Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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3 de ago de 2008

Notas sobre a ausência de escritoras e escritores negros na cena literária da TV brasileira

Em outubro de 2006, participei da Balada Literária, evento organizado em livraria cult da cidade de São Paulo, pelos amigos e escritores Marcelino Freire e Maria Alzira Lemos. As mesas foram muito animadas, mas os debates com a platéia nem tanto. Do início para o fim dos trabalhos fui arrefecendo minha verve perguntadeira, pois percebi que os pares estavam mesmo interessados nas conversas endógenas. Lá pelas tantas, numa das mesas finais em que um dos temas discutidos era a remuneração do escritor, um romancista afamado e laureado, editado pela poderosa Companhia das Letras, fez uma declaração bombástica, revelou valores e, de certa forma, contrapôs o mito de que o autor não ganha nada, não recebe adiantamento para escrever, etc. Já sabíamos tratar-se de um escritor bastante reconhecido, adicionalmente ele nos informa que escritores como ele (do nipe dele) recebem em torno de 5X, a título de adiantamento, quando têm um projeto de livro aprovado ou quando a editora lhes encomenda algo. Segundo ele, aquela era a regra e ele desconhecia exceções, a não ser o Paulo Lins que teria recebido 20X como adiantamento para a publicação de Cidade de Deus. E concluiu dizendo, “mas também, coitado, ele precisa”. Eu já estava cansada de intervir, contei a vocês, e aquilo foi um sapo quadrado com as perninhas abertas e os pés calçados, entalado na garganta. Ora bolas, eu me perguntava, por que o Paulo Lins seria um coitado? Vejamos: trata-se de homem e escritor vitorioso, não é mais um jornalista fazendo literatura, mas sua obra é um best seller. Depois do sucesso do livro e do filme de mesmo nome, Cidade de Deus, foi convidado por Cacá Diegues para roteirizar o Orfeu e o fez, muito bem. A seguir foi contratado pela Rede Globo para roteirizar a série Cidade dos Homens, de poesia e diálogos memoráveis na TV brasileira. Fez também, em 2005, o belo roteiro de Quase dois irmãos, filme premiado de Lúcia Murat. É professor de literatura, formado e referendado por ótima universidade pública do Rio de Janeiro. Foi professor da disciplina em universidades do Rio e de São Paulo. Escreve para jornais e revistas, participa de programas de televisão como entrevistador qualificado, caso do Roda Viva, da TV Cultura. Foi e é jurado de concursos literários como o prestigiado Casa de las Américas, de Cuba. Por que ele seria um coitado? Vamos leitor, me ajude a decifrar o enigma. O Paulo Lins não viveu aquelas histórias lacrimosas tão comuns à nossa gente, não! Teve uma infância modesta, vivida no Morro, com mãe rígida que exigia bons resultados nos estudos, boa companhia na vida e deu-lhe em casa exemplos éticos, formadores de caráter firme e coluna vertebral inteira, condições essenciais para circular entre hienas e leões. Por eliminação de probabilidade, reforçamos nossa compreensão de que ele não é um coitado, certo? Mas será que poderíamos aventar a possibilidade de que o tal escritor assim o tenha considerado por ser ele negro, a despeito de sua história de sucesso? Um preto raro, vitorioso, mas preto. Será? Ou isso não passaria de picuinha entre escritores, todos plantados numa arena de egos em chamas, labaredas, fogaréu? Tendo a achar que não. Eu creio em bruxas e que as igrejinhas e clubinhos literários existem, existem, é fato notório, não é opinião. Entretanto, o desprezo devotado ao Paulo vai além do não pertencimento dele a uma certa elite intelectual. É punhalada certeira no pulmão de outro pertencimento, o racial, o negro-africano que grita em seus traços fenotípicos e em sua história, também em seu romance. A despeito do nosso autor afirmar que Cidade de Deus não é uma história do negro no Rio de Janeiro, mas uma história do Brasil e do que vem se fazendo com os negros. Faltou dizer que Paulo Lins é um grande escritor e talvez não possa sê-lo, aos olhos do clubinho, por ser negro; talvez também por sua origem social na poesia e na ética do Morro. Ademais, parece que o Paulo quebrou uma regra tacitamente aceita, - “ganhou muito dinheiro com literatura” -, logo ele, que nunca receberá carteirinha do clube. Iniciei o texto com este caso, não só pelo vício de contar histórias, mas para desentalar o sapo e ilustrar o tratamento dado aos escritores negros no meio literário, que se estende aos programas de literatura