Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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6 de dez de 2010

Negro foi mal representado nos quadrinhos, segundo pesquisa

(Por Paulo Ramos / Do UOL). "Mais de 200 cidades brasileiras celebraram no 20 de novembro passado, o Dia da Consciência Negra, data criada para discutir o papel do negro na sociedade brasileira. Esse papel se refletiu também nas histórias em quadrinhos, como mostra um doutorado desenvolvido na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. O estudo, feito pelo pesquisador Nobu Chinen, releva que o negro historicamente foi muito mal representado na produção nacional. "Qualitativamente, os personagens eram quase sempre estereotipados e ocupavam papéis de pouco destaque. Quantitativamente, sempre foram muito poucos", diz. Segundo o mapeamento de Chinen, a primeira aparição de um negro nos quadrinhos brasileiros foi em "As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte". Criada pelo ítalo-brasileiro Angelo Agostini, em 1869, a história trazia um negro como auxiliar do protagonista (imagem mostrada no início desta postagem). Na primeira metade do século 20, outros nomes importantes se incorporariam ao rol de personagens negros: Lamparina, de J. Carlos, Azeitona, de Luiz Sá, o Gibi, da Globo. Na leitura de Chinen, o cenário estereotipado vem mudando nos últimos anos. Mas ainda é pouco, se comparada proporção entre personagens assim e a população negra do país. A ideia da pesquisa surgiu em 2005, durante um curso sobre quadrinhos que Chinen fez na Gibiteca Henfil, no Centro Cultural São Paulo. Inicialmente, tinha um pouco de receio de enfrentar o estudo. O medo é que uma abordagem mais séria sobre a área nublasse o prazer da leitura descompromissada. O tema falou mais alto e se tornou um mestrado. Na qualificação, etapa que antecede a defesa do estudo, a banca sugeriu tornar a pesquisa num doutorado, e não num mestrado. Assim foi feito. Desde junho do ano passado, vem finalizando a investigação do doutorado. A programação dele é defender até o final deste ano. Paulistano descendente de japoneses, Nobu Chinen trabalhou muito tempo na área de publicidade, sua formação universitária. Hoje, é professor universitário e redator. Tem também uma atuação destacada nos bastidores de projetos editorias e de eventos sobre quadrinhos - é um dos integrantes da comissão organizadora do Troféu HQMix. Nesta entrevista ao blog, o pesquisador, de 49 anos, antecipa as conclusões do estudo que tem feito na Universidade de São Paulo. A conversa começa justamente com a reflexão proposta neste Dia da Consciência Negra, a forma como os negros foram tratados na sociedade brasileira. Blog dos quadrinhos - Como o negro foi - e ainda é - representado nos quadrinhos brasileiros? Nobu Chinen - Como na totalidade das manifestações artísticas e culturais, o negro era representado como alguém inferior, boçalizado, ocupando funções socialmente pouco valorizadas. Invariavelmente era o serviçal, o menino de recados, o ajudante. Temos como exemplos do início do século 20 o Benjamin, criado por José Loureiro para a revista O Tico-tico; e Lamparina, do J. Carlos. Nas poucas vezes em que era protagonista de uma série, o negro ocupava os papéis nos quais lhe era permitido se destacar, como nos esportes. No aspecto gráfico-visual, também predominava uma estilização grotesca, estereotipada. Os lábios exagerados, os olhos esbugalhados e expressões simiescas. Aqui é preciso fazer uma ressalva e, como pesquisador, sinto que é uma arena delicada porque muitos quadrinhos, como expressão do humor gráfico, têm por característica o traço caricatural e exagerado, portanto, é complicado estabelecer o limite entre o que é o cômico e o ofensivo/preconceituoso. Sempre cito como exemplo o famoso trio Reco-reco, Bolão e Azeitona, criado por Luiz Sá, na década de 30 [imagem abaixo]. O autor retrata seus três personagens de forma exagerada e em situações que os mandamentos do politicamente correto certamente condenariam. Mas não vejo um preconceito específico contra um ou outro grupo social. O Luiz Sá esculachava todo mundo sem distinção. Blog - Houve, ao longo das décadas, alguma mudança nessa caracterização? Chinen - Meu trabalho defende, justamente, que sim. Ocorreu uma evolução significativa na maneira como o negro vem sendo representado nos quadrinhos. Tomei como base um trabalho muito interessante, o livro "Black Image in the Comics", de Fredrick Strömberg, que aborda essa trajetória, transpondo, naturalmente, para a realidade brasileira. Tenho a sorte de viver em um momento privilegiado nesse aspecto. Nos últimos anos, foram publicadas várias histórias em quadrinhos que trazem negros como protagonistas, e posso citar como exemplos a personagem infantil Luana, uma iniciativa de Aroldo Macedo e realizada por vários autores; e Aú, o capoeirista, do Flávio Luiz. Também surgiram