de promoção da saúde sejam inseridas no projeto. “O racismo incide de maneiras diferentes sobre homens e mulheres, provocando patologias, principalmente quando associado ao sexismo e à homofobia”, destaca Jurema. O Painel Temático Saúde Mulher, lançado no ano passado pelo Ministério da Saúde, mostra que, em 2005, a proporção de mulheres pretas que não fizeram pré-natal foi cinco vezes maior do que a proporção de mulheres brancas. Entre as mulheres brancas, 67% realizaram sete ou mais consultas. Entre as pretas e pardas, os índices foram 45% e 39%, respectivamente.

25/04/2008

Provavelmente, Deus não é africano

(Por: José Luis Fiori, professor titular do Instituto de Economia da UFRJ. Publicado no boletim Brasil de Fato, de 23/04/08). "A África ocupou mais da metade do tempo da última reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas nesta terceira semana do mês de abril de 2008. Na pauta: o impasse nas eleições presidenciais do Zimbabwe e as crises políticas da República Democrática do Congo e da Kenya, além dos conflitos armados, na Somália, e em Darfur, no Sudão. Trazendo de volta a imagem de um continente aparentemente inviável com "Estados falidos", "guerras civis" e "genocídios tribais", com apenas 1% do PIB mundial, 2% das transações comerciais globais e menos de 2% do investimento direto estrangeiro dos últimos anos. Mas a África não é tão simples nem homogênea, com seus quase 800 milhões de habitantes e seus 53 Estados nacionais, que foram criados pelas potências coloniais européias, e foram mantidos juntos graças à Guerra Fria, que chegou à África Setentrional, com a crise do Canal de Suez, em 1956; à África Central, com a guerra do Congo, dos anos 60; e finalmente, à África Austral, com a independência de Angola e Moçambique, e a sua guerra com a África do Sul nos anos 80. A independência africana, depois da Segunda Guerra Mundial, despertou grandes expectativas com relação aos seus novos governos de "libertação nacional" e seus projetos de desenvolvimento, que foram muito bem-sucedidos - em alguns casos - durante os primeiros tempos de vida independente. Este desempenho inicial, entretanto, foi atropelado por sucessivos golpes e regimes militares e pela crise econômica mundial da década de 1970, que atingiu todas as economias periféricas e provocou um prolongado declínio da economia africana até o início do Século XXI. Mesmo na década de 90, depois do fim do mundo socialista e da Guerra Fria e no auge da globalização financeira, o continente africano ficou praticamente à margem dos novos fluxos de comércio e de investimento globais. Depois de 2001, entretanto, a economia africana ressurgiu, acompanhando o novo ciclo de expansão da economia mundial. O crescimento médio, que era de 2,4% em 1990, passou para 4,5, %, entre 2000 e 2005, e alcançou as taxas de 5,3% e 5,5%, em 2007 e 2008. E, no caso de alguns países produtores de petróleo e outros minérios estratégicos, estas cifras alcançaram níveis ainda mais expressivos, como em Angola, Sudão e Mauritânia. Esta mudança da economia africana - como no resto do mundo - deveu-se ao impacto do crescimento vertiginoso da China e da Índia, que consumiam 14 % das exportações africanas no ano 2000 e hoje consomem 27%, igual à Europa e aos Estados Unidos, que são velhos parceiros comerciais do continente africano. Na direção inversa, as exportações asiáticas para a África vêm crescendo à uma taxa média de 18% ao ano junto com os investimentos diretos chineses e indianos, sobretudo em energia, minérios e infra-estrutura. Neste momento, existem cerca de 800 empresas e 80.000 trabalhadores chineses na África, com uma estratégia conjunta de "desembarque econômico" no continente, como acontece também, em menor escala, com o governo e os capitais privados indianos. Neste sentido, não cabe mais dúvida, devido ao volume e à velocidade dos acontecimentos: a África é, hoje, o grande espaço de "acumulação primitiva" asiática e uma das principais fronteiras de expansão econômica e política da China e da Índia. Mas, ao mesmo tempo, não há o menor sinal de que os Estados Unidos e a União Européia estejam dispostos a abandonar suas posições estratégicas, conquistadas e controladas dentro deste mesmo território econômico africano. Depois da frustrada "intervenção humanitária" dos Estados Unidos na Somália, em 1993, o presidente Bill Clinton visitou o continente e definiu uma estratégia de "baixo teor" para a África: democracia e crescimento econômico, através da globalização dos seus mercados nacionais. Mas, depois de 2001, os Estados Unidos mudaram radicalmente sua política africana em nome do combate ao terrorismo e da proteção dos seus interesses energéticos, sobretudo na região do "Chifre da África" e do Golfo da Guiné, que até 2015 deverá fornecer 25% das importações norte-americanas de petróleo. Faz pouco tempo os Estados Unidos criaram um novo comando estratégico regional no Nordeste africano e, neste momento, estão instalando as bases de apoio de sua mais recente iniciativa militar no continente: a criação do África Coomand - Africom - que, segundo o jornal inglês "Financial Times", "marca o início de uma nova era de engajamento, sem precedente, da Marinha norte-americana na costa oeste da África." (15/04/2008). Este aumento da presença militar americana, entretanto, não é um fenômeno isolado porque a União Européia e a Grã-Bretanha, em particular, têm dedicado uma atenção cada vez maior à África. E a Rússia acaba de assinar um acordo econômico e militar com a Líbia e, logo em seguida, assinará um outro, com a Nigéria, envolvendo venda de armas e dois projetos bilionários de suprimento de gás para Europa, através da Itália e do deserto do Saara. Num jogo de xadrez que se complicou ainda mais nos últimos dias com a descoberta de um carregamento de armas chinesas enviadas para o governo de Robert Mugabe, no Zimbabwe, através da África do Sul, e com o apoio do governo sul-africano de Thabo Mbeki, segundo denúncia do líder da oposição, no Zimbabwe, Morgan Tsvangirai. Este quadro fica ainda mais complicado quando se percebe que tudo isto está acontecendo no momento em que o sistema mundial ingressa numa nova "corrida imperialista" entre as suas "grandes potências". Como aconteceu com o primeiro colonialismo europeu, que começou com a conquista da cidade de Ceuta, no norte da África, em 1415, estendendo-se, em seguida, pela costa africana e transformando a sua população negra na principal commodity da economia mundial, no início da globalização capitalista. Depois, de novo, na "Era dos Impérios", no final do século XIX, as potências européias conquistaram e submeteram - em poucos anos - todo o continente africano, com exceção da Etiópia. E agora, neste início do século XXI, tudo indica que a África será - pela terceira vez - o espaço privilegiado da competição imperialista que está recém começando. A menos que exista um outro Deus, que seja africano".

