Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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10 de ago de 2008

Saiu o aguardado Rasif do Marcelino!

(Nas águas fortes de Rasif, por Eduardo Araújo Teixeira) (“É preciso inocular no corpo da escrita o veneno, o mal . Essa perversão é o sal da literatura.” João Gilberto Noll). "Se em Contos negreiros, o escritor Marcelino Freire questionava a noção de igualdade racial no Brasil (a cordialidade como produto de uma síntese feliz e festiva entre índios, negros e brancos estrangeiros), Rasif, mar que arrebenta, sua nova antologia de contos, busca outros territórios. O título rascante do livro carece de alguma explicação. Recife vem do árabe, Rasif: terreno de lajes, estrada composta de rochedos. Já Pernambuco, origina-se no tupi-guarani, paranã-puca: “onde o mar se arrebenta”. Deste violento embate entre pedra e mar, emerge Rasif, mar que arrebenta. Dezessete contos, ou melhor, “cirandas, cirandinhas” (assim o autor as nomeou no índice) compõem Rasif, um desnorteio de ritmos bem traduzido na linguagem lírica e ríspida, dura e sutil, bela e grotesca, deste autor que embaralha ainda mais os limites da narração. Cada palavra é ponderada, valendo sílaba a sílaba, aspirando a poemas. Pensemos, por isso, a pertinência da denominação “ciranda” para os contos. Na origem do termo está sarand, palavra hispano-árabe que em sua evolução rumo à forma portuguesa conheceu as formas zaranda e çaranda. Para um livro que mira o oriente, mas que tem Recife, Pernambuco como ponto de partida para pensar o mundo, ciranda aponta para um volteio de temas, escolha, união, dança e embate. Isto porque “ciranda” dá nome a uma peneira grossa, mas também define o canto e a dança de roda adulta ou infantil (e lembremos a profusão de crianças que abarca esta obra). O livro vai além dos limites de Recife e Pernambuco, já que as fronteiras dos contos se distendem para novos territórios. Partindo da etimologia de Recife, surgem contos que tematizam conflitos e põem em pauta uma Arábia sem mistificação, sem orientalismo. Aqui e lá vivem amores, desejos, estilhaços, guerras, explosões. As Arábias são mais um motivo para olhar o mundo que se vê invadido, que se sente deslocado num mundo cada vez mais vertiginoso. Os árabes invadem Rasif até mesmo na dedicatória (“para Asfora, Benuthe, Hatoum, Nassar, Nazarian, Salomão e Snege”), mas alarga-se em contos como “O meu homem-bomba”, “We speak English”, e está implícita no desejo assassino de menino de “Maracabul”, cujo sonho maior é possuir uma arma. Os estilhaços ferozes e infelizes da violência e da guerra estão também em “Amor cristão” e “Da paz”. Do mesmo modo que o árabe, a “língua indígena” vai dar no intérprete que traduz, no conto “Tupi-guarani”, as reivindicações dos índios que, furiosos, invadem o teatro Amazonas. As palavras ameríndias guiam o autor, com sua sonoridade, e vão dar numa proliferação de toponímia, nomes de bichos, lugares, costumes e sons, num livro entranhado em contos que dialogam e distendem-se como no conto que abre o livro, “Para Iemanjá”. Nele, o mar (e as águas) é leitmotiv de Rasif e além de ser um canto de louvação à orixá-senhora das águas, denuncia a dessacralização da natureza, o desrespeito e a ação assassina do homem. O lirismo de “Para Iemanjá” é dos mais imensos: “Oferenda não é essa perna de sofá. Essa marca de pneu. Esse óleo. Esse breu. Peixes entulhados. Assassinados. Minha Rainha (...) Não são para o teu altar essas lanchas e iates. Esses transatlânticos. Submarinos de guerra. Ilhas de Ozônio. Minha Rainha. /Oferenda não é essa maré de merda. Esse tempo doente. Deriva e degelo” (...) (p.21). Muitos reconhecerão no livro a dicção coloquial e urbana dos narradores; o tema da violência; a obsessão pelo solilóquio repleto de ambigüidades. Trata-se de uma linguagem que busca aproximar-se da letra de canção; canção que, na modernidade, vai se irmanar ao sample e ao canto-desafio do rap: “O medo, aqui, não é brinquedo, pode crer. / Pá-pá-pá. / Gostoso roubar e sumir pelos buracos do barraco. Pelo rio e pela lama. Gritar um assalto, um assalto, um assalto. Cercado de PM por todos os lados. Ilhado na Ilha do Maruim. Na boca do guaiamum. /Papai