na TV brasileira. Um tratamento de exceção, de não-pertencimento, de não-participação no mainstream, mesmo quando quebradas as barreiras que tornariam o escritor negro membro de uma certa elite literária – que publica por uma grande editora e recebe adiantamento para escrever, por exemplo. Ainda assim, ele é um coitado, como Pelé, o Rei do futebol, o Atleta do Século XX, que ocupava no coração dos brasileiros, o mesmo lugar afetivo do asfaltamento de estradas, segundo análise lapidar de Elizeu Padilha, Ministro dos Transportes do final dos 90. E é importante que se diga, que abordamos aqui um autor negro independente, um não-militante dos pelotões da literatura negra, afro-brasileira ou afro-descendente. Não se trata de arauto da negritude na literatura. Mas são diferenças que não contam, ou importam apenas para recrudescer os ataques - um negro é sempre um negro. E é este negro escritor, combatente ou não, este escritor ou escritora, cujo pertencimento racial é negro, que, como os demais negros, precisa aparecer com sua carinha preta na TV Brasil. Porque nos espelhamos no que vemos, queremos nos assemelhar ao que vemos e se vejo um escritor parecido comigo, acredito que também posso sê-lo, ainda que no campo simbólico. Existe um grupo significativo de escritoras e escritores negros carente de (re)conhecimento, são dezenas de rostos e obras. De novembro de 2006 a julho de 2007, por exemplo, assisti com regularidade ao programa literário semanal Entrelinhas, da TV Cultura. Raríssimas vezes vi escritores negros, lembro-me de uma aparição do poeta, artista visual e performer mineiro, Rique Aleixo. Mas nunca vi na telinha daquele programa, Elisa Lucinda, Edimilson de Almeida Pereira, Conceição Evaristo, Oswaldo de Camargo, Mirian Alves, Leda Martins, Oliveira Silveira, Ronald Augusto, Salgado Maranhão, Estevão Maya-Maya, Cuti ou mesmo Ana Maria Gonçalves, autora do premiado Um defeito de cor, considerado por alguns, a primeira grande saga histórica em voz feminina no romance brasileiro. Tampouco o Quilombhoje, importante coletivo de autoras e autores negros, que alterna a publicação regular de um livro de contos e outro de poesia há trinta anos, mereceu espaço. Nem como “curiosidade” vi por lá Muniz Sodré, além de ensaísta e acadêmico notável, um ficcionista de bom fôlego narrativo demonstrado em O bicho que chegou à Feira (Ed. Francisco Alves, 1991), dentre outros. Para não ser imprecisa, ensaiei uma pesquisa rápida no sítio do Entrelinhas na Internet. Dispus o nome desses autores e autoras no setor de busca, mas os resultados foram pífios. Sequer o nome do Rique, que esteve lá, eu vi, nem o de figurinhas carimbadas do programa apareceu, donde concluí que o sistema é falho. Ficamos então com minha percepção falha e incompleta como telespectadora. Não é possível que apenas nós saibamos quem é Oswaldo de Camargo. Ops, é possível, sim! Não foi o que perguntou o Secretário de Cultura da cidade de São Paulo (queria não me lembrar do nome dele, mas o dever de ofício me obriga), Carlos Augusto Calil – “quem é Oswaldo de Camargo” – no episódio da foto do Mário de Andrade afro-descendente? O Oswaldo, como especialista em literatura afro-brasileira, contratado pelo Governo do Estado para prestar um serviço foi quem indicou a foto, retirada dos arquivos do jornal O Estado de São Paulo. Se o Oswaldo aparecesse no Entrelinhas ou em outros programas literários da TV brasileira, talvez o Secretário soubesse quem ele é, bem como seu significado para o campo da Literatura Afro-brasileira, que, aliás, não é estudada, nem compreendida como Literatura Brasileira. Talvez também pensasse duas vezes antes de destilar sua agressividade inócua, inoportuna e deselegante, como caracterizou o ogúnico Emanoel Araújo, ao comentar o episódio na imprensa nacional. Existem especialistas aptos (as) a subsidiar abordagens substantivas da Literatura Afro-brasileira, tais como: Edimilson de Almeida Pereira (UFJF), Maria Nazareth Soares Fonseca (PUC Minas), Florentina Souza (UFBA), Tânia Macedo (USP), Íris Amâncio (PUC Minas), Eduardo de Assis Duarte (UFMG), para citar apenas alguns nomes. Existem livrarias, também especializadas, são exemplos a Kitabu – livraria negra, no Rio de Janeiro; a Sobá – livros e cds e a Nandyala – livraria e editora, ambas em Belo Horizonte. Sobrevive há vinte e sete anos no mercado editorial, a Mazza Edições, responsável pela publicação de títulos fundamentais para a compreensão da pessoa negra como protagonista da História e cultura brasileiras. Existe um movimento literário pujante nas periferias de cidades como São Paulo e Salvador, composto por saraus, coletivos de poetas e prosadores, tais como a Cooperifa (SP) e o Blackitude (BA); bibliotecas comunitárias, autores (as) de fôlego e até editoras. São emblemáticas, a novíssima Elo da Corrente, do bairro de Pirituba, zona oeste de São Paulo, que nasce em 2008 com a publicação prevista de oito títulos, e a pioneira Edições Toró, da zona sul de São Paulo. Há três anos na praça, já editou catorze títulos, dentre os quais destacam-se: De passagem, mas não a passeio, 2006, da Dinha, uma poeta vigorosa; Vão, 2006 e Morada, 2007, ambos de Allan da Rosa, poeta, prosador, dramaturgo e editor; a letra cortante de Notícias Jugulares, do profeta Du Gueto Shabazz, de 2007 – “quem não tem valor, tem preço” - , nos lembra ele; o bem cuidado Negrices em Flor, de 2007, da Maria Tereza Moreira de Jesus; Punga, do inflamado e porque não dizer, lírico rapper , Akins Kinte, em co-edição com Elizandra Souza, também de 2007. Todos, com exceção de Tereza e Allan, os dois na casa dos trinta, autoras e autores promissores, negros (as), com livros publicados e ainda na casa dos vinte anos. É a literatura silenciosa(1) , aquela que não dialoga com o cânone, não se importa com ele e constrói um ethos próprio, faz barulho, mas ainda está longe das telas. Há pouco os círculos literários brasileiros despertaram para dialogar com a literatura contemporânea produzida na América Latina. Basta ver a programação de importantes eventos do setor, de abrangência nacional, como a FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty 2007, a Balada Literária, São Paulo 2007, e a FLAP (não é uma sigla, é o nome do evento, apenas) de 2008, com edições no Rio de Janeiro e em São Paulo. São muitos os escritores e escritoras hispano-falantes convidados (as). Entretanto, escritoras e escritores negros da América hispânica continuam ausentes, os (as) afro-hispano-americanos (as) – afinal, o racismo que nos invisibilisa nas Américas opera por mecanismos similares. O que sabemos de Maryse Condé, escritora de Guadalupe? O que conhecemos de Simone Schwarz-Bart, também de Guadalupe, publicada no Brasil pela Marco Zero (A ilha da chuva e do vento), em 1986? E mesmo sobre Aimé Césaire (1914-2008)? O que sabemos de Mayra Santos-Febres e Micheline Coulibay, contistas do Caribe, apresentadas no livro Terras de Palavras, da Pallas Editora, 2003? Nada, nada sabemos sobre escritoras e escritores afro-caribenhos. E quanto à África, às literaturas africanas, quando despertaremos para elas? Até quando autores como Ismael Beah e obras comoventes e belas como o seu Muito longe de casa – memórias de um menino soldado (Ediouro, 2007) terão destaque como espécime exótico da dor africana, servida com café e biscoitos finos nos balcões de livrarias dos aeroportos brasileiros? O mesmo ocorrendo com a escritora somáli Ayaan Hirsi Ali, autora de Infiel (Companhia das Letras, 2007). Até quando um intelectual da estatura de Hamadou Hampâté Bâ (Amkoullel - o menino fula, Casa das Áfricas, 2003), conhecedor e divulgador da África profunda seguirá como um desconhecido entre nós? Até quando Sobonfu Somé, escritora do Burkina Faso (O Espírito da Intimidade, Odysseus, 2003), aquela que veio ao mundo com a missão espiritual de transmitir ao Ocidente os ensinamentos sobre a vida comunitária do povo Dagara, seu povo, permanecerá como um diminuto diamante, perdido no cascalho das prateleiras das livrarias? Até quando os legítimos representantes das literaturas africanas de língua portuguesa, largamente divulgados no Brasil, serão apenas os grandes escritores Mia Couto (Moçambique) e José Eduardo Agualusa (Angola)? Quantos Ondjaks e Paulinas Chiziane sucumbirão à passagem atlântica do nosso desconhecimento, até que nossos olhos se descortinem para vê-los, para lê-los? Até quando ignoraremos a força poética do rap produzido em Angola? A concepção da TV Pública e seus conteúdos programáticos podem tornar mais ágeis e efetivas as respostas que queremos e merecemos ouvir/ler/assistir. (1) Conceito de Edimilson de Almeida Pereira."Dança com o sol IV", arte de Iléa Ferraz. Este ensaio integra a coletânea "O negro na TV pública", organizada por Joel Zito Araújo, Fundação Palmares, 2008, no prelo, e foi apresentado durante o V COPENE na mesa "Imagens negras em arte e mídia", dia 30/07.
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