24/04/2008

Entrevista de Ricardo Aleixo ao Diário do Nordeste

(Por: Carlos Augusto Lima) "A idéia é mudar um pouco, e sempre que possível, a freqüência deste espaço. A idéia é trazer para cá uma conversa, algumas discussões ou simplesmente um bom papo. Abrir um território possível num ambiente árido e numa carência de lugares para pensar a produção contemporânea de literatura-cultura. Sempre que possível um nome e um trabalho relevante, gente que tem pensado, feito, transitado entre territórios vários, daqui e do país à fora. Os processos criativos, as leituras, a constante aprendizagem, a problematização da escrita. Para começo de conversa, com vocês, o poeta e multi-artista mineiro Ricardo Aleixo. Nascido em Belo Horizonte (1960), Ricardo é autor de, entre outros, ´Trívio´ e ´Máquina Zero´. Compositor, performer, desenvolve pesquisa e trabalhos que misturam a palavra escrita, o corpo, instalação, áudio arte, dança e onde mais for possível desdobrar sua inquieta linguagem. A partir de agora, com as bençãos de Exu, os caminhos estão abertos. Laroyê! 1 - Uma questão sobre a produção, seu ´modo de fazer´, que se desdobra em duas: a) Quais os apetrechos (autores, obras, idéias) do maquinário que fabrica suas obras? b)Você pensa primeiro a imagem, o som, o objeto, a palavra. Há uma linguagem que é seu ponto de partida? Rique — Os autores que me acodem nos momentos de crise (talvez eu devesse dizer: os que alimentam minha interminável crise) são muitos, sempre. De uns dez anos para cá, venho lendo com enorme satisfação pensadores como o biólogo Humberto Maturana, o geógrafo-pensador Milton Santos, o arquiteto Peter Zumthor, o inclassificável Gilles Deleuze. Leituras recorrentes, no campo da ensaística são, já há bem mais tempo, por exemplo, Walter Benjamin, Edouard Glissant e, mais que qualquer outro, o grande estudioso das poéticas da voz, Paul Zumthor. E há os poetas, evidentemente: desde os (para mim) inevitáveis Augusto de Campos, Sebastião Nunes, Affonso Ávila, Décio Pignatari, Vladímir Maiakovski, e. e. cummings, Gertrude Stein, Oswald de Andrade, John Cage, Hans Magnus Enzesberger, Paulo Leminski, Armando Freitas Filho, etc. Há Rosa, Euclides da Cunha. Machado, claro, e ainda Kafka, Joyce, Beckett. Há os cineastas-pensadores-poetas (Godard, Greenaway, Stan Brakhage, Bressane, Glauber), os artistas visuais (Hélio Oiticica, Waltercio Caldas, Cildo Meireles, Lygia Pape, e muita gente mais. Quanto ao meu processo de criação, é totalmente aberto e indisciplinado. Posso partir de um som indefinido ou de uma nota musical, de uma cor, uma letra, uma palavra, uma fotografia. Minha meta, no mais das vezes, é criar uma obra tão aberta que eu possa fazer com que os elementos que a compõem transitem por outros códigos, traduzindo-se em novas configurações. Poucos são os casos de trabalhos meus em que não tentei, pelo menos, fazer com eles alguma outra coisa. Não exagero quando digo que entendo tais práticas como exercícios radicais de alteridade, em contraposição aos discursos que pregam a busca de uma identidade única, fechada e coesa. Explicando melhor: cada vez busco menos o conforto de uma linguagem que mostre o possível ´amadurecimento´ do meu trabalho, e mais o desconforto das zonas de risco em que me vejo obrigado a aprender ou reaprender o beabá daquela linguagem. 2 - Sua produção poética é muito vinculada a uma tradição ´verbivocovisual´, que provém da poesia concreta, vanguardas etc. Ao mesmo tempo, você não se priva de provocar o poema de linha mais ´clássica´, metrificado, rimado, discursivo, satírico. Definitivamente, a liberdade é a prova dos nove? Rique — Embora eu reafirme o tempo todo a minha formação (como processo em curso, não como etapa já concluída) baseada na idéia de experimentação, jamais deixei de me interessar por outras práticas e possibilidades de criação. Em suma, apesar de explorar cada vez mais sonoridades inusuais, produzidos com a voz, com objetos do cotidiano ou com meu ´laptop zoador´, continuo a compor sambas e canções ao violão, sozinho ou com parceiros como Zeca Baleiro, Juarez Maciel, Maurício Tizumba e outros. Afinal, cresci ouvindo minha mãe, Íris, cantar todo aquela beleza do repertório antigo da nossa canção popular. Como eliminar tudo isso de minha sensibilidade? Simplesmente não há como. Sim, a liberdade (sem a qual de nada servirá a alegria) é a prova dos nove. E o maior desafio, hoje, para o criador, quando tudo parece já ter sido feito, ao mesmo tempo que, com o maior acesso aos meios tecnológicos, temos a sensação, outra vez, de que ainda há muito por se fazer. 3 — Quando nos deparamos com a apropriação de sonoridades, visualidades, grafismos, corpo e sensações diversas (como você faz com seu trabalho), como é possível mensurar uma potencialidade criativa, já que estamos lidando com algumas linguagens que tendem à dispersão. Como separar o vale-tudo da ´qualquer imagem´, grito, rabisco qualquer daquilo que está inserido como possibilidade de arte? Rique — Penso que a tendência à dispersão é um dado da criação contemporânea que exige reflexão mais detida. Por lidarmos com processos bastante complexos, calcados na hibridização e na mestiçagem sígnicas, é preciso levar em conta a possibilidade do espectador se perder em algum ponto da recepção das obras. Ninguém percebe TUDO o que se processa nos ´espaços-entre´ produzidos pelos processos intermídia. E a dispersão, sobretudo em tempos de fronteiras que ameaçam se fechar novamente, podem constituir-se em um eficiente dispositivo contra os finalismos e essencialismos que tomam conta do cenário cultural e político contemporâneo. Costumo brincar com o termo ´obras permanentemente em obras´ para definir o esforço adicional que é cobrado, hoje, daqueles indivíduos que abriam livros ou compareciam aos museus de arte, às salas de espetáculo e de cinema certos de que já receberiam ´mensagens´ prontas para consumo imediato. Esse tipo ficou sem lugar, no contexto da arte contemporânea. Mas há, sim, caro Carlos, um perigo na tendência à dispersão: que esta se rotinize tornando-se como que a única via possível de realização artística. Pessoalmente, tento resistir ao que, em meu trabalho, por ventura aponte para esse tipo de ´dispersão´, recuperando práticas criativas que demandem estudo e treino contínuos. E mesmo assim, veja, não me sinto absolutamente livre do risco de misturar alhos e bugalhos e, pior, de oferecer esses ´produtos´ na praça como se fossem algo a que os comuns mortais não têm acesso. Talvez nossa única saída seja refazer ad infinitum a pergunta fundamental que nos foi legada pela modernidade: o que é arte? 4 — Na construção do seu trabalho você sempre fez questão de desenhar uma proposição ética para ele, que passa por uma inserção política a respeito da literatura, da profissionalização da escrita, do escritor etc. Que olhar você projeto sobre o ambiente da literatura, e de forma mais ampla, da arte no país, a respeito desses problemas? Rique — Penso que a literatura e as demais formas de arte têm, como função básica a proposição de problemas, mais que de respostas, que contribuam para que a sociedade redefina os termos do debate sobre as condições de sua própria formação (entendida como um processo, insisto) e permanência. Em outras palavras, ao defender a ´profissionalização´ do artista (sua pergunta enfoca a literatura, mas prefiro ampliar o arco da resposta, por lidar também com as outras artes), aponto para um paradoxo, que é a hipótese de se ter, como conseqüência, a valorização daqueles cuja importância na sociedade é definida bem mais por sua movência, por sua entrega gozoza à errância e à deriva do que pela fixidez de suas posições. O artista, como o vejo, como o idealizo, talvez, é aquele que optará sempre pela perversão, pelo caminho torto, escuro, pleno de dobra e desvios. Pelo sim, pelo não, prefiro apostar que uma verdadeira política de apoio às artes passará, necessariamente, pela valorização dos criadores sem que se exija deles mais do que o produto desinteressado de sua imaginação. Luto, por isso mesmo, ciente dos riscos a que todos estaremos expostos. Mas me diga: não é bem pior não fazer nada? Se me desagrada a figura do escritor como um ´funcionário da escrita´, tampouco me apraz a terrível imagem do cadáver de Cruz e Sousa, conduzido de Leopoldina, no interior de Minas, para o Rio de Janeiro, num trem de carga. É isso".

