Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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1 de mai de 2008

Sobre o novo romance de Fátima Oliveira

"Gosto de "cismar". Ou seja, de pensar insistentemente nas coisas... Uma das reflexões filosóficas que mais me instiga é sobre o viver, o tocar a vida, o caminhar e o estar indo... Sobretudo fascina-me que cada momento é único e jamais acontecerá outra vez. Tenho a pachorra de vivenciar cada fato, cada momento, de absorver e ficar embevecida com a singularidade de cada um. Podem ser alegrias, mas também tristezas. Questões pertinentes ao usufruto da vida exercem magia sobre mim. Então decidi que era chegada a hora de escrever um romance que enfatizasse a concepção filosófica de que a vida é travessia. Mas que exibisse também minhas raízes e vivências sertanejas. Durante um ano e seis meses pensando, especulando e conjecturando, escrevi "Reencontros na Travessia: a tradição das carpideiras" (no prelo da Mazza Edições). Aprendi muito. Nele conto histórias de amores, ancorada na vida da tia Lali, uma carpideira sertaneja. O vocábulo carpideira é derivado do verbo carpir, do latim carpere (arrancar cabelos e barbas em sinal de dor). As carpideiras portam o dom de carpir, presente na cultura de diferentes povos, em todo o mundo, pois carpir é um ritual antiqüíssimo de encomendar o corpo de quem morreu para que sua alma ascenda aos céus. É um rito de passagem do mundo terreno para a eternidade. Não é encenação e nem choro falso. Ser carpideira é um dom, o de chorar e cantar "incelências" em deferência a quem morreu, pois a morte para as carpideiras também integra a visão filosófica de que sendo a vida uma travessia, ela também é parte da travessia, pois viver é sempre um estar indo... Sou uma eterna apaixonada pelo sertão. A minha paixão pelo sertão permite que o sertão viva em mim. E eu o carrego, sempre. Onde estou, está o sertão. "Reencontros...", de algum modo é uma ode ao sertão, pois é ambientado em Grotões dos Bezerras - cidade imaginária, que pode ser qualquer lugar no sertão - com sua gente simples, seus sistemas de moralidades, baseados na lei da reciprocidade; suas parteiras; suas fés que se agigantam no romance, provocando alumbramento através das benzedeiras, rezadeiras, tiradeiras de benditos e de ladainha em latim, e também cantadeiras de "incelências"; e suas festas memoráveis, onde a comida faz parte dos rituais festivos. Sem falar que a "comida do sertão" encerra um patrimônio cultural de valor incomensurável, com suas receitas seculares, as do cotidiano e as de festas - as chamadas refeições fidalgas, de banquetes. Ao contar a história do amor de Cacá e Pablo, sinto que "tirei" um bendito, cantei uma "incelência", enfim imaginei uma deferência às "mulheres rosianas" do mundo - mulheres sábias que reconhecem os meandros das "neblinas de Siruiz". AQUELE QUE "ORA É PARTICULAR, PEQUENO E PRÓXIMO; ORA UNIVERSAL E INFINITO, POIS O SERTÃO É O MUNDO". OU, MELHOR, "O SERTÃO É DENTRO DA GENTE." Se "alembre", isto é o sertão! Saiba: no sertão é assim. A minha paixão pelo sertão, esse "desertão" que vive em meu peito, que conforta e acaricia o meu viver - que no dizer de rosiólogos "é uma paisagem mental. É o pensamento sobre o Brasil. O sertão, aquela região selvagem onde se formam as nossas idéias", pariu "Reencontros...", que ofereci à minha neta Luana e ao meu neto Lucas, pelo amor que lhes tenho, mas também como um tipo de penitência diante das reclamações deles que "a vovó gosta muito de ficar no computador..." Eu lhes prometo que nunca mais me disputarão com nenhum livro, pois sinto que "Reencontros..." é o livro que sonhei escrever. É o meu legado de fragmentos da memória cultural da gente simples e do cantar dos grilos do sertão, que eu desejo que um dia vocês aprendam a amar". (Publicado originalmente em O TEMPO, BH, MG, em 22.04.2008; retirado so sítio do poeta Lima Coelho: www.limacoelho.jor.br) Sobre “Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras” Organizado por Mariana Rodrigues . “Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras” é um livro muito esperado por quem lê Fátima Oliveira, sobretudo por quem leu o belíssimo "A hora do angelus" (Mazza Edições, 2005) e ficou fã da autora como romancista. Tive o cuidado de pesquisar nos arquivos que tenho das crônicas dela em quantas ocasiões ela se referiu às carpideiras ou sobre o livro que estava escrevendo. Vejam abaixo: I. Você está trabalhando em algo novo? Vem aí um novo livro? Fátima Oliveira - estou sempre trabalhando em algo novo, inédito. Sou uma pessoa intelectualmente muito inquieta, desde sempre. Tenho prazer em pensar. Estou em fase de finalização de um novo romance, cujo nome provisório é Reencontros na Travessia. Será publicado pela Mazza Edições. Sairá ainda em 2007, porém não sei quando. Fase de finalização necessariamente não significa que o livro esteja quase pronto. Pode estar ou não. Estruturalmente, ou seja, o enredo, está pronto. Mas romance é muito difícil de a gente dizer: finalizado. Por exemplo, há uma personagem que estou achando inacabada. Sinto desejo e necessidade de burilá-la um pouco mais, torná-la mais radiante, embora ela seja encantadora. Enfim, no momento estou às turras com uma personagem importