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22 de jan de 2015

Quando a rede social gera a ilusão de que sozinha resolverá questões improváveis


Por Cidinha da Silva



O caso da prisão arbitrária de Mirian França, farmacêutica e doutoranda em Bioquímica, negra, sem antecedentes criminais, por longos 16 dias sob acusação de ter assassinado Gaia Molinari, turista branca italiana, na praia de Jericoacoara, em Fortaleza, baixou o tom de gravidade diante da reação pública contrária à prisão, externada nas redes sociais. A ação destas denunciou o racismo motivador da acusação e o discurso foi alterado para possível participação no assassinato, não mais ato exclusivo.

Conseguida a liberação do cárcere, Mirian França continuou constrangida a permanecer os 30 dias seguintes em Fortaleza, ou seja, não pôde voltar para casa no Rio de Janeiro e retomar a vida sequestrada pela prisão. Este foi o recurso encontrado pela Defensora Pública que cuidou do caso para, de alguma forma, contentar a delegada que impunha a Mirian a prisão injustificável baseada em contradições bizarras nos depoimentos, como exemplo, o número de cafezinhos que Gaia teria tomado enquanto passara algum tempo com Mirian.

Estivemos diante daquilo que Milton Santos caracterizou como a brutalidade com que a informação inventa mitos. Dizia o geógrafo em entrevista a Gilberto Gil em 1996: “Acho que vai haver uma grande mudança política, mas nós não temos noção dessa possibilidade, dessa enorme mudança, por causa da violência da informação que é um traço característico do nosso tempo. A brutalidade com a informação inventa mitos, impõe mitos e suprime o que a gente chamava antigamente de verdade, essa violência da informação e das finanças, criou uma certa ideia tão forte do mundo atual que a gente fica desanimado diante da possibilidade de um outro futuro.”

Mirian França foi transformada pela delegada e pela mídia cearense em principal acusada do assassinato de uma turista eurodescendente por meio de fortes pancadas, mesmo sendo fisicamente frágil e não apresentando marcas de luta corporal. A imprensa local rejeitou veementemente o argumento construído por sua defesa popular de que Mirian estaria sendo vítima do racismo que transforma qualquer pessoa negra em suspeita preferencial dos crimes, mesmo sem provas.

Pela octo-milionésima vez havia-se que superar dois mitos reforçados pela brutalidade impositiva da informação, quer sejam, a inexistência do racismo no Brasil e a existência da justiça imparcial, válida para todos.  

Em contrapartida, a imprensa alternativa, eletrônica, progressista, veiculada nas redes sociais concluiu que sua ação libertou Mirian França. Mais uma vez, Milton Santos nos socorre na referida entrevista, diz ele: “Mas se a gente se detêm a pensar na maneira como o mundo está funcionando, na maneira como os pobres se apropriam da tecnologia... Os pobres e oprimidos estão fazendo, de uma maneira extraordinária, o uso das novas tecnologias, no seu trabalho e em seus assaltos, por exemplo, e estão encontrando e defendendo ideias aí pelo mundo afora e de que a gente fala pouco...” Ideias de liberdade, associativismo espontâneo, solidariedade, troca ao invés de compra e venda.

Entretanto, alguns equívocos merecem ser desfeitos. A Defensoria Pública preocupada com a defesa de direitos de cidadãs e cidadãos aos quais esses direitos são negados, não fica pescando casos na internet, não procura o que fazer na internet, ela precisa ser acionada, alertada, ainda que a mobilização prioritária em torno das situações ocorra inicialmente via web.

É preciso que as pessoas gastem a sola do sapato e caminhem até o espaço físico da Defensoria para conversar com os defensores, ou que gastem pulsos da primitiva telefonia fixa, ou bônus das redes móveis para fazer uma denúncia, para requisitar acompanhamento de um caso. É necessário que pessoas, de um modo geral, participantes dos movimentos sociais, conheçam quem são os defensores com que se pode contar nas diferentes cidades, estados. Todo mundo que milita na área de Direitos Humanos tem conhecimento disso, dessa rede existente desde os tempos em que pescadores saiam para pescar todas as manhãs, composta por defensores e militantes de outras cidades que informam, “olha, lá em Fortaleza tem a fulana de tal que atua na defesa dos Direitos Humanos e que dará um tratamento justo ao problema. Procurem por ela”

No caso Mirian França, muita gente se movimentou e foi movimentada: organizações de mulheres negras, feministas, de Direitos Humanos, o coordenador do curso de pós-graduação de Mirian na capital fluminense, que deslocou-se até Fortaleza, seus amigos e familiares que não descansaram um minuto sequer, mobilizando todas as redes e recursos imagináveis (inclusive internacionais) para libertá-la.

E, antes de tudo, houve uma organização de mulheres negras, chamada Criola, baseada no Rio de Janeiro, que, ao longo de mais de 20 anos construiu uma história de credibilidade junto à população negra carioca e brasileira, justamente pela reverberação dessa luta por cidadania e Direitos Humanos para a população negra, cuja atuação motivou alguém a entregar uma carta em sua sede, na qual denunciava a situação de Mirian e pedia socorro. Ali, naquele momento semipresencial e prosaico, a entrega de uma carta, toda a mobilização pela internet começou, as providências emergenciais foram tomadas, algumas noticiadas nas redes sociais, outras, não, haja vista que as pessoas que trabalham com causas humanitárias e cidadãs fora da internet não têm tempo de atualizar o diário virtual dos passos de seu trabalho minuto a minuto, tampouco é sua intenção. Sua escola de formação política e ética prescinde do exibicionismo virtual que, desafortunadamente, pauta a atuação de muitos.

Então, nem tanto ao mar. As novas tecnologias de comunicação podem, como asseverou Milton Santos, realizar coisas extraordinárias, principalmente no campo da divulgação e mobilização de temas que, sem elas, as novas tecnologias, continuariam soterrados pela imprensa hegemônica, contudo, o velho e bom movimento social que faz cartazes (não só catarse), usa telefone, constrói redes presenciais e marcha nas ruas e avenidas ainda tem um lugar de transformação que não foi (e é provável que não seja) substituído pelo ativismo de sofá com ar condicionado.

A intervenção política no mundo real feita no asfalto quente das contradições da realidade continua fundamental além das curtidas, comentários indignados na levada da boiada e quiçá, dos compartilhamentos.


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