23/04/2008

Outro lançamento

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Lançamento

Mazza Edições e o Instituto Mbari de São Gonçalo do Pará convidam para o lançamento do Livro do Professor . Coleção: Griot Mirim. Autora: Mara Catarina Evaristo. Data: 26 de abril, sábado, às 19 h. Local : Câmara Municipal de São Gonçalo do Pará. Rua 1º de Janeiro, 88 – Centro São Gonçalo do Pará/MG “Contar e ouvir histórias é aprender sobre si mesmo e sobre o mundo” E-mail: maraminas@yahoo.com.br ; mara.catarina@pbh.gov.br . Blog: http://maraminas.blogspot.com/

22/04/2008

Cine CUFA: o cinema na tela da favela

EDITAL - Cine CUFA 2008 Apresentação - Artigo 1: O Cine Cufa é um festival produzido pela Central Única das Favelas (Cufa) e dedicado às obras audiovisuais produzidas por periferias nacionais e internacionais, que tem como proposta o incentivo a uma nova ordem cultural artística onde as favelas e comunidades populares encontram espaço para escoamento de suas produções, dando visibilidade a esta nova demanda audiovisual. Onde acontece? Artigo 2: A segunda edição do Cine Cufa acontece em setembro, nas salas de cinema e vídeo do Centro Cultural do Banco do Brasil, Centro, Rio de Janeiro. Regras para a inscrição - Artigo 3: a) As inscrições são gratuitas e estarão abertas de 14 de janeiro a 31 de maio de 2008. A ficha de inscrição deve ser preenchida com os dados que serão publicados no catálogo do evento, caso o filme seja selecionado. Para inscrever sua obra no Cine Cufa o realizador deve conhecer e concordar com os termos que constam neste edital, dentre eles: a.1 Estar de acordo com regras e regulamentações a seguir; a.2 Fazer inscrição, corretamente, online; a.3 Enviar uma cópia da obra junto com cd de fotos de divulgação e da equipe, sinopse da obra, e autorização, assinada. a 4 Os realizadores das obras internacionais precisam enviar junto com os itens acima, o script da obra. b) Não há limite de filmes inscritos por realizador. Em caso de inscrição de mais de um trabalho, estes poderão estar na mesma DVD / MINIDV, desde que devidamente identificados. c) Uma vez enviado, o filme passará a fazer parte do acervo da Cufa, e ficará a disposição das comunidades onde a instituição atua. d) A autorização para exibição da obra inscrita assinada, munida de uma cópia do documento de identidade com foto, é necessária, pois com este, o autor/produtor da obra, entende e aceita o regulamento. Caso a autorização não seja assinada e/ou enviada, a obra não será aceita pela curadoria do Cine Cufa 2008. e) As inscrições das obras a serem selecionadas para o festival devem acontecer até o dia 31 de maio de 2008. Só será aceito obras postadas com data até o dia 31 de maio. Não serão aceitos nenhum tipo de material, tais como, ficha de inscrição, autorização, cd de fotos e obra, após o prazo de entrega. f) Após a inscrição on line, o filme – identificado com o nome completo, a autorização e as fotos, devem ser encaminhadas, dentro de um envelope branco ou pardo, para a produção do Cine Cufa 2008, no seguinte endereço: Cufa Produções - Rua Carvalho de Souza, n° 137 sala 111 – Madureira – Rio de Janeiro/ RJ – CEP 21350-180. Telefones: 3015-7113 / 3015-5927. g) A ficha de inscrição apenas deverá ser preenchida em caso de concordância com este regulamento. Quem pode participar? Artigo 5:Podem participar do Cine Cufa, obras em todos os formatos, durações e gêneros, ressaltando a importância de que tais produções cumpram o objetivo final do festival: exibir filmes realizados por periferia nacional e internacional. Ao inscrever sua obra o produtor estará se responsabilizando legalmente pela veracidade das informações, assim como por seus direitos autorais de titularidade e de liberação para exibição pública. Uma vez selecionado, o filme não pode ser retirado do festival ao longo de sua duração pelo responsável. Curadoria - Artigo 6: Fica por conta da Curadoria do festival decidir se os filmes inscritos correspondem aos critérios de participação, assim como será de responsabilidade de qualquer um dos membros desta Curadoria decidir sobre pontos que por ventura não tenham sido mencionados neste edital. Resultado - Artigo 7: A lista com os nomes dos filmes selecionados para o Cine Cufa 2008 estará disponível no site do evento www.cinecufa.com.br a partir de Agosto de 2008. Os responsáveis por cada obra também serão comunicados via e-mail. Rua Carvalho de Souza, 137 – Madureira CEP.21350-180 Rio de Janeiro – RJ Tel. 3015-7113 / 3015-5927 Gleice.madureira.rio@cufa.org.br

21/04/2008

"Espelho Atlântico" - mostra de cinema da África e da Diáspora negra

"Em parceria com o African Filme Festival, de Nova York, a mostra traz um panorama contemporâneo de filmes africanos e brasileiros. A CAIXA Cultural recebe, de 22 a 27 de abril, a mostra "Espelho Atlântico". Com direção geral da cineasta Lilian Solá Santiago, o evento traz uma primorosa seleção de filmes africanos e da diáspora negra para o Rio de Janeiro. Espelho Atlântico é uma abordagem atual e significativa da produção cinematográfica africana contemporânea e também da realizada fora do continente, mas que dialoga diretamente com a herança cultural do continente africano. Serviço: Mostra Cinematográfica Espelho Atlântico. Local: CAIXA Cultural RJ – Cinema 1. Endereço: Av. Almirante Barroso, 25, Centro (ao lado da estação Carioca do metrô). Tel: 21 2544 4080 – Site: www.caixacultural.com.br. Temporada: de 22 a 27 de abril de 2008. Sessões: a partir das 19h (curta-metragem sempre seguido de um longa metragem). Classificação etária: confira a programação. Preço: R$ 4,00 (inteira); R$ 2,00 (meia-entrada). Acesso para portadores de necessidades especiais SINOPSES Dia 22: O Clandestino (ficção) Direção: Jose Laplaine - Zaire/Angola, 1997, 15 min. Quando um angolano clandestino chega a Lisboa, ele percebe que a Europa de seus sonhos não é o paraíso que imaginava. Sempre tendo que fugir de um policial persistente, ele começa a ter saudades da terra natal. Kuxa Kanema – O nascimento do cinema (doc.). Direção: Margarida Cardoso, Bélgica / França / Portugal, 2003, 52min O governo Moçambicano cria após a independência, em 1975, o Instituto Nacional de Cinema (INC), pois o presidente, Samora Machel, sabia do poder da imagem para a nação socialista. A ruína do INC após um incêndio acompanha a desilusão dos moradores com o regime. Vencedor do Festival de Nova York de Filmes Africanos. Dia 23 - Mama Put – (ficção). Direção: Seke Somolu, 2006, 30min, Nigéria A história de um grupo de jovens armados que invade a casa de uma pobre família mostra o poder do alimento de transformar, salvar e estremecer relações sociais na Nigéria. Mama Put é o filme de estréia do cineasta nigeriano Seke Somolu. A cidade das mulheres – (doc.). Dir: Lázaro Faria, 2005, 72 min, Brasil O filme é uma resposta à Ruth Landes, antropóloga norte-americana que esteve, em 1939, na Bahia, e se surpreendeu com a força e a soberania das mulheres do candomblé dentro de uma organização matriarcal. Ganhador dos prêmios Tatu de Ouro e BNB de Cinema. Dia 24 Menged (ficção). Direção: Daniel Taye Workou, 2006, 20min., Etiópia Adaptação de um conto popular etíope, sobre a trajetória de um pai e seu filho até o mercado. Mostra a Etiópia de hoje: um país na transição entre modernismo e tradicionalismo. Venceu do Urso de Cristal no Festival Internacional de Filmes de Berlim. Mortu Negra (ficção). Direção: Flora Gomes, 1987, 85min, Guiné-Bissau. No interior da Guiné, lutando contra a presença colonial, o exército de libertação constrói o dia-a-dia entre a vida comunitária e o percurso para a independência de seu país. O filme marca a estréia do consagrado cineasta Flora Gomes. Dia 25: Balé de pé no chão (documentário). Direção: Lilian Solá Santiago, 2008, 17 min, Brasil Documentário sobre Mercedes Baptista, principal precursora da dança afro-brasileira. Bailarina de formação erudita, cria seu grupo na década de 50, e estuda os movimentos do candomblé e das danças folclóricas. Vencedor do Prêmio Palmares de Comunicação 2005. Hollow City (Na Cidade Vazia) – (ficção). Direção: Maria João Ganga, 2005, 88min., Angola O filme narra a trajetória de um menino órfão, que, assim como muitos outros de sua geração, lutam pela sobrevivência em Angola que está devastada após a revolução civil. Conquistou o grande prêmio do Festival de Filmes de Paris. Dia 26: Maria sem graça (vídeo / ficção). Direção: Leandro Godinho, Brasil (SP), 2007, 14min Maria das Graças, menina negra de 12 anos, moradora da periferia de São Paulo, atormenta a vida de sua mãe para alcançar seu maior sonho: ser a apresentadora Xuxa Meneghel. Selecionado para o Festival Internacional de curta-metragens de São Paulo. Família Alcântara (documentário). Direção: Lílian e Daniel Solá Santiago,2006, 52min História de uma família extensa, cujas origens remetem-se à bacia do Rio Congo, na África. Através de gerações, preservam sua história, com o coral, teatro e a congada. Premiado no 11º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, no Mato Grosso. Dia 27: The Ball (ficção). Direção: Orlando Mesquita, 2001, 5 min, Moçambique Em um país que luta para combater a Aids, vinte milhões de preservativos são distribuídos, isto é, 5 por pessoa por ano. Muitas pessoas as usam de outra forma, por exemplo, os garotos que as utilizam para fazer bolas para jogar futebol. O Herói (ficção). Angola / França / Portugal, 2004, 97 minutos. Direção: Zezé Gamboa Um soldado mutilado na explosão de uma mina volta à Luanda após 20 anos de combates. No elenco o senegalês Makena Diop, as brasileiras Maria Ceiça e Neuza Borges. Premiado no Festival de Sundance (EUA) e no Festival de Cinema Africano de Milão, entre outros. LILIAN SOLÁ SANTIAGO É cineasta e historiadora. Entre seus trabalhos mais recentes estão a realização do filme curta-metragem "Graffiti" (2008) e do vídeo documentário "Uma Cidade Tiradentes" (2006). Lilian também produziu e dirigiu o premiado filme documentário "Família Alcântara" (2004), em parceria com seu irmão Daniel, e o aclamado documentário "Balé de Pé no Chão – a dança afro de Mercedes Baptista" (2005), com Marianna Monteiro. Mestre em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo, tem atuado como docente de produção e direção audiovisual em importantes instituições educacionais, associações culturais e festivais de cinema e vídeo. Em 2006, ganhou o prêmio "Zumbi dos Palmares", conferido pela Assembléia Legislativa de São Paulo e o "Prêmio Cooperifa", da Cooperativa Cultural da Periferia, por sua destacada atuação artística em projetos que resgatam e revelam facetas inovadoras da cultura afro-brasileira. Como produtora executiva, atuou no filme longa-metragem "Latitude Zero" (2001), de Toni Venturi, e integrou a equipe de importantes filmes brasileiros, como "Os Matadores" (1994), de Beto Brant, "Alô" (1995), de Mara Mourão, "A Hora Mágica" (1996), de Guilherme de Almeida Prado, "Ed Mort", de Alain Fresnot (1997), entre outros.

