Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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17 de abr de 2017

Primeiro ano do golpe parlamentar

17 de abril de 2017, primeiro aniversário do golpe que derrubou a presidenta eleita Dilma Rousseff sem crime de responsabilidade. Naquele dia terrível, antes da votação comprada na Câmara dos Deputados publiquei o texto abaixo que hoje integra o livro #Paremdenosmatar!




Teve baile de favela em Copacabana com milhares de Silvas contra o golpe

 Por Cidinha da Silva


A favela desceu no dia 17 de abril para tomar a orla de Copacabana pela manutenção da democracia, sob convocação da Furacão 2000 e, de modo indireto, pela frente formada por Yzalú, Luana Hansen, Flora Matos, Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop, Flávio Renegado, Eduardo e Mano Brow, entre outros ícones da música que a juventude negra curte.

Rap e funk estiveram juntos para colocar a voz da juventude negra e periférica em evidência na cena da luta por democracia e respeito à Constituição no Brasil, por meio da presença de 50 mil pessoas, segundo os organizadores.
Na concentração no Posto 3 ecoavam músicas dos anos 1980, aquelas que falavam de amor. Do amor romântico, direito negado aos Silva das favelas que pegam trem lotado, trabalham e são criticados por serem funkeiros. Os que não podem amar a rainha do baile pela vida inteira porque serão mortos ainda jovens.
Mas o funk, como canta Bob Rum, no Rap do Silva, “não é modismo / é uma necessidade / é pra calar os gemidos que existem nessa cidade”.
Na nossa interpretação, a letra se refere aos gemidos das comunidades feridas em direitos humanos básicos, que embora expurgadas dos limites da urbe, também fazem parte da cidade.
Moradores do Pavão-Pavãozinho, Cantagalo, Cruzada, Vila Kennedy, Rocinha, Vidigal, Chapéu Mangueira, Babilônia, Vila Aliança, Santa Marta. Também do Complexo do Alemão, da Maré, dos morros de Santa Teresa  e da Baixada Fluminense.
No primeiro discurso da manifestação, uma liderança comunitária deu o tom. Ali se ouviria “o grito da cultura negra, o grito do funk”. Ali se veria a cara preta da juventude. Da “juventude negra funkeira  que hoje é também juventude universitária” e, segundo o discurso,” é isso (a ascensão dos negros)  o que eles (os golpistas) não querem”.
Várias letras de funk foram alteradas para contemplar a situação nacional, por exemplo, “qual a diferença entre o Charme e o Funk / o Funk (a Dilma) anda bonito / o Charme (o Lula) elegante”.
Essa letra, para quem não acompanha o movimento funkeiro, alude a supostas diferenças entre o Charme (ritmo mais lento e romântico) e Funk, mais forte e pegador.
Na interpretação política da moçada que sabe a força política de Lula junto ao povo, era a hora de aproximá-lo de Dilma para fortalecê-la, ou seja, de afirmar que não há diferenças significativas entre ambos.
Seguiram-se discursos que pontuaram a realidade das favelas, vivida pela maioria das pessoas presentes: “eu nunca vi bala perdida em área nobre”.
Não podiam faltar também o humor e a ironia: “O Cunha vai ganhar uma passagem pra sair desse lugar / não é de trem / nem de metrô / nem de avião / é algemado no camburão / eta Cunha ladrão!”
Gostaríamos ainda de destacar três aspectos: primeiro, a participação de muita gente do asfalto sob a liderança da favela, respaldando o discurso racial politizado que o Funk vocalizou neste momento.
Segundo, a participação dos partidos políticos de esquerda (PT, PCdoB, PCO, PSOL), centrais e associações importantes como CUT, CTB (Central dos Trabalhadores Brasileiros), MST, Movimento Negro, AMB (Associação de Mulheres Brasileiras), FAFERJ (Federação das Favelas do Rio de Janeiro), novamente, lideradas pelo funk.
Isso pode indicar alguma mudança no sentido de ampliação da escuta e abertura de diálogo para compreensão e abraço às demandas dessas pessoas e suas comunidades.
Terceiro, à medida que a manifestação era transmitida pela Web, observamos também o debate travado entre as pessoas inscritas para acompanhar o evento. E ali ficou explícito, mais uma vez, o espírito atormentado da casa-grande.
Várias pessoas, escondidas em codinomes, além das ofensas de praxe, misóginas e machistas à Dilma, além de elitistas, LGBTfóbicas e racistas aos manifestantes anti-golpe, expressaram seu ódio em frases como: “saiam daqui, eu comprei essa praia”; “vocês não merecem ser estuprados” e “urna eletrônica é fraude”. Raciocínio profundo de batedores de frigideiras.
Chegaram ao absurdo de defender Eduardo Cunha, com afirmações como “eles (os petistas) estão putinhos porque o Cunha está tirando a Dilma. Cunha neles”.  São mesmo muito tacanhos e querem recuperar anéis perdidos.
Durante meia hora, a transmissão caiu. Houve manifestação bem humorada em resposta, teria sido por ação da CIA; mas houve também reação racista e classista, “a favela roubou a câmera”, “teve arrastão e roubaram a câmera”.
Noutro momento, um professor, representante da rede estadual de ensino, em greve ignorada  pelo governo do Estado e pela mídia hegemônica há 30 dias, denunciou a situação e conclamou a população a apoiá-los, bem como aos estudantes que, a exemplo de São Paulo e Goiânia, ocupam escolas públicas pela melhoria das condições de ensino-aprendizagem.
A reação de um analfabeto político foi imediata: “Reclama com o Lula que é defensor dos pobres, né companheiro”?
Trata-se de professores estaduais em greve. Escolas ocupadas pela resistência de estudantes no Rio de Janeiro. Em que um ex-presidente poderia  interferir  para resolver o problema?
Por fim, todo mundo se mexeu, enquanto participava da manifestação ou enquanto a assistia de casa porque o que vimos foi “som de preto / de favelado”, ou seja, música dançante e discriminada por conta dos sujeitos que a vocalizam,  que “quando toca / ninguém fica parado”.
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