Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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27 de abr de 2008

Fala, Gil!

(Entrevista concedida pelo Ministro Gilberto Gil, em 17/04/2008, a Estéban Linés, do jornal La Vanguardia, de Barcelona) La Vanguardia - O senhor continuou no ministério no segundo governo do presidente Lula. O que exigiu dele para continuar no gabinete?Gilberto Gil - Que íamos superar a papelada burocrática. LV - Parte dos músicos mais importantes, como Caetano Veloso, criticou sua política de panos quentes, de não ter feito quase nada no campo musical.Gil - Você me conhece e sabe que as decisões de peso devem ser tomadas com uma margem de tempo. A crítica é saudável, mas também é verdade que a população brasileira nos deu confiança para continuarmos mais alguns anos. E agora tenho certeza de que poderemos começar a fazer coisas visíveis. LV - O senhor não duvidou em revolucionar a dialética do acesso livre à rede.Gil - Toda a minha obra musical é de acesso livre na rede. É fundamental aplicar a democracia de raiz. LV - Mas que o diga o senhor, como ministro da Cultura de uma das grandes potências musicais, é...Gil - O presidente Lula foi paciente comigo. Me deu maior confiança. Queremos levar a cultura a todos os cantos do país. LV - De longe, isto parece campanha eleitoral.Gil - Lógico, atrás do samba e da bossa nova há muitas coisas por fazer. O Brasil é o perpétuo país da incoerência, quero dizer que não é suficiente que vivamos da fama de nosso grande patrimônio musical. LV - Como vê isso de ser juiz e parte quando falamos de música?Gil - Da forma mais natural. Agora estou acabando meu novo disco solo, que sairá depois do verão, e enquanto isso estamos tentando mudar toda a legislação cultural, que está com mais de meio século de defasagem. Tudo um pouco complicado. LV - Sua nova obra, seu novo disco, não pode surgir prostituída pelo fato de o senhor ser o ministro do ramo?Gil - Poderia ser, sem dúvida. Mas existem técnicas de relaxamento e de abstração de caráter oriental que me são profundamente úteis. LV - O senhor não pode avaliar as novas apostas da música brasileira.Gil - É claro. Ninguém me perdoaria, me matariam. Mas a cena brasileira é tão rica que não é preciso fazer nenhum tipo de prognóstico. LV - Na verdade pretendia lhe dizer que depois de sua geração, depois dos nordestinos ou dos sambistas ou bossanovistas, o panorama pode chegar a ser inquietante?Gil - Não é preciso que se inquiete, o Brasil tem um excesso de oferta, há muitas músicas e músicos. Mas uma árvore tem de morrer para que apareça a nova raiz. LV - Fale sobre o concerto de hoje. Gil - Eu, meu filho Bem, minha voz e minha guitarra. Explico as necessidades de minha vida. Esta turnê é uma das condições que pedi ao presidente. Tenho de buscar e encontrar válvulas de escape, arejar-me e oxigenar-me. São cerca de 20 canções tiradas de 40 anos de profissão. LV - Mas tem outras coisas entre... Gil - Claro. Com meu grupo amplo continuamos viajando o espetáculo Banda Larga, e enquanto isso estou gravando meu novo disco, Banda Larga Cordel, um disco declaradamente pop. LV - Volto ao princípio. O senhor defende o acesso livre à música. Gil - Para mim, as prioridades culturais são que as pessoas leiam mais, vão aos museus e valorizem seu patrimônio. É preciso mudar as leis de consumo cultural. O acesso à música tem de ser livre, gratuito e de qualidade. O autor deve ser compensado, é claro, mas aquilo vem primeiro.
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