18/04/2008

Femi Ojo-Ade, professor emérito da Universidade de Maryland, critica capa de obra de Frantz Fanon, lançada no Brasil pelo CEAO-UFBA

"Quando recebi o convite virtual para o lançamento do texto seminal de Frantz Fanon sobre o dilema do negro num mundo dominado pelo branco, Pele Negra, Máscaras Brancas, fiquei extasiado; pensei comigo que, enfim, os Brasileiros iriam ter uma oportunidade de ler o livro na sua própria língua e digerir o seu conteúdo, cujo conteúdo, a meu ver, trata de grande número das questões com que se confrontam os Afro-descendentes nesse seu país-arcoiris. Porém, infelizmente, quando abri o convite, fiquei chocado ao deparar-me com uma bem coreografada colagem reunindo imagens coloridas, dos mais degradantes "retratos" de negros, sobretudo americanos: os famosos Coons, Pai Tomás, Titia Jemima, as Mammies, os Sambos, os Minstrels (aqueles comediantes brancos pintados de negro que pulavam e faziam rir enquanto atravessavam de um lado para o outro a paisagem toda das terras de Jim Crow), e, nem sequer falta Banania, sobre o qual Senghor escreveu alguns versos (em que declarava querer "rasgar os risos Banania de todos os muros da França"). Todos os retratos estereotipados estão lá reúnidos, com uma mesma mensagem bastante clara: os negros nada são senão um bando de bobos de beiço largo e olhos esbugalhados, olhos que eles rolam feito idiotas, demonstrando sua indolência e selvageria, entretenendo os civilisados senhores da Casa Grande. A questão que nào podemos deixar de fazer é simplesmente: POR QUE? Quem foi que escolheu/desenhou esta capa? Com que objetivos? Será para homenagear os Afro-Brasileiros, ou Fanon, ou quem, sabe-se lá? Esta capa representa a mensagem de Fanon ou seu discurso? Fanon afirmou: "O branco é que criou o negro". Estaríamos outra vez diante de uma re-criação do negro por supostos brancos, neste novo milênio? Por que não fazer uma capa simples, como foi a do texto original? Ou, por que não simplesemente por uma foto ou outra imagem do Fanon na capa? São muitas as opções possíveis que teriam sido mais apropriadas: instrutivas, não degradantes, não racistas; mas, não - alguém ou alguns preferiram botar esta colagem que envergonha os negros do mundo inteiro. A lição a ser tirada deste episódio triste é bastante simples: os negros têm que tomar, digo arrancar os seus destinos, com as duas mãos, com coração e alma, e tornarem-se sujeitos, deixando de ser objetos. Eis a única maneira de assegurarmo-nos que as pessoas, qualquer que seja, de dentro ou de fora, nos darão o tratamento merecido. Fanon nos desafia a deixarmos de ser sub-humanos, a tornarmo-nos seres humanos de direito pleno; a deixarmos de ser "os condenados da terra" e tornarmo-nos, como diz o Jacques Roumain, "senhores do orvallho". Fanon acrescenta: "O azar do negro foi de ter sido escravizado. O azar e a desumanidade do branco é de ter morto o Homem, algures". E enquanto escrevo isto, um triste sub-texto se avista no horizonte. Uma pergunta: qual é a audiência que irá ler esta tradução?"

Na noite de hoje, em BH

17/04/2008

Morreu o poeta Aimé Césaire, o "negro, negro, desde o fundo do céu imemorial"

Aimé Césaire, poeta da Martinica, faleceu nesta quinta-feira, aos 94 anos, em Fort de France (Martinica), no centro médico onde estava hospitalizado desde 9 de abril. Desde sua internação por problemas de natureza cardíaca circulavam rumores sobre seu estado de saúde preocupante. Conheça um pouco do pensamento contemporâneo de Aimé Césaire, em entrevista concedida à Maryse Condé, escritora e jornalista de Guadalupe, no ano de 2004, publicada originalmente na revista francesa Liri, posteriormente traduzida e veiculada no sítio da revista Agulha: www.revista.agulha.nom.br/ag53cesaire.htm. MC Começarei por uma questão de atualidade. O Haiti ocupou um lugar considerável em sua obra. O que você pensa dos acontecimentos que se passam nele? AC: E patético! A história do Haiti é gloriosa. Jamais esqueci que essa ilha conquistou a liberdade há duzentos anos: a liberdade não lhe foi dada. Os haitianos combateram para tê-la. Mas é preciso insistir no fato de que eles a conquistaram não somente para si mesmos mas para todos nós. Nós devemos lhes ser gratos por isso. No entanto, devo dizer que, esse episódio à parte, houve realmente momentos extremamente penosos, ao ponto que, apesar dessa liberdade conquistada, a desgraça quer que jamais os haitianos tenham podido achar uma organização razoável capaz de assegurar uma espécie de equilíbrio. Eles criaram uma péssima herança. É claro, eles conquistaram a liberdade, mas a sociedade não mudou de maneira tão profunda quanto se teria desejado. Primeiro, houve os brancos, os mestres escravagistas, e depois o povo… nós. Encontra-se agora a situação em que a classe intermediária que substituiu os brancos conservou muitos hábitos, e péssimos hábitos. Eles pegaram um pouco seu lugar e não desempenharam o papel que aguardávamos e esperávamos. O Haiti procura seu equilíbrio e nem sempre o achou. MC: Você pensa que se pode escrever La tragédie de Jean-Bertrand Aristide como você escreveu La tragédie du roi Christophe? AC: Conheço muito pouco Aristide. Fui ao Haiti em 1945. O presidente Lescaut estava então no poder. Isso me permitiu ver naquele momento Léon Lalo, Camille Broussan - Depestre era ainda muito jovem. Conheci essa geração. Eu estava lá justamente no momento em que André Breton passava e dava essa conferência sobre o surrealismo que teve muita influência. “Parece-me evidente que o destino desse país é inseparável de suas crenças e de seus ideais seculares, desde o instante em que estes aqui se mostrem ainda tão vivazes. O que lhe deu a força para suportar primeiro, e depois para sacudir todos os jugos, o que foi a alma da resistência, é o patrimônio africano que ele conseguiu transplantar aqui e fazer frutificar apesar de suas correntes.” (André Breton, 1945). Após, segui a situação com atenção, mas não quis retornar ao Haiti no período de Duvalier. Lembro-me de que, durante minha estada, um tipo realmente muito interessante que conhecia todos os pavimentos do Cabo-Haitiano – esqueço seu nome, estou velho e perco a memória – me apresentou um senhor de ar reservado, um pouco tímido… Era o doutor Duvalier! Eu estava longe de pensar que um dia Duvalier ia se tornar o tirano que foi. E um pouco a mesma coisa para Aristide: eu o vi quando ele voltava dos Estados Unidos. Ele passou aqui, na Martinica. Até mesmo organizamos uma conferência em sua homenagem! Ele falou. Era um intelectual, um católico, antigo padre, cheio de reservas. Mas não senti nele uma doutrina. Vi sobretudo um homem muito reservado, talvez (não estou certo disso) um pouco voltado sobre si mesmo. Qual era sua doutrina? Não sei. O que ele queria fazer? Não sei. Qual era seu caráter e tinha ele a energia necessária para conduzir esse país que não é fácil? Não me dei bem conta disso, na época, mas estava lá para eu ver. E depois, rumores circulavam. Fiquei totalmente espantado quando me disseram que ele empregava métodos que acreditávamos desaparecidos para sempre. O que quer que seja, não me parece que Aristide tenha realizado grande coisa para o povo do Haiti. Se o progresso consistiu em substituir simplesmente os “tontons macoutes” pelas “quimeras”… MC: O escritor haitiano Jean Métellus fala muito da maldição do Haiti. Você acredita nessa maldição? AC: Não, mas há o peso da História. No fundo, Haiti – como as outras Antilhas, aliás, mas lá é muito mais trágico – não está inteiramente curado dos males herdados da época colonial, que era infelizmente uma época colonialista. O povo haitiano é inteligente, as elites são numerosas, mas o que há de notável, é que os espíritos mais brilhantes dessa elite emigraram. Eles estão no exterior e jamais encontraram seu lugar no Haiti. Lembro-me de ter conhecido vários deles quando eu estava no Liceu Louis-le-Grand, em Paris - os nomes me escapam às vezes e às vezes não tenho tanta vontade de pronunciá-los -, e quando os revi no Haiti, eles tinham o ar infeliz e davam a impressão de estar um pouco marginalizados. MC: Ao olhar o estado do mundo, você pensa sempre que a poesia é “arma miraculosa” que pulveriza as barreiras que entravam as liberdades? AC Não sei se ela é miraculosa… MC: Foi você quem disse. AC: Para mim, a poesia é muito importante, ela é até mesmo fundamental. Com ou sem razão, sempre pensei que a arma para nós - não acreditávamos nisso suficientemente - é a cultura. Não digo a civilização, que é uma palavra muito do século XIX. Opunha-se então a civilização e a selvageria. Mas os etnólogos e a experiência nos ensinaram que há a cultura. Defino a cultura assim: é tudo o que os homens imaginaram para moldar o mundo, para se acomodar no mundo e para torná-lo digno do homem. E isso, a cultura: é tudo o que o homem inventou para tornar a vida vivível e a morte afrontável. Enquanto martiniquense, sempre pensei que havia alguma coisa que não era apreciada em sua justa medida na Martinica e nas Antilhas. Oh, isso não é uma crítica! Há a História, há os Estados. Fomos dominados pela idéia do escravagismo e era preciso lutar contra. Pertencemos à nossa época e é preciso admitir que a terceira República inventou uma doutrina que tínhamos adotado totalmente. Era a doutrina dita da assimilação, que consistia, para ser civilizado e não ser mais um selvagem, em renunciar a um certo número de coisas e em adotar um outro modo de vida. Tudo isso é completamente respeitável mas é muito século XIX e muito rápido, já no liceu - com teu irmão Auguste[1] - eu sabia então que isso era respeitável mas insuficiente. Essa doutrina não respondia mais às necessidades do século XX! Era o século XIX, era o romantismo, eram as ilusões do passado. Não é preciso ser ingrato: é evidente que isso rendeu enormes serviços, mas no mundo moderno, era necessária uma outra coisa. Eis porque fui muito rapidamente conquistado por uma idéia que não tinha então ainda todo seu lugar - mesmo se ela não era desconhecida – em nossos comportamentos e em nossas filosofias: a identidade. Quando os martiniquenses diziam “assimilação”, quando fui eleito deputado, eles me pediam para voltar da França com a Martinica departamento francês. Confesso que fiquei perturbado. Hesitei. E estou convencido, cara Maryse Condé, que aquela que está diante de mim, que revejo ainda sentada, refletindo, em seu escritório da Rua des Ecoles, com Alioune e Christiane Diop, me compreenderá. Hesitei. Finalmente - e isso foi um drama para mim - compreendi. A assimilação, isso significa a alienação, a recusa de si mesmo. E terrível… Mas você pensa então que as pessoas de Fort-de-France e dos subúrbios não entendiam isso totalmente: eles pronunciavam a palavra “assimilação” e lhe davam um sentido bem particular. Aceitei defender essa tese porque compreendi - e é evidente – que há as palavras mas também o que há por trás das palavras. Na realidade, o pobre coitado que vinha se pendurar em mim para me pedir a assimilação, para que a Martinica se tornasse um departamento francês, não é a assimilação que ele queria. Ele queria a igualdade com os franceses. Eis porque nós nos debatemos sobre a idéia de departamentalização, que não supõe forçosamente a assimilação: um departamento é uma medida de ordem administrativa. Mas, para mim, o equilíbrio essencial devia se fazer a propósito da identidade. Daí a importância da cultura. Retorno a tua pergunta: por que as palavras da poesia são “armas miraculosas”? Porque pensei que é de lá que, miraculosamente, devia vir a salvação. Isso era, para mim, o milagre. MC: Você também disse que, enquanto houver negros sobre a terra, a negritude viverá. Isto é sempre verdadeiro? AC: Sim, é perfeitamente verdadeiro. E eu o mantenho. O que isso significa? Tem-se falado muito nesse assunto. Para mim, a negritude é a cultura, a poesia. Por que? Amo muito tudo o que aprendi no liceu, na Sorbonne. Acredito muito nisso. Sou um grande admirador dos latinos e mais ainda dos gregos, mas sei também que há os egípcios e que os gregos e os romanos devem muito ao Egito, à Etiópia, a tudo esse mundo. Portanto, à África. Tomei consciência disso muito rapidamente. Atenho-me à cultura, e não a uma cultura tacanha, clássica, sancionada pelos exames e pelos diplomas europeus. É para mim uma coisa bem diferente. O que é a poesia? Porque me liguei a ela? Porque tenho sido poeta e surrealizante? Foi sem querer, eu não fiz de propósito; não foi para ser de uma escola que me aliei. E, quando André Breton me conheceu, dei-me conta de que, na realidade, eu praticava surrealismo sem saber… Mas por que? O me que me arrebatava na sociedade antilhana, era a aparência, a adaptação mais ou menos destra, todo um lado que eu não suportava, mas eu sabia que, no homem antilhano, havia outra coisa além dessa aparência. Há algo mais profundo que isso. E a poesia é a realidade profunda que aparece. Você sabe que no momento atual procura-se muito por tudo aquilo que está por debaixo da crosta terrestre. Ah então, o que eu queria fazer, era buscar o que há por debaixo da crosta mundana, acadêmica. O que o revela? Quando bruscamente você se depara com a imagem poética que brilha, preste atenção! Diria agora, não conheço muito bem a geografia - que é um geyser… Atenção para a imagem poética: ela é reveladora do mundo mais profundo. Eis porque ela é miraculosa. MC: Você pensa que, graças à negritude, os martiniquenses e os guadalupeanos mudaram? AC: Não, não peço que eles mudem, mas que tomem consciência de sua realidade profunda. MC: Eles o fizeram? AC: Sim, acredito. Acredito que houve progresso. Mas não é fácil, você sabe, não é de todo fácil. Acredito que a consciência de uma identidade fez grandes progressos entre nós. MC: Olhe a África de hoje: guerras civis, lutas, doenças, destruições de povos inteiros. O que você poderia dizer a um jovem antilhano para que ele mantenha a fé na África? AC: Penso, bem simplesmente, que é a juventude que deve dizer o que ela vai fazer. Fizemos uma experiência, mas tenho bastante consciência de que um ciclo terminou, e há um outro mundo a inventar. Para inventá-lo, é preciso fazer o balanço do que foi feito e do que existe. O tempo das ideologias sumárias está esgotado. Precisa-se de outra coisa. Precisa-se de uma outra África. Mas tenha certeza: precisa-se também de um outro mundo. MC: Quem fará nascer essa outra África? AC: É essa juventude. É a nova juventude. Lutamos pela descolonização e encontramos uma África dividida, um novo tribalismo. Veja o estado do Congo, da Libéria, da Costa do Marfim. Isso não é doloroso? Lembro-me de quando eu estava na Assembléia nacional com Houphouët-Boigny: nós o criticávamos com freqüência muito amistosamente. Houphouët, na realidade, tinha empreendido alguma coisa e acreditava ter obtido êxito nela. Talvez porque ele tivesse meios totalmente insuficientes não era forçosamente a boa direção, mas havia uma experiência. Houphouët-Boigny queria a marfinidade. Ele devia empregar meios diplomáticos que tiveram êxito enquanto permaneceu vivo, mas depois o problema, no entanto, não ficou resolvido. E o Senegal: sei de todas as dificuldades que Léopold Sédar Senghor encontrou… MC: Você não respondeu à pergunta: como se pode manter a fé? AC: Não conheço o método. Temos a fé ou não a temos, mas eu me recuso a perder as esperanças na África. Isso seria recusar ter esperança, tão simplesmente. É enraizado, fundamental. Conheço todas as desgraças que aconteceram. Não as nego, sou extremamente lúcido, mas recuso perder as esperanças porque perder as esperanças é recusar a vida. É preciso manter a fé. MC: Quando se vê que Martinica e Guadalupe permanecem departamentos após um combate tal como o teu, o que nos pode fazer crer que amanhã será melhor? AC: Você parece acreditar que somos prisioneiros desse hábito de circunstância. Mas isso foi um meio entre outros! É preciso levar em conta essa experiência, o que ela trouxe e, ao mesmo tempo, suas insuficiências. Quando os martiniquenses e os guadalupeanos (toda essa população que era um pouco como Haiti, sem recursos, sem moradia, sem trabalho) se tornaram os habitantes dos departamentos franceses, vi a desertificação da Martinica: essas pobres pessoas se precipitavam em direção a Fort-de-France e vinham me ver. E você acredita que era preciso ficar imóvel? O que fazer? Elas pediam indenizações, a previdência social etc. Progressos eram feitos do ponto de vista social na metrópole: e porque não entre nós? É isso que elas queriam, na realidade. Acredito que, efetivamente, isso ajudou, não se pode negá-lo. Progressos reais foram realizados. Pensava já um pouco, eu suspeitava - mas agora estou convencido disso - que era totalmente insuficiente. Era preciso começar por lá, mas é preciso agora ir mais longe e encontrar instituições novas que compreenderão o sentido profundo da história desses povos. De imediato, é preciso levar o homem antilhano a tomar suas responsabilidades diante da História. Isto não é simplesmente “vítima-vítima”! Não. Agora chegou o momento da responsabilidade. No fundo, Mme Girardin, ministra das Relações Ultramarinas, não estava tão errada quando ela nos disse a propósito do referendum de dezembro último: “Você começa a nos aborrecer! Responda: o que você quer?” Na minha opinião, isto foi muito mal conduzido, mas pouco importa. Em todo caso, isso indica que o homem antilhano está agora aos pés do muro. “Hein! Vá! Escolha!” MC: Na ocasião do colóquio Césaire de dezembro último, em Nova Iorque, tratei do tema “Aimé Césaire e a América”. Confesso que tive muito trabalho. Você pode clarificar suas relações com os Estados Unidos, onde, contrariamente ao que se acredita, você passou várias temporadas. Em 1945, você encontrou lá André Breton. E descobri no livro de Patrice Louis que você foi à Flórida em 1946. Você voltou lá em 1987 por convite de Carlos Moore. A América é o quê para você? AC: Não tenho resposta… Como não pensar na América? É assim mesmo um mundo sagrado, uma força, uma potência, uma experiência. Mas, não escondo de você, o que sempre me interessou na América - não sei se está ultrapassado -, são os negros americanos, o movimento negro. Isto era essencial para mim. Toda a nossa geração