Noel vai entender o meu pedido. Quero um revólver comprido, de cano longo. /Socorro! /Socorro!” (“Maracabul”, p.41). Marcelino Freire trabalha com uma frase quebrada, que em estilhaços se faz quase versejada, já que se encontra posta no martelo do cordel, sincopada na récita do repente: “Saudades da bernúncia. Saudades da zabumba. Do Zé do Vale e Zé Pereira. Do Zé Limeira. Saudades do violão e da viola. Saudades da graviola. Pitanga, umbu. Cajá, maracujá. /Saudades da Lia. Da lua de Itamaracá. Saudades do Cariri, Sertão do Pajeú. (...)” (“O futuro que me espera”, p. 122). Em Rasif estão presentes as personagens que se constroem ao narrarem-se. São travestis, pedófilos, miseráveis indignados, assassinos militantes, gays passionais, pais indignados, crianças cruéis, todos unidos (ao lado de outros) para novos cantares. Afasta-se do clichê, da pobreza sofrida e explorada, seus personagens não revidam o que enfrentam, revelam suas carências, são impiedosos e cínicos. Marcelino Freire os constrói por meio da ironia (figura central em sua “poética” do desmascaro), por isso podem ser lidos de formas distintas. Para traduzir estas personagens, o autor faz uso das “falas-drama” que mimetizam tanto o universo interior quanto o exterior pelo “modo” que elas (aparentemente) diriam-se, conquistado o direito à voz. São “personalidades” que se convertem em trama ao executar o enredo de si mesmas. “Enredar-se”, neste sentido, adquire também o significado de “logro”. Não bastasse isto, o autor – cuja literatura se constrói à revelia do bom gosto e do politicamente correto - elege personagens marginais, seres de exceção, figuras cujo olhar viciado (da sociedade contemporânea) as converteu em “tipos”, “estereótipos”. Marcelino Freire assume o risco de traduzi-las de uma perspectiva interna, modus operandi experimentado (não sem algum constrangimento) por escritores de peso como Graciliano Ramos. A adesão de Marcelino Freire é, contudo, desapaixonada, oposta à perspectiva empática efetuada por João Guimarães Rosa. Adotando a ironia, a contradição, o paradoxo, ele desestabiliza as certezas, inserem singularidade para destroçar a visão pré-concebida. Estigmatizadas pela ordem social, suas personagens humanizam-se pela complexidade de sua paisagem interior. Sua estratégia é o foco narrativo em primeira pessoa, diálogos mais próximos de solilóquios, de monólogos interiores que se alteram para um fluxo de consciência no qual sobressai, pelo não-dito, “personalidades” que ao se contradizerem, revelam-se. O que poderia resultar numa estratégia narrativa de curto alcance, pelo risco de esgotar-se pela repetição (neste sentido, “Maracabul” é dentre todas a mais fraca, pelo curto alcance da configuração psicológica de menino; o mesmo podendo se dizer do discurso de “We speak English”, reduzido à sátira estilisticamente bem construída), resulta, por vezes, em excelentes contos. “I-no-cen-te”, talvez a narrativa mais arriscada do livro, é exemplo da força desta técnica. Sua trama constrói-se sub-repticiamente, por meio de um depoimento no qual o não-dito configura o crime, um discurso que pretensamente busca a conversão do réu em vítima. “I-no-cen-te”, em sua ambígua, irônica, e amoral tecitura, busca a afirmação e comprovação da inocência do criminoso diante da perversidade de sua vítima: “Aí o povo vai comentar: que é coisa pura. Uma nudez de candura. A maldade está no meu olhar. Eu é que não enxergo. Vejo além. Vejo desonesto. Vejo o que não está. Tenho um coração feio, que não se contém. Algo em mim precisa se exorcizar. Miolo mole, que não bate bem” (p.89). Rasif possui um tom mais melancólico e satírico do que as obras anteriores; em parte, por trazer personagens ainda mais isolados, desconfortáveis no lugar onde estão. Trata, igualmente, da perda de um olhar ingênuo sobre o mundo, e de falas soltas, incompreendidas, uma algaravia não-comunicativa. O melhor exemplo é “Chá”, sátira corrosiva que põe à roda da mesa, os imortais da academia de Letras cada vez mais surdos e senis. Entre xícaras de chá e torradinhas, eles discutem o destino da cadeira recentemente vaga de um “imortal” gagá: “(...) Deu derrame. A bolacha. Passa. Ficou caduquinho. Tira a roupa. O