trabalhos em quadrinhos que resgatam a participação dos negros em episódios históricos como os álbuns "Chibata", de Hemeterio e Olinto Gadelha; "Revolta dos Alfaiates", do Mauricio Pestana; e "Balaiada", de Iramir Araújo, Ronilson Freire e Beto Nicácio. E há vários outros. Se tivesse feito meu projeto há quatro ou cinco anos, quando foi originalmente pensado, teria perdido a chance de incluir boa parte desse precioso material. Blog - Há caracterizações recorrentes na literatura em quadrinhos brasileira, como o escravo, para ficar em um caso. Houve mudanças na forma de representação dessas personagens ao longo do tempo? Chinen - Esse é um ponto interessante porque só é possível fazer juízo de valor de um fenômeno se existe massa crítica. É muito difícil estabelecer se houve uma mudança quando se dispõe de um universo limitado, uma vez que não existiram muitos personagens negros. O que posso dizer é que quase sempre os personagens negros tinham papéis subalternos, de criados e empregados. E isso prevaleceu durante décadas. Tomando como referência a série Nhô Quim, de Angelo Agostini, que muitos estudiosos consideram a primeira história em quadrinhos no Brasil, já na primeira vinheta, de 1869, aparece um personagem negro, o Benedito, que é o criado do Nhô Quim. Isso seria “natural”, considerando que ainda vivíamos na época anterior à abolição. Mas esse padrão se repete nos personagens do início do século 20 e vai se manter até recentemente. É mais ou menos como ocorreu com as telenovelas em que, até poucos anos atrás, os negros só tinham papel de empregados, cozinheiras e motoristas. Felizmente isso mudou muito. Blog - Na sua leitura, ocorreram casos de preconceito em relação ao modo como o negro foi representado nos quadrinhos? Chinen - Sem dúvida. Ao relegar o negro a papéis inferiores, como já havia citado, os quadrinhos e a mídia de modo geral também ajudavam a alimentar um sistema discriminatório. Na minha opinião, o exemplo mais chocante é a personagem Lamparina, representada quase como um animal [imagem abaixo]. E olha que eu sou um grande admirador do trabalho do J. Carlos, um dos maiores artistas gráficos que este país já teve. Muitas vezes, para defender casos como esse, usa-se a desculpa de que “mas naquela época era assim que se fazia”. Esse é um sintoma (acho que esse termo é apropriado porque preconceito não deixa de ser um câncer social) do quanto a nossa sociedade é preconceituosa. Numa das disciplinas da pós-graduação, pude conhecer autores que tratam bem dessa questão e um deles alerta que o grande perigo é passarmos a achar natural uma representação nitidamente preconceituosa, disseminada pela classe dominante. Blog - Há algum personagem mais marcante ao longo dessa trajetória? Chinen - Segundo os estudiosos que pesquisei, o personagem negro mais importante e de maior sucesso foi o Pererê, do Ziraldo. Teve revista própria nos anos 1960, ganhou álbuns de coletâneas em anos posteriores e virou até série de TV com atores. O curioso é que o Pererê simboliza o que chamo de primeiro paradoxo do negro nos quadrinhos brasileiros porque trata-se de uma entidade folclórica, um ser mítico, ainda que as histórias do Ziraldo o tenham humanizado. Ou seja, o negro já figura pouco nos quadrinhos e quando aparece é um ser que não existe. Apenas para completar: o segundo paradoxo é o Gibi, o mascote que batizou uma publicação que fez tanto sucesso que se tornou sinônimo de revista em quadrinhos, mas que nunca apareceu como personagem. Gibi, etimologicamente, significa menino negro. É importante não confundir esse Gibi com o Giby, o primeiro personagem negro dos quadrinhos brasileiros, criado pelo incansável J. Carlos, em 1907. Aparentemente, não existe relação entre um e outro. Blog - O fato de você ser descendente de japoneses - outro grupo étnico, tal qual o negro - tem alguma relação com o tema escolhido para a pesquisa? Chinen - Não. A última coisa que gostaria de dar ao meu trabalho é um caráter político ou ideológico. Não que eu seja contra, pelo contrário, mas não é a minha linha. Já tinha decidido que ia trabalhar com um tema brasileiro e já me incomodavam os dois paradoxos que apontei. Acho que isso já direcionou o meu trabalho. Só que uma coisa que não dá para negar é que se existe uma etnia injustiçada, uma vez que a nossa raça é a humana, são os negros. Fazer um trabalho que permitisse a reflexão sobre essa injustiça já por si, seria um motivo bem legal. A professora Sonia Luyten, uma das primeiras pessoas no mundo a estudar os mangás, disse que enfrentou muitas barreiras porque os japoneses estranhavam uma “gaijin” se dedicando a um tema que pretensamente era deles e me encorajou nesse aspecto. Ela me disse “se uma loira ítalo-brasileira como eu pode estudar mangás, por que um japonês não pode estudar os negros nos quadrinhos?”. Foi um incentivo e tanto".
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