foi profundamente marcada por essa experiência. Quando eu era estudante de filosofia, era para nós um caminho diferente daquele que conhecíamos na França. A América era o negro moderno, mas que permaneceu negro. Era Langston Hughes, Countee Cullen, a Black Renaissance. Isso me parecia uma enorme experiência. Havia lá um movimento em profundidade. MC: Você traduziu poemas de Sterling Brown. Por que? AC: But I have forgotten all my english. [Aimé Césaire brinca de pronunciar seu inglês escolar.] I have learned at school when I was a boy. I can read a little but I can’t speak. I don’t understand[2]. MC: Em sua obra, há uma influência americana? AC: Sim: a atitude diante da vida, diante da civilização. Senti que havia lá uma verdade, uma profundidade. Sair do academicismo francês. Liberdade, Igualdade, Fraternidade: muito bem. Mas por que jamais veio para nós a fraternidade? Jamais a tivemos. Temos a liberdade, como se pode tê-la no mundo. Houve um esforço para a igualdade. Mas a fraternidade, onde ela está? Acredito que não poderemos jamais tê-la, a fraternidade. Se você não me reconhece, porque quer que sejamos irmãos? Eu te respeito, reconheço-te, mas é preciso que você me respeite e me reconheça. E aí a gente se abraça. Para nós, a fraternidade é isto. MC: Aimé Césaire teria um herdeiro? AC: Jamais me coloquei esta questão. Não tenho nenhuma pretensão particular. Disse o que pensava, disse o que eu acreditava. Não sei se tenho ou não razão, mas permaneço fiel a isso e à África fundamental. Já me deformaram, transformaram, caricaturaram muito. Acredito simplesmente no homem. Não sou de maneira alguma racista. Respeito o homem europeu. Conheço sua história. Respeito o povo francês. Respeito todos os homens quaisquer que eles sejam, mas penso também que é preciso lhes fazer a lição e lhes dizer que o homem negro, isso existe, e que a ele também é preciso respeitar. Por que eu disse “negritude”? Não é de maneira alguma porque acredito na cor. Não é de maneira alguma isso. É preciso sempre ressituar as coisas no tempo, na História, nas circunstâncias. Não se esqueça de que, quando a negritude nasceu, na véspera da Segunda Guerra mundial, a crença geral, no liceu, na rua, era uma espécie de racismo subjacente. Há a selvageria e a civilização. De boa fé, todo o mundo estava convencido de só havia uma civilização, a dos europeus - todos os outros eram selvagens. É claro, há pessoas mais ou menos brutais ou mais ou menos inteligentes. Lisez Gobineau. Até mesmo em Renan, fiquei perturbado, encontrei páginas absolutamente extraordinárias. Bem entendido, a opinião pública deforma, vulgariza. Até mesmo os negros… Lembro-me ainda que, um dia em que eu estava perto da biblioteca Sainte-Geneviève, um grande tipo vem em direção a mim, um homem de cor. Ele me diz: “Césaire, gosto muito de você, mas há uma coisa que reprovo em você. Por que você fala assim da África? É um bando de selvagens. Não temos mais nada a ver com eles.” Eis o que ele me disse. É terrível! Até mesmo os negros estavam convencidos disso. Eles estavam penetrados de valores falsos. É contra isso que se tratava, e que se trata, ainda, de reagir. E depois, um belo dia, Léopold Sédar Senghor disse: “Estamos pouco nos lixando! Negro? Mas sim, sou um negro! E daí?!” E eis aqui como nasceu a negritude: de um movimento de humor. Dito de outra maneira, o que era proferido e lançado na cara como um insulto trazia a resposta: “Mas sim, sou negro, e daí?!” MC: Neste ano aparece uma nova tradução inglesa dos Damnés de la terre, de Frantz Fanon. Para você, aquele que pareceu um visionário para as lutas do terceiro-mundo mantém sua pertinência e sua atualidade? AC: Não segui Frantz Fanon porque era uma outra geração e porque ele foi nem mais nem menos do que meu aluno, portanto não o conheci muito bem. Mas sempre vi que era uma coisa extremamente importante. Há coisas fundamentais que são sempre verdadeiras. Agora, é preciso levar em conta as circunstâncias nas quais ele viveu. Para um antilhano, tudo não está em Frantz Fanon porque a vida quis que, o país colonizado, as Antilhas não fossem primordiais para ele. Toda a sua atividade, sua fé, sua energia, ele as pôs a serviço da Argélia, de um outro mundo. Sua obra é muito importante. Ela vale também para nós. O que ele pensava das Antilhas? Ele não teve o tempo de nos dizer de maneira muito completa. Em todo caso, é uma reflexão considerável… Concretamente, Fanon não pôde se ocupar da questão antilhana. Não é uma crítica. As Antilhas nunca estiveram prontas também para ouvir a mensagem dele. É uma crítica que eu faria aos antilhanos. MC: Você pensa que essa globalização da qual se fala tanto afetará a literatura? Já, como disse o poeta Monchoachi, não se sabe mais onde começa e onde termina o Caribe. Segundo você, quais serão os efeitos desses exílios e dessas migrações? AC: É por isso, precisamente, que é preciso manter a fé, e manter a negritude. No momento atual, a França é um pouco, em relação ao mundo, o que a Martinica é em relação à França. É isto a mundialização. Os franceses começam também a reagir. E isto é vital. Estou convencido de que, na mundialização e na uniformização, a identidade não está morta. Ela despertará. Não é tão fácil assim é claro, mas a Europa sentirá essa necessidade de se retomar, como as Antilhas sentirão a necessidade de se repersonalizar. MC: Você escreve as suas Memórias? AC: Minhas Memórias? Não, minha cara Maryse, não tenho tempo… Jamais tive a intenção de escrever as minhas Memórias. Não era meu objetivo essencial. Sempre reagi à minha maneira. Posso também dizer “Merda!”. É tudo. Isto não é uma obra. Há coisas que me são insuportáveis e que me parecem fundamentais. Não quis ser prefeito de Fort-de-France de maneira alguma, mas respondi ao que me parecia então uma necessidade, uma exigência. Aos 91 anos, estou realmente muito velho. O que eu queria é que a fé não estivesse perdida. Haverá outras expressões, elas serão diferentes mas a partir de uma coisa fundamental… MC: E a qual você fundou … AC: Não, tomei consciência simplesmente daquilo que sou e, acredito, daquilo que somos. Não conheço a forma que isso tomará exatamente, mas sei que isso é a coisa fundamental. MC: Você tem uma fé que minha geração não tem. Nós somos, antes, desesperados porque temos a impressão de que nada foi feito, que Guadalupe e Martinica permanecem no mesmo estágio, que não há progressos profundos. Somos sempre departamentos, temos passaportes franceses… Como você faz para manter esse dinamismo que nós não temos?AC Dinamismo? Não tenho isso, não tenho mais. Mas acredito nisto. Isto é a fé, talvez, não? Não é forçosamente a razão… MC: Não seria mais justo substituir a palavra “fé” pela palavra “esperança”? AC: Tenho sempre uma esperança porque acredito no homem. Talvez isso seja estúpido. O caminho do homem é cumprir a humanidade, tomar consciência de si mesmo. Velhas lembranças retornam a mim: em Louis-le-Grand tínhamos professores muito admiráveis: Louis Lavelle, uma espécie de existencialista muito cristão, e o padre Cresson, um kantiano que escreveu um livro pela editora Armand Colin. Eu não sou kantiano; o kantismo é muito ocidental. Para ele, a obra de Kant se reduz a três questões fundamentais: “Quem sou eu?” (nos bancos da Sorbonne, aconteceu-me de me perguntar isso, e compreendi muito bem quem eu era); “Que devo fazer?” (isso é a moral, uma questão que coloco a mim mesmo); e “O que me é permitido esperar?” Ele não disse: “O que eu espero?” E para mim este último ponto é tudo.

