Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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11 de abr de 2013

Cavalo das alegrias



Por Cidinha da Silva

Belo Horizonte amanheceu triste. O cavalo das alegrias foi trotar em outras montanhas. Junto das Pretas Velhas que o iluminavam desde Pirapora, das barrancas do São Francisco, rio de carranca nos barcos para espaventar espírito ruim das águas. 

Sem dons divinatórios, tampouco a ajuda de um oráculo, arrisco-me a dizer que Marku Ribas era de Exu, senhor de todos os começos. Pareado por Iansã e Xangô, e a tenacidade de Obaluaê, talvez, aquele que insistiu em viver.  Difícil intuir dele a regência do Ori, tamanha a convergência de forças da natureza representada por sua presença de magma e de liberdade.

Doce como um beija-flor para brincar com a voz e nos fazer suingar mesmo que amarrados. Intenso como a trilha sonora exatinha para namoros calhentes e deslizantes. Forte e assustador (atraente) como uma carranca para dizer coisas  inusitadas e de esguelha às vezes, como retirar de Milton a coroa da voz de Minas e deixar interdito, para quem quisesse entender, que ele, Marku, era a voz das Gerais. E o músico criativo e intempestivo, por anterioridade e posto, tinha autoridade para dizê-lo, afinal, Minas são muitas. Não foi o que disse o Rosa? Ou terá sido Drummond? Mas o canto de Milton é a voz de Deus. É a voz de Minas. É  a minha voz. Ponto final.

Esse pessoal que ouve Roberto Carlos como aquecimento para uma noite de amor, precisa conhecer Marku Ribas. Não há kundaline que durma sossegada quando ele canta. Ele acorda a libido do mortal mais inerte. 

A primeira vez que o vi presencialmente me traumatizou. Faz mais de 20 anos, na UFMG. Creio que ele voltava da Europa e fixava residência em BH. Aceitou convite para fazer uma pequena apresentação em evento promovido por um grupo de estudantes negros (lembra, Adélcio?). O cachê era ridículo, o som impronunciável de tão ruim e ele um artista magnífico, que entre outras façanhas tocara com o Rolling Stones. Marku ficou tão injuriado com a péssima qualidade de tudo, que, depois de criticar as pobres promotoras da coisa e um ingênuo grupo de Rap que também se apresentou, antes dele, por suposto, rejeitou o microfone e tocou a capela.

Depois passei anos vendo-o pela TV, até que fui assisti-lo no Sesc Pompeia, em São Paulo, numa participação em show de uma banda de mulheres. Ele arrasou, junto com o querido Rubi, antítese dele, de energia mais convergente, pelo menos naquilo que um rio converge. Menino suave. De Oxum. De Logun.

Marku passou por mim e outras pessoas que aguardavam a apresentação. Carregava um cabide com a roupa do show e nos cumprimentou. A nós, pretas parecidas com tantas outras que o admiravam mundo afora, ele mirou como velhas conhecidas. Brincou conosco, perguntou se íamos assistir a banda. Íamos. Ele então nos disse com um olhar de céu e mar, que seria muito bom estarmos juntos.

No Brasil, alguns o comparam a All Jarreau, não sei. Fã e seguidora que sou deste mago do instrumento- voz,  penso que Marku é ainda maior, porque tem uma composição singular, cujo exercício de aprimoramento exigiu-lhe toda a vida. Para mim, sua música é irretocável, não digo o mesmo das letras, principalmente pela forma estereotipada como apresenta as mulheres, isso me incomoda.

Artistas imensos como Ricardo Aleixo, Rui Moreira, Paulinho Pedra Azul, Grace Passô, Maurício Tizumba,  Gilvan de Oliveira, Leda Martins, Titane, Gonzaquinha, que não sendo mineiro como também não o é o inventor da Será Quê, escolheu viver em BH, antes do acidente trágico. Esses artistas saem das alterosas, bebem as águas do mundo de fora e voltam revigorados para Belo Horizonte, nascente de onde fluem para o mundo. Eu os admiro demais. Eles têm uma coragem e um amor a este pedaço de Minas que nunca consegui desenvolver, talvez por isso, porque amor e coragem não são matéria para tentativas, quando chega a hora de vir, brotam. Marku Ribas também era como os grandes, amava Belo Horizonte.

No Aiê, Cavalo das Alegrias, nós guardamos silêncio para escutá-lo, enquanto por aí, as as avós Maria Conga e Curtinha, no mesmo silêncio nosso, preparam o palco para a folia do cantador.
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