Bate-papo na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, dia 14 de maio de 2017

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20 de abr de 2017

A volta dos que não foram


Por Cidinha da Silva

Triste e constrangedor foi o breve discurso da desembargadora Luislinda Valois em cerimônia administrativa do desgoverno Temer, na qual alçou o usurpador ao posto de “padrinho das mulheres negras”. Se falasse apenas por si seria lamentável,  mas ela o fez em nome das mulheres negras mães e avós. Isso foi inaceitável e mereceu respostas contundentes.

Não conheço a desembargadora pessoalmente, nunca estivemos cara a cara. Conversamos uma vez, por e-mail, quando a procurei para apresentar a plataforma de minha candidata à Ouvidoria da Defensoria Pública do Estado da Bahia e para pedir seu apoio. A resposta foi solícita. Declarou que conhecia Vilma Reis e a apoiava desde o primeiro momento. Escrevi um pequeno depoimento a partir da conversa e submeti-o a ela para aprovação. Estava tudo certo, menos seu título honorífico, eu a chamei de juíza. Luislinda me corrigiu de maneira muito gentil e serena, era desembargadora. Desculpei-me, ela aceitou as desculpas e publicizamos sua adesão à campanha.  

Conto isso para dizer que não tenho qualquer senão à Senhora Luislinda por ser do PSDB. Quando a procurei para compor uma lista de suporte supra-partidário à candidata à Ouvidoria da DPE-BA foi por sabê-la mulher negra de luta, acima de qualquer sigla. Pela consciência de que pertencemos à mesma comunidade de destino e de que era importante seu aceno àquela mulher negra candidata.

Penso que do ponto de vista pessoal, a desembargadora (não a chamarei de ministra porque não reconheço o governo ilegítimo) pode afirmar qualquer coisa, pode ser grata por qualquer coisa, são questões íntimas. Portanto, sem qualquer objeção, pode afirmar-se identitariamente como “preta, pobre, da periferia, candomblecista, divorciada e sem padrinho (antigamente), mas agora apadrinhada por Temer”. A condição de afilhada do ilegítimo é uma opção legítima, mas questionável.

Assumir-se publicamente apadrinhada pelo usurpador da Presidência da República, orgulhando-se disso, é algo retrógrado, porém, aceitável, compreensível dado o perfil político da desembargadora e certa característica geracional, como bem discutiu o jornalista Marcos Romão em artigo recente. Assumo a responsabilidade sobre a grave afirmação, pois, muitas mulheres negras da geração da senhora Luislinda se fizeram na vida sem padrinhos e, se tivessem um, não gostariam que fosse Temer.

Talvez, por trás da louvada “coragem e galhardia” de Temer (PMDB) ao convidá-la para ocupar um ministério do governo golpista, levando-a aos prantos, exista uma crítica aos governantes anteriores que não a reconheceram, não a convidaram para postos à sua altura; gente de sua própria sigla partidária (PSDB) no estado natal (BA) e no governo federal. Foi Temer, seu padrinho, quem a convidou. E só mesmo uma mulher muito agradecida poderia detectar um “coração grandioso” naquele peito decorativo.

De toda sorte, não podemos culpá-la. Do ponto de vista pessoal a desembargadora pode afirmar qualquer coisa, em que pese entendermos o funcionamento do racismo que conduz muitas pessoas negras a aceitarem a subserviência como estratégia de ascensão social e de “reconhecimento” de trajetórias. Contudo, ela não pode entregar a Temer o título de padrinho das mulheres negras em nome delas. Em nosso nome. Contra isso se insurgiram organizações representativas das mulheres negras como a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras - AMNB e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas – CONAQ, entre outras. Também levantaram a voz mulheres negras pertencentes a coletivos e outras sem vínculo institucional. Todas enojadas com o servilismo da declaração.

Se migrarmos do campo da política para a arte, talvez fique mais fácil entender porque o apadrinhamento nos causa tanta repulsa. No episódio de reação e resistência ativa ao morfético seriado O sexo e as nega, de Miguel Falabella, da rede patrocinadora e mantenedora do golpe de 2016, três artistas negros me escreveram na intenção de me demover da decodificação do racismo explícito do programa de entretenimento.  Em linhas gerais, os colegas argumentavam que eu não sabia como a Globo funcionava por dentro e era necessário jogar o jogo com as cartas da emissora. Falabella era um aliado (um padrinho, se quiserem) incompreendido, e, se o deixássemos trabalhar, ele abriria portas nunca antes abertas para os artistas negros na TV.