Cris Pereira no projeto Nobreza Brown, samba do bom, em Brasília

Neste sábado (19/04) o samba vai ganhar a passarela do Rayuela Bistrô - 413 Sul, dentro do projeto Nobreza Brown. No cardápio, sambas de Paulo César Pinheiro, João Bosco, Zé Ketti e Arlindo Cruz na voz da cantora brasiliense CRIS PEREIRA e do TRIO de feras formado por Amilcar Paré - violão, Pedro Molusco - cavaquinho e Guto Martins - percussão. Serviço: O que: Cris Pereira e Trio - Projeto Nobreza Brown. Quando: 19 de abril (sábado). Onde: Rayuela Bistrô - 413 Sul Que horas: 22h. Ingresso: R$ 10,00. Informações: 8156 2912 (Griô Produções). www.myspace.com/crispereiraa

16/04/2008

Tambor em Belo Horizonte, dia 18 de abril

Trechos da entrevista de Esmeralda Ortiz na Cult de abril

("Eu não sou da sua rua", por Filipe Luna). "Depois de passar dez anos morando nas esquinas de São Paulo, Esmeralda Ortiz, ex-menina de rua, prova que é possível achar um sentido para uma vida errante Nem todos os becos são sem saída. Esmeralda Ortiz perambulou muito, mas achou o caminho que a levou para longe das calçadas depois de 10 anos sem teto, endereço ou CEP. A moça foi, durante uma década de seus 28 anos, uma menina de rua. Com direito ao pacote completo. Entrou e saiu umas cinqüenta vezes da Febem, roubou, cheirou cola, fumou crack, sofreu abuso sexual. A rotina dos fantasmas da cidade que passam propositadamente despercebidos para os transeuntes. Toda essa história Esmeralda contou no seu primeiro livro, Porque não dancei, que narra uma impressionante trajetória de recuperação de uma vida quase perdida. De fato, quem vê e conversa com essa mulher feita hoje, mal pode acreditar que é a mesma pessoa de quem a vida abusou por tanto tempo. Difícil crer que era essa a mesma adolescente que, louca de crack, brincava de pega-pega com a polícia; ou a menina que apanhava diariamente da mãe antes de fugir para a rua; ou a que foi estuprada na linha do trem. Esmeralda começou a reescrever sua história iluminada pelo fio de luz que entrava na sua cela na Febem com um cotoco de lápis dado pelo diretor e mantido sob segredo constante, para evitar tomar pauladas dos funcionários. Quando deixou a rua e o crack, a menina encontrou no projeto Aprendiz, de Gilberto Dimenstein, a direção para começar a se tornar a mulher que é hoje. Com o apoio dele, escreveu e publicou seu catártico primeiro livro. Depois veio O diário da rua, sua segunda aventura como escritora. Nesse meio tempo, Esmeralda ganhou educação - enfrentando suas próprias deficiências para terminar a faculdade de jornalismo - e um rebento - Kadu, seu filho de 3 anos, que cria sozinha em sua casa em Pirituba, zona oeste de São Paulo. É esse desenrolar de seu roteiro que ela contou para a CULT nesta entrevista, provando que pode haver vida depois da rua, que é possível carregar o peso que ela suportou na sua errância sem partir as costelas e começar a escrever um final diferente para uma história destinada a ser estatística. CULT: Como foi seu percurso depois que fez seu primeiro livro? Esmeralda Ortiz: Quando saí da rua eu tinha uma meta: estudar. E quando escrevi meu livro a meta cresceu mais ainda. Teve até uma menina que saiu da rua, e escreveu um livro também, que se suicidou depois que terminou. Eu entendo. Fiquei mal, meu. Queria me enfiar em qualquer buraco. Mas não queria ser apenas uma escritora que saiu da rua e conseguiu fazer um livro, eu queria quebrar esse padrão. Fui estudar, investir na minha educação. Entrei na faculdade Anhembi-Morumbi. O reitor me ligou oferecendo uma bolsa. Ligou também o dono da livraria Cortez me oferecendo uns livros. Pessoas que nunca tinha visto, me ajudando, isso faz valer a pena. A faculdade foi muito legal, mas mesmo assim, sofri um pouco de preconceito. Pelo meu jeito... Primeiro é cultural, por ser ex-menina de rua trago essa cultura de lá. Não vou chegar na faculdade como os caras, com tudo certinho. Então, fazia a maioria dos trabalhos sozinha. A única pessoa que fazia trabalho comigo era o Bene, meu amigo. Tinha uma professora que começou a me perseguir muito. Até pensei em processar ela por preconceito. CULT: Por que ela perseguia você? E.O.: Sei lá, meu. Na verdade, não sei como entrei na faculdade, porque minha educação foi muito complicada. A professora perguntava se alguém tinha dúvida e eu sempre levantava a mão. Não lembro direito, mas ela falava que não ia responder. Eu ia falar, ela não deixava. Ia fazer pergunta, ela não deixava. Até repeti a matéria dela. Quando fiz de novo, ela tinha lido meu livro e chorou bastante, veio me pedir desculpas. Deixei de lado, tá ligado? Os outros professores foram muito compreensivos. Entendiam minha deficiência... Não é nem deficiência. Tenho meu dom, mas tem coisas que não tenho QI, entendeu? Quando engravidei, freqüentei a faculdade o tempo todo durante a gestação. Depois que meu filho nasceu, foi comigo todos os dias para as aulas até um ano e seis meses. Não tinha com quem deixá-lo. Os professores me deixaram levá-lo numa boa, então teve o lado bom também. O lance é que faculdade, no Brasil, não desmerecendo, mas a gente sai sem saber nada. Estou aprendendo agora, na prática. Lá ficamos só na teoria. Mas o curso me deu um caminho, então foi muito bom. Agora quero fazer antropologia. CULT: Quando você estava na rua tinha medo de morrer? E.O.: Muitas vezes busquei a morte. Vivia com ela, sempre acreditei que seria a melhor saída. CULT: E esse pensamento voltou alguma vez? E.O.: Não é que volta, você sai traumatizada, massacrada. Não sei como consegui manter meus sonhos vivendo na rua. Qualquer um que vai morar na rua a primeira coisa que faz é entrar nas drogas. Porque ela tira a fome, tira o sono, tira o frio, tira a ansiedade, dá uma sensação de proteção, faz ser o que você acredita que é. Mas depois vem o vazio e fica um buraco da porra. Então, me admiro por ter tido sonhos, perspectivas, enquanto o mundo inteiro me provava o contrário. Se hoje estou aqui é por causa dos meus sonhos. Quando nasci, minha mãe não tinha uma casa para morar. Sempre me chamava de amaldiçoada e isso e aquilo outro. Meu filho, não. Ele tem uma casa para morar, uma mãe que diz que o ama, um lugar para comer. Tudo porque acreditei que, se fosse para gerar um fruto, iria fazer diferente de como fui criada. CULT: Você está descobrindo o que é ter família agora? E.O.: Minha família sou eu e meu filho. Meu irmão está na cadeia. Tenho uma irmã que é casada, mas mora numa situação precária no barraco que minha mãe deixou. Minha família se resumiu a isso porque metade morreu por causa de alcoolismo, drogas. Está sendo muito boa a relação com meu filho, saber que posso dar amor mesmo sem ter recebido. Saber que tenho minhas angústias e tenho que resolvê-las sozinha, não passar isso para o meu filho, porque ele nem sabe o que passei. Quando o pai dele soube que eu estava grávida, saiu fora, depois de 3 anos juntos. Me disse: "Ou você tira ou não fico". Então, tchau, meu filho. CULT: Quem era o cara? E.O.: Conheci na faculdade, ele trabalhava num bar chamado Rabo de Peixe, na Vila Olímpia. A gente manteve um relacionamento. Tentei ajudá-lo, porque estava desempregado e tal. Através de uns contatos meus consegui arrumar faculdade pra ele. CULT: Foi difícil seu começo como mãe? E.O.: Foi um período conturbado, fui muito pressionada quando ganhei meu filho. Teve uma amiga minha que me ajudou, mas fui sozinha para o hospital. Saí, fiquei sozinha em casa, com cesariana e tudo. Mas só fiz porque decidi ter. Daí tranquei minha casa, fiquei quatro meses na casa de uma amiga minha. Levava meu filho para o trabalho, porque não tinha arrumado creche para ele. Trabalhava à tarde, fazia DP de manhã lá na Bresser e estudava de noite lá na Vila Olímpia. Sempre com meu filho. CULT: Por que você escolheu jornalismo? E.O.: Porque é o que gosto de fazer, comunicar. É uma coisa bem dinâmica, não sou uma pessoa parada. Gosto de dar um outro enfoque, falar das pessoas em si. Não só da rua. Mostrar o outro lado. Um jornalista, quando entra na periferia, vai com tudo, mas, quando vai na classe média, aperta a campainha e pede licença. Morreu uma mulher lá nos Jardins, vi hoje no jornal da Record. Fiquei contando, foram quase sete minutos com comentarista e o apresentador falando da morte da mulher. Porque ela foi assaltada e tomou um tiro. O filho do padeiro morre e ninguém está nem aí, às vezes não vai nem para estatística, mas como indigente. Todos têm que ter tratamento igual. Às vezes a mídia gasta o programa todinho falando só desgraça, mas será que nesse dia não aconteceu uma coisa boa ou será que foi só morte? CULT: De onde veio esse seu interesse por pessoas? E.O.: Minha avó era muito comunicativa. Convivi pouco tempo, mas até hoje tenho uma impressão muito legal dela, que morreu por conta de álcool, bebida... Eu me espelhei nela. Sou uma pessoa muito dada. Se estou na rua converso com todo mundo. Conheço muita gente dessa maneira. Tenho tantos amigos que não passo necessidade. Às vezes não tenho dinheiro para o bumba e o motorista, que é meu amigo, deixa eu passar, entende? Trato todo mundo igual, não tem essa. Geralmente as pessoas são muito fechadas, reprimidas. E quando vêem alguém mais aberto... CULT: Depois que sabem da sua história elas mudam o tratamento? E.O.: Começam a admirar, mas deixo claro, onde vou dar palestra, que minha história é o que vivo hoje. Nesse momento estamos eu e você trocando idéia, mas tem um monte de criança sofrendo abuso sexual agora, ou abandono... Fora os problemas que já são freqüentes: falta de educação, estrutura familiar, saneamento básico, moradia. Meu livro, na verdade, conta a história de várias Esmeraldas espalhadas por aí que não conseguem encontrar saída. Quando o pessoal vai à rua é para mostrar estatística, quem roubou a bolsa da madame, quem fuma pedra... E não é nada disso, o problema é bem maior".