Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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9 de abr de 2013

Nota sobre Feliciano como presidente da CDHC




por Cidinha da Silva

O tempo e a movimentação da notícia na Internet são vorazes e dilacerantes. E ninguém quer ser engolido. Todos os que navegam pelo cyberespaço tentam emitir uma opinião original, autoral, sobre o tema da página de rosto naquele minuto, naquele segundo. Na pressão de dizer qualquer coisa, muita gente se perde e transforma coisas de fundo em questões pontuais e vice-versa.

Face à avalanche de notícias sobre Marco Feliciano, deputado sabidamente racista, homofóbico e misógino, eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados (CDHC), apareceram pessoas dizendo que o movimento Fora Feliciano transformou um quase nada em pop star. Típica compreensão de quem troca uma questão de fundo por algo superficial, de quem tem necessidade de oferecer uma opinião divergente com o objetivo de conquistar algum espaço ou seguidores.

Uma coisa é a percepção de que o mar da Web tem ondas e tem um pessoal que só se movimenta na crista. Se quem está no topo das demonstrações homofóbicas é Cláudia Leite, com o filho que não será gay porque será bem educado, vamos a ela. Se é Joelma afirmando que os gays podem ser recuperados tal qual os dependentes químicos, a ela. Se é Feliciano com seu vasto leque de imbecilidades perigosíssimas, a ele. Faz-se muita espuma e pronto. Com as denúncias de racismo, de violência contra a mulher e outras, também ocorre o mesmo. Mas mesmo esse movimento sazonal tem valor, é bom considerar, pois é sinal de que alguma movimentação acontece na terra, para além do burburinho do mundo da fofoca e das celebridades.

Outra coisa é compreender os movimentos internos do mar provocadores das ondas, aquilo que acontece antes da produção da espuma. Os níveis profundos da água que mantêm-se intactos à ação de um tsunami.

O movimento pela queda de Feliciano abriga questões de fundo, a saber:

1 – Escancara os acordos espúrios dos partidos políticos em busca de poder no Congresso e as estratégias condenáveis para sustentá-lo a qualquer custo (partidos de esquerda preferiram comissões mais importantes e relegaram a de direitos humanos ao PSC, que, por sua vez, indicou Feliciano para presidi-la).

2 – Traz a público para muita gente boa que vive no país de Alice, a crueza, a tacanhice e o perigo do processo de lobotomia e especulação financeira, dentre outros males, que gente como Feliciano realiza com pessoas que a gente boa considera desprezíveis e descartáveis na sociedade de consumidores, celebridades e gente “pensante”.

3 – Coloca nas primeiras páginas dos jornais o projeto político em curso de teocratização do Estado e exploração da fragilidade humana por meio da construção de uma fé que alicia pessoas pouco críticas e muito desesperadas, desesperançadas.

4 – Possibilita o debate agregado de temas como homofobia, racismo, misoginia, laicidade do Estado, mostrando sua operacionalidade conjunta em detrimento de direitos humanos e de cidadania, e em benefício da perpetuação do escárnio virulento à diversidade humana.

5 – Abre espaço para que os setores progressistas e pró-diversidade do segmento evangélico manifestem-se com um não rotundo ao atraso e à canalhice representados por Feliciano.

6 – Abre o debate público sobre a atuação da bancada evangélica, a mais ausente, inexpressiva e processada. Todos (a transparência Brasil disse TODOS) os deputados que a compõem respondem a processos judiciais. 95% deles figuram na lista dos mais faltosos às sessões de trabalho. Registre-se que na última década não houve um só projeto de expressão, ou capaz de mudar a realidade do país, encabeçado por um parlamentar evangélico.

7 – Um deputado que pede a um fiel de sua igreja a senha do cartão eletrônico para debitar diretamente o dízimo, para quem não existe necessidade de uma lei punitiva para as práticas homofóbicas, pois, nesse diapasão, precisaríamos também de leis para punir a discriminação ao “caolho” e ao “banguelo” (expressões usadas por ele), não pode presidir uma pasta de direitos humanos, porque sua prática e discurso contradizem a essência mesma do que sejam direitos humanos. É um acinte aos direitos humanos admitir que o presidente da comissão parlamentar dedicada ao tema ignore um assassinato de pessoa LGBT a cada 26 horas no Brasil.

É em nome disso e muito mais que a sociedade civil se levantou contra esse sujeito. Contra tudo de autoritário, retrógado e desumano encarnado por sua figura rastaquera. Portanto, não se trata de promover um Zé ninguém a pop star, como os marinheiros de primária viagem têm dito por aí.

O movimento Fora Feliciano (composto por diversas motivações e personalidades, como todo movimento social) é uma reação libertadora, autoral e saudável ao risco nefasto de sucumbirmos como seres humanos ao aceitar, calados e impassíveis, a presença dessa besta do atraso na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, como simples sub-produto de um jogo político sujo.
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