Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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18 de abr de 2008

Femi Ojo-Ade, professor emérito da Universidade de Maryland, critica capa de obra de Frantz Fanon, lançada no Brasil pelo CEAO-UFBA

"Quando recebi o convite virtual para o lançamento do texto seminal de Frantz Fanon sobre o dilema do negro num mundo dominado pelo branco, Pele Negra, Máscaras Brancas, fiquei extasiado; pensei comigo que, enfim, os Brasileiros iriam ter uma oportunidade de ler o livro na sua própria língua e digerir o seu conteúdo, cujo conteúdo, a meu ver, trata de grande número das questões com que se confrontam os Afro-descendentes nesse seu país-arcoiris. Porém, infelizmente, quando abri o convite, fiquei chocado ao deparar-me com uma bem coreografada colagem reunindo imagens coloridas, dos mais degradantes "retratos" de negros, sobretudo americanos: os famosos Coons, Pai Tomás, Titia Jemima, as Mammies, os Sambos, os Minstrels (aqueles comediantes brancos pintados de negro que pulavam e faziam rir enquanto atravessavam de um lado para o outro a paisagem toda das terras de Jim Crow), e, nem sequer falta Banania, sobre o qual Senghor escreveu alguns versos (em que declarava querer "rasgar os risos Banania de todos os muros da França"). Todos os retratos estereotipados estão lá reúnidos, com uma mesma mensagem bastante clara: os negros nada são senão um bando de bobos de beiço largo e olhos esbugalhados, olhos que eles rolam feito idiotas, demonstrando sua indolência e selvageria, entretenendo os civilisados senhores da Casa Grande. A questão que nào podemos deixar de fazer é simplesmente: POR QUE? Quem foi que escolheu/desenhou esta capa? Com que objetivos? Será para homenagear os Afro-Brasileiros, ou Fanon, ou quem, sabe-se lá? Esta capa representa a mensagem de Fanon ou seu discurso? Fanon afirmou: "O branco é que criou o negro". Estaríamos outra vez diante de uma re-criação do negro por supostos brancos, neste novo milênio? Por que não fazer uma capa simples, como foi a do texto original? Ou, por que não simplesemente por uma foto ou outra imagem do Fanon na capa? São muitas as opções possíveis que teriam sido mais apropriadas: instrutivas, não degradantes, não racistas; mas, não - alguém ou alguns preferiram botar esta colagem que envergonha os negros do mundo inteiro. A lição a ser tirada deste episódio triste é bastante simples: os negros têm que tomar, digo arrancar os seus destinos, com as duas mãos, com coração e alma, e tornarem-se sujeitos, deixando de ser objetos. Eis a única maneira de assegurarmo-nos que as pessoas, qualquer que seja, de dentro ou de fora, nos darão o tratamento merecido. Fanon nos desafia a deixarmos de ser sub-humanos, a tornarmo-nos seres humanos de direito pleno; a deixarmos de ser "os condenados da terra" e tornarmo-nos, como diz o Jacques Roumain, "senhores do orvallho". Fanon acrescenta: "O azar do negro foi de ter sido escravizado. O azar e a desumanidade do branco é de ter morto o Homem, algures". E enquanto escrevo isto, um triste sub-texto se avista no horizonte. Uma pergunta: qual é a audiência que irá ler esta tradução?"
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