Inexistia ingenuidade na posição dos colegas. Tratava-se de posicionamento político, discutido, ponderado, público como o da desembargadora e, como tal, criticável. Não esperem condescendência por tratar-se de uma mãe a avó septuagenária. Tratamos de política, agimos politicamente.

Para garantir seus interesses, defensores de Falabella criaram um grupo virtual no afã de discutir ações de reforço a ele e para desfazer o que acreditavam serem equívocos do Movimento Negro e de outras pessoas, intelectuais, artistas, etc, que atacavam o seriado (ou se defendiam dele, como penso). Pois, de maneira desavisada ou mal intencionada, já que eu pertencia ao outro campo e isso era público, alguém me inscreveu nesse grupo e só por isso soube de sua existência, pois era fechado. Considero possível a má fé do ato, pois havia pressões de todos os lados pela solidariedade pública ao padrinho – sabemos que dentro da emissora, atrizes e atores negros importantes eram diariamente emparedados a se posicionar em favor do autor do seriado. Pobre da raia miúda que poderia se beneficiar de papeis criados por ele. E talvez alguém que tivesse querido, mas não tenha podido resistir à pressão tenha se vingado ao tentar me infiltrar no grupo.

Pois bem, como a política tem lados e deve ter ética, imediatamente comuniquei ao grupo que, por engano, alguém havia me adicionado e, como era de conhecimento público, eu pertencia a outro campo de artistas, contrário à execução do seriado por considerá-lo racista, e por isso achava que deveriam me excluir do grupo, sob pena de minha permanência permitir que eu tivesse acesso a informações privilegiadas que não me diziam respeito. Devem ter concordado comigo, pois me excluíram. Por que fiz isso? Por que não quis espioná-los? Porque não pratico a espionagem como tática política. Porque eles eram meus iguais e embora estivéssemos em campos opostos, não éramos inimigos.

O mesmo acontece com a leitura crítica do discurso da desembargadora Luislinda. Somos iguais, estamos em campos opostos e ela será criticada com a dureza necessária. É certo que ela pode pavimentar o caminho discursivo mais confortável de agrado ao chefe. É um direito. Pode ser uma tática do jogo. Mas não pode dizer que as mulheres negras lhe concederam mandato para transformar Temer em padrinho. Vamos ao debate. Construiremos nossos argumentos daqui e ela que sustente os dela de lá.

Temer não é e nunca poderia ser padrinho das marisqueiras atingidas pelo corte do Defeso, conquista social que lhes garantia rendimento nos períodos em que é proibida a pesca e o recolhimento de crustáceos, com o objetivo de assegurar-lhes condições saudáveis de reprodução. Tampouco das mulheres negras das ocupações nos centros urbanos, antes atendidas pelo programa Minha Casa Minha Vida na modalidade Entidades que permitia que famílias organizadas de forma associativa (cooperativas e associações, por exemplo), produzissem suas unidades habitacionais. Ainda, não é e nuca será padrinho das quilombolas, cuja demarcação e titularização de terras foi travada; das usuárias das extintas farmácias populares que ofereciam descontos de 40% na aquisição de medicamentos; de todas as gerações de mulheres negras vitimadas pelo congelamento dos recursos destinados à saúde e educação por vinte anos.

Temer não é e nunca poderia ser padrinho das mulheres negras prejudicadas em sua primeira semana de desgoverno quando cortou milhares de bolsas de manutenção de estudantes cotistas por todo o país; das negras incluídas entre os 93 mil estudantes de graduação e pós-graduação que tiveram estudos interrompidos pelo corte abrupto do programa Ciência sem Fronteiras; das outras milhares atendidas pelo extinto Programa Nacional de Combate ao Analfabetismo; das que foram atingidas pela redução dos repasses do FIES e do Prouni; das que não poderão se inscrever no ENEN dada a majoração exorbitante do valor da taxa de inscrição numa economia devastada em que as pessoas passam a economizar centavos; daquelas que ainda não sabem como serão tratadas conquistas como a Lei 10.639/2003 na Base Nacional Comum do Ensino Médio. 


Eu me pergunto que “coração grandioso e cheio de carinho” é esse do usurpador? Mas, numa coisa concordo com a desembargadora, a caneta de Temer deve ter sim, prazer imenso em assinar todos esses desmandos. 
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