quê? Não estou ouvindo. Dizem que fica nuzinho. Nu? Nuzinho. Hum, hum. Deve ficar uma graça. Nuzinho. Só tem osso. De quê? Camomila. Hã? Não ouço. Ca-mo-mi-la. Obrigado. É a vida. (...)” (p. 81). Mesmo abrindo-se ao humor e ao nonsense, Marcelino Freire não arrefece em explicitar, com a ferocidade denunciadora das obras precedentes, que vivemos num mundo mal, atolado em injustiças das mais diversas esferas. Rasif é tudo isso, mas é também um livro de amor, um amor particularíssimo, selvagem, como explicitado no conto-vinheta “Amor cristão”: “Amor é a mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe. Amor que não larga. Na raça. Amor que pesa uma tonelada. Amor que deixa. Como todo grande amor. A sua marca. (...)” (p. 77). O nonsense em Rasif comparece em contos como “Junior”, que traz um bebê que surpreende fascinado o pai com um travesti na cozinha de casa; em “Meu último natal”, apresenta-se apenas no insólito desfecho da narrativa sobre um menino, cujo propósito feroz é assassinar e roubar o Papai Noel. Este nonsense pode chegar a extremos de melancolia, como no beckettiano “Ponto.com.ponto”, que traz um sujeito num banco de praça, à espera (cega e interminável) de um possível amor agendado pela internet. As frases curtas, picotadas (ponto a ponto), procuram traduzir ao leitor esperança, impotência e crescente frustração do protagonista: “(...) O meu peito ziguezagueia. Cada passo da cidade de São Paulo. Sinto. Ela não vem. Depois de tanto tempo. Um, dois, três. Marcamos o encontro. Dentro da tarde, neste terceiro banco. A gente vai ser feliz. Depois de tanto tempo, meu amor. No computador. Marcamos. Este encontro real. (...)” (p. 116). Marcelino Freire esmera-se em tornar mais complexos os enredos de alguns contos de Rasif. “Os atores”, trama que mistura melodrama, suspense e tragédia, ilustra o tema da representação. No conto, um velho ator encena um crime passional. Protagonizando a peça ao lado de seu jovem amante, ele decide substituir a pistola falsa por outra verdadeira, tudo para que o rapaz, o mate diante da platéia. A narrativa inicia com a descrição da cena clímax da peça, seguindo em marcações, rubricas, pontuando intenções: “A última cena é assim: ele tira o revólver da gaveta, dispara à queima-roupa. E eu caio. Como um rei cairia. Ou a Petra. Ou a Phedra. Depois, Leocádio sopra um monólogo sem fim. E chora e ri. As cortinas fecham o espetáculo. E voltamos abraçados para os aplausos” (p. 67). Amalgamando lirismo e crueza (a exemplo do trecho anterior), Marcelino Freire dá vazão em Rasif a um estranho saudosismo da ingenuidade perdida, da infância, de uma natureza não-corrompida, de uma modernidade sem a vertigem do consumo. É o que se lê no diálogo indignado do motorista de “Sinal fechado”: “- A Guerra na Arábia Saudita, na Conchinchina, sei lá. A culpa é do carro. Do combustível. Do petróleo. Do gás. Da gasolina. (...) - Da guerra. Sim, da guerra. Da carnificina. Por que é que eles brigam, meu caro? Por causa do carro. Entendeu? A roda nos fodeu. Antes a gente vivesse no tempo do jumento. Até o jumento virou moto. Não viu? Um dia saiu na televisão” (p. 109). Em Rasif estão ainda presentes as zonas de conflitos dos afetos, os campos minados dos desejos; mas há, pela primeira vez nos enredos, finais felizes, saídas para o amor como se os personagens já pudessem aspirar a um futuro possível, menos torpe. É o caso de “Roupa suja”, em que uma empregada de lavanderia narra a uma amiga suas idas e vindas num terreiro feitas para conquistar o cliente executivo pelo qual se apaixonou. Num tom entre o obsceno e humorístico, a narrativa excede em referências ao universo do trabalho da narradora: “(...) Cheiroso, nem olhou para o meu alvoroço. Nem sequer um pensamento. Leve. Ele, dentro de uma bolha. Eu, tão rastejante. Nada, a partir daquela manhã, foi a mesma coisa. (...) Amor, Maria, amor./Sabe o que é isso?