Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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12 de abr de 2008

Entrevista de Cidinha da Silva no Afropress

(www.afropress.com) Afropress - Qual a matéria prima de suas crônicas publicadas no seu Tambor? Cidinha da Silva - O pano de fundo do livro são relações de gênero e sexualidade, com foco mais específico em histórias de amor, encontros, desencontros e solidão, narradas por vozes diversas de mulheres, principalmente. A observação do cotidiano é a maior fonte. Afropress - É possível perceber no novo trabalho um esforço de concisão. As crônicas são mais curtas... Cidinha - Sim, isso foi intencional. Ao terminar a leitura do Tridente, meu primeiro livro, algumas pessoas, principalmente escritores, sugeriram que eu me dedicasse a histórias maiores, pois avaliaram que eu demonstrara fôlego para fazê-lo. Fiquei feliz e lisonjeada com o comentário, mas guardei-o na gaveta para um momento posterior. Eu queria mesmo criar histórias curtas, curtíssimas, dar o recado em poucas linhas. Este foi meu principal desafio ao estruturar o Tambor e fiquei bastante satisfeita com o resultado. Além disto, há o diálogo com as imagens produzidas pela Lia. Afropress - Também parece que suas crônicas estão cada vez mais parecidas com contos curtos, cortantes. Estamos assistindo o nascimento da contista Cidinha da Silva? Cidinha - Talvez. A Conceição Evaristo disse pra eu não me preocupar com categorizações, pra me ocupar apenas em escrever e cada vez melhor. Sigo o conselho parcialmente. Há textos no Tambor que escrevi mesmo como contos, mini-contos, quis dar a eles esse ritmo. Afropress - Como tem sido a recepção ao seu trabalho nos lançamentos recentes como em Porto Alegre e Brasília? Cidinha - Tem sido ótimo, muito gratificante. Os amigos e amigas sempre comparecem e começam a aparecer também os leitores e leitoras que não conheço, pessoas que acompanham meu trabalho no blogue, gente que ganhou um dos meus livros ou leu um volume por empréstimo. Além de Porto Alegre e Brasília, fiz também São Paulo (Sarau da Cooperifa), Belo Horizonte e Goiânia. Afropress - Como ativista como está vendo a dificuldade do movimento negro como um todo de deixar o discurso de defesa verbal do Estatuto e passar a assumir a efetiva mobilização da sociedade para que o Estatuto seja aprovado? Cidinha - Indubitavelmente, a mobilização popular é fundamental, mas parece-me haver também um trabalho de lobby a fazer dentro do Congresso, além de alcançar consenso em pontos polêmicos do texto. Afropress - Como analisa o silêncio sobre o mês de maio - dos 120 anos da abolição não concluída? Cidinha - A grande mídia brasileira, desde a consolidação das ações afirmativas para estudantes negros (as) nas universidades públicas federais e estaduais do país, adotou um lado, de maneira explícita, ou seja, posicionou-se do lado de lá do front embora nunca tenha estado do lado de cá, o nosso. Parece-me que hoje há uma espécie de censura para notícias que evidenciem as desigualdades raciais. Antes havia ausência de notícias, acho que hoje há censura, pois qualquer coisa que possa robustecer nossos argumentos, fortalecer o nosso lado do front, está sendo evitado. Afropress - Você passou definitivamente a viver da literatura que faz ou está escrevendo nas horas vaga? Cidinha - Nem uma coisa, nem outra. Viver de literatura é um sonho ainda muito distante, mas vivo a literatura e para a literatura o máximo que posso. Hoje, toda escritura para mim é um exercício, o blogue é um exercício diário, responder a esta entrevista, outro. Ler com olhos de quem escreve também é um exercício cotidiano, dessa forma, escrevo além das horas vagas. O fazer literário é, cada vez mais, presente e constante em minha vida. Sobreviver deste fazer é outro papo. Aí, como disse, estou bem distante. Embora hoje, no Brasil, já tenha caído por terra essa história de que um grupo muito seleto de autores vive da literatura (Paulo Coelho, João Ubaldo Ribeiro e o falecido Jorge Amado, entre poucos). Ainda são poucos os autores a viver de direitos autorais, que é diferente de viver de literatura. Viver de literatura vai além da arrecadação de direitos autorais, implica em auferir remuneração de diversas atividades relativas ao fazer literário (adiantamentos, prefácios, resenhas, palestras, cursos, venda autônoma de livros, fora da rede livreira oficial, assinatura de colunas em jornais e revistas, programas literários de rádio e TV, etc). Nesse aspecto é crescente o número de autores e autoras que está se profissionalizando e consegue viver de literatura. Há que se destacar a origem de muitos desses autores, o jornalismo, o que implica uma rede de trabalho com a literatura já estabelecida, mas, em todo caso, representa um ganho para a literatura. Afropress - Quais os problemas que existem para implementação da Lei 10.639? Cidinha - Basicamente falta de compromisso político do Estado brasileiro nos três níveis, federal, estadual e municipal. Adicionalmente, há buracos abismais na formação continuada de educadores e educadoras e, antes disso, nos próprios cursos de licenciatura no que tange à história e cultura africana e afro-brasileira. Afropress - Quais serão os próximos lançamentos do Tambor? Cidinha - Farei São Paulo novamente, dia 15/04 (Ação Educativa); Belo Horizonte, 18/04 (Nandyala Editora e Livraria); Belém, 26/04; Macapá, 27/04 e Rio de Janeiro, 16/05. Estão ainda previstas para o mês junho, as cidades de Salvador e Recife. Afropress - Quem, além de você e Cuti, você destaca como autor ou autora negra que promete pela qualidade do trabalho? Cidinha - O Cuti não é uma promessa. É um autor consolidado, reconhecido e fértil, ao lado de outros (as) igualmente importantes, tais como Conceição Evaristo, Mirian Alves e Geny Guimarães, apenas para citar algumas. Quanto ao pessoal novo na literatura negra, que talvez nem se reconheça como tal, pois enquadra-se mais na categoria de literatura marginal ou periférica, há uma geração de jovens negros de menos de 30 anos, especialmente talentosa, cito os três nomes que mais me encantam: Dinha e Dugueto Shabaz, poetas portentosos e Allan da Rosa, este, além de poeta, dramaturgo premiado e editor (Edições Toró). Ainda mais jovens tem o Akins Kintê e a Elizandra. Aliás, uma pesquisadora holandesa que passou uns meses por São Paulo em 2007, pesquisando escritores jovens, ligados à literatura periférica, analisou exaustivamente o discurso literário da Elizandra e acaba de publicar o trabalho. Eu, na verdade, estou ao lado destes jovens por estar começando, embora tenha idade bem maior que a deles. Tem ainda a Maria Tereza Moreira de Jesus, já no segundo livro (Negrices em Flor), pertencente a uma geração intermediária entre a minha e os jovens que nominei, e também a Jussara Santos, uma contista mineira, premiada, da minha geração, embora escreva e publique há mais tempo e tenha um trabalho literário mais consolidado. Uma característica importante destes novos escritores e escritoras, a meu ver, é a ousadia de publicar livros. Todo mundo tem livro, a maioria editada com recursos próprios ou em algum esquema de co-edição, mas que resulta em livros individuais ou em dupla. Akins e Elizandra, por exemplo, publicaram Punga, pela Edições Toró. Vivemos um momento literário muito fértil, com uma cultura de saraus que se espalha pelas periferias do Brasil e forma público leitor. Serviço Lançamento do livro Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor! Dia: 15/04, terça-feira. Hora: 19h. Local: Ação Educativa -Rua General Jardim, 660 - Centro - SP
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