Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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3 de dez de 2010

A noção da amizade na era do Facebook

(Por Enrique Fibla Gutiérrez). "Há uns dias estreou na Espanha (e estréia hoje no Brasil) "A Rede Social", o filme de David Fincher sobre o nascimento do Facebook, plataforma web que define perfeitamente a sociedade da informação do século XXI. Mais além da indubitável qualidade do filme, a sequência reaviva o interesse não somente sobre o tema da vida privada, mas também o significado do conceito de amizade na era da internet. Em uma das principais cenas do filme, o fundador do Facebook Mark Zuckerberg se dispõe a celebrar o número de um milhão de usuários da plataforma enquanto enfrenta uma demanda judicial interpolada por seu único amigo até agora. O advogado deste amigo o alfineta com ironia: “seu melhor amigo está pedindo 600 milhões de dólares”. Pouco depois, voltamos à sede do Facebook, onde o jovem começa a assistir a uma festa e comemorará o êxito de conseguir ficar totalmente sozinho no escritório. Como pode o fundador de uma das ferramentas sociais mais importantes dos nossos tempos ser uma pessoa evidentemente anti-social? Na minha opinião, diz muito sobre o que é considerada atualmente a amizade, um conceito que tem sido distorcido a ponto de depender exclusivamente de um clique do mouse. A palavra amigo provém do latim amicus, que deriva, por sua vez, da palavra amore, amor. Trata-se, portanto, de uma relação entre duas pessoas cuja chave reside no mútuo entendimento e respeito. Mas, sobretudo, embasa-se na existência de uma intimidade com o outro que nos permite compartilhar o que nos alegra e nos atormenta de maneira totalmente próxima. Abrimo-nos à amizade porque necessitamos compartilhar o que passa pela nossa cabeça, estabelecendo um vínculo de confiança sem o qual estaríamos perdidos. Um amigo não é o mesmo que um conhecido, alguém a quem também respeitamos mas não confiamos o suficiente para nos abrirmos e de quem somente conhecemos superficialmente, mas nunca em profundidade. A confusão vem com a aparição das redes sociais na Internet, um tipo de simulacro de nossas relações pessoais onde um cria um alter ego virtual a partir de pequenos retalhos de informação pessoal, fotografias e comentários sobre o que fazemos, deixamos de fazer e do que gostamos. A natureza expansiva da rede faz com que a única maneira de participar do jogo virtual seja aumentando constantemente nosso número de amigos. Solicitando a aceitação de pessoas das quais não conhecemos nada. Se faz possível o impensável, já que podemos chegar a entrar em contato com gente que simplesmente não teríamos conhecido de outra maneira. Essa ampliação até o infinito de nosso mapa social é certamente positivo, já que provoca encontros, choques e conexões que, de uma maneira ou outra, geram novos conhecimentos e ideias. Ao mesmo tempo, entretanto, impulsiona uma cultura de superficialidade que preocupa pelo desapego com a realidade provocado pela ferramenta. As novas relações que estabelecemos graças à ausência de barreiras físicas na Internet se baseiam na máxima do “disparo”, em vez da seleção. Nesse ponto, gostaria de recordar uma citação do escritor Augusto Monterroso que diz: “Desde que começou a falar, o homem não encontrou nada mais gratificante que uma amizade capaz de escutá-lo com interesse, seja para a dor como para a felicidade”. O importante dessa frase é que ressalta a transcendência do interesse e, por extensão, da profundidade de um vínculo para considerá-lo como tal. Nossas amizades virtuais correspondem a esse pensamento? Duvido muito. Sobretudo porque tudo que podemos conhecer do outro e vice-versa não é nada mais do que uma construção, uma máscara por trás da qual não há um rosto, mas simplesmente nada. Não se exige o exercício da sinceridade que implica toda amizade verdadeira, um processo no qual não resta outra coisa se não mostrarmos como somos. Tampouco recai sobre nós responsabilidade alguma e assim, isentos de deveres, nos encanta nos sentirmos participantes fortes do simulacro social que propõe o Facebook. O processo de amizade se automatiza, passando a depender de uma breve janela de aceitação como início da relação e com constantes opções de valorizar aquilo que se valoriza por meio de botões pré-configurados do estilo “gosto”, não gosto” etc. Essa racionalização/automatização da amizade é o procedimento que segue Mark Zuckerberg no filme. Mostra-se infinitamente mais fácil entender as relações pessoais como uma série de algoritmos de zeros e uns que dão forma a esta ou aquela opinião da web. Essa redução não implica uma necessidade de simpatizar com o outro, mas sim uma dissecação lógica que permita determinar gostos, medos e afinidades sem ter que perguntar, somente consultar o que o computador já fez por nós. A tecnologia se converte em um meio que nega a interpessoalidade mas permite uma comunicação eficazmente imediata. Agora, que tipo de comunicação se consegue estabelecer? Neste ponto, remeto ao excelente ensaio de Gilles Lipovetsky “A era do vazio”, onde define um ato de narcisismo como “a expressão gratuita, a primazia do ato de comunicação sobre a natureza do comunicado, a indiferença pelos conteúdos, a reabsorção lúdica do sentido, a comunicação sem objetivo nem público, o emissor convertido em principal receptor”. Desta maneira podemos definir a amizade segundo as redes sociais como um paradoxo ato de narcisismo, realizado a partir da solidão de um computador e onde o que interessa não é conhecer o outro,, mas sim construir minuciosamente uma identidade em perpétua mutação, diante da qual conhecemos a comunidade virtual. De certa maneira esta é a conclusão final de David Fincher em “A rede social”, a sensação de que depois de duas horas de filme somos incapazes de fazer uma ideia clara de quem é Mark Zuckerberg. Mas não por falta de habilidade do diretor, mas como uma exemplificação máxima da incapacidade de construir uma identidade clara de alguém que se escondeu toda a sua vida atrás da Internet. Façamos o teste agora de tentar imaginar quem são todas essas pessoas que temos como amigos em nossas contas. Provavelmente só reconheceremos uns poucos, que casualmente serão nossos amigos mais próximos. Não pretendo demonizar uma ferramenta tão útil como o Facebook, que eu mesmo uso assiduamente, mas sim alertar sobre essa redução do conceito de amizade, que nos leva a utilizar a dita palavra com rapidez para denominar relações cibernéticas que merecem outro termo. Quiçá seja simplesmente uma questão de terminologia, mas sem o simplesmente".
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