/Fragrância de flor. (...)” (p.57). Apaixonado pela sonoridade das palavras, o autor joga com som e sentido para enredar significados e efeitos novos na expressão. Isto faz com que por vezes, a trama seja o próprio discurso, tornando ainda mais difícil a classificação “contos” para textos como “Para Iemanjá”, “We speak English”, “Amor cristão” e “O futuro que me espera”. Estes funcionariam, à maneira de um álbum musical, como vinhetas para introdução de novos temas, outros andamentos. Isto por que Marcelino Freire deixa circular (cirandar) com rigor, elementos que unificam tematicamente Rasif e fazem ressoar um conto no outro: “Mamãe, este ano eu fui um bom menino, mas ano que vem eu quero ficar rico. Ter um carro-forte, um carro do ano. /Juro que não estou brincando”. (“Maracabul”, p. 43), “Aí o Leco resolveu matar o Papai Noel. De verdade. Dar uma pedrada na cabeça dele assim que ele chegasse. Não pela chaminé, que não havia. Pela janela do barraco.(...)” (“Meu último Natal”, p. 45). Contraditoriamente, faz uso do “lugar-comum”, de personagens estigmatizados, marginais que põe em primeiro plano e que, ao se expressarem, singularizam-se, ganhando em complexidade psicológica. Humaniza-os, assim, sem escamotear suas falhas de caráter, seus desvios morais, suas obsessões sexuais. Sua perspectiva é interna (daí o uso freqüente da primeira-pessoa), não-distanciada. Não se trata, porém, de uma adesão amorosa (à maneira de um Guimarães Rosa), tampouco amoral (sem julgamento explícito, como num Rubem Fonseca). Eles expressam e em seu próprio discurso explicitam ambiguamente suas contradições. Como o desfecho em que paisagens, nomes, paladares (termos predominantemente indígenas) fecham o livro com uma declaração de amor a Pernambuco, ao sertão, ao Brasil sem dor. Neste desfecho, há ecos de poemas do poeta Manuel Bandeira (cujos versos fecham o livro), textualmente citado no conto “Amigo do rei”, narrativa de um garoto cuja amor pela poesia faz aflorar o horror homofóbico do pai: “(...)Um pesadelo! Eu mato esse menino. Ah! Se mato. Que desgraça! Ele e esse tal de Manuel Bandeira. Suados e abraçados, em campo. (...)”(p. 98) Rasif retoma o tom poético em seu desfecho com “O futuro que me espera”, aspiração que soçobra os desencantos com a cidade grande, dissolve angústias, acena para uma felicidade futura resgatada do passado (interiorano?) quando a paz não se fazia reles discurso: “Saudades de tantas coisas. Que eu costurei a mala, levantei as paredes da caixa. Disse olhando os prédios de São Paulo. E a fumaça. Vou-me embora agora mesmo, de hoje não passa. Aqui nunca foi a minha terra”. (p. 123) Completando este salto, estão as ilustrações de Manu Maltez, gravuras em água forte que não ilustram os contos, mas que traduzem a fluidez do traçado desconcertante do artista, com figuras que oscilam num premente movimento, alterando-se de figuras humanas clássicas a animais e formas grotescas: impuros seres convertidos em mãos, feras míticas, aves que se convertem em onda, como a que ilustra a capa. Fortes águas, vozes de arrebentação. Rasif traz narrativas e formas que não se contém quietas, que precisam saltar, ganhar espaço no mundo. Rudes e acérrimos, subversivos, bailarinos, radicalmente negros (na contra-corrente da literatura noir), os contos de Marcelino Freire em Rasif, mar que arrebenta não se prestam ao limite do papel. Assentam mal, parecem não pertencer à classe da literatura que se imprime impunemente em nossos dias. Inquietantes, vertem sangue, dançam, batucam, aspiram o trânsito, o salto para fora do objeto-livro que os contêm. Por isso mesmo, faz-se válida a afirmação do autor de que seus contos são para serem lidos em voz alta. Acatemos essa voz, cantemos e cirandemos, sem pudor, nas águas fortes de Rasif" (fotos: capa do livro, Marcelino Freire, o autor e Manu Maltez, o ilustrador). Marcelino Freire nasceu em 20 de março de 1967 na cidade de Sertânia, Sertão de Pernambuco. Vive em São Paulo desde 1991. É autor de EraOdito (Aforismos, 2ª edição, 2002), Angu de Sangue (Contos, 2000), BaléRalé (Contos, 2003) publicados pela Ateliê Editorial, e Contos Negreiros (Contos, 2005) pela Record, livro que venceu o prêmio Jabuti. Em 2002, idealizou e editou a Coleção 5 Minutinhos, inaugurando com ela o selo eraOdito editOra. É um dos editores da PS:SP, revista de prosa lançada em maio de 2003, e um dos contistas em destaque nas antologias Geração 90 (2001) e Os Transgressores (2003), publicadas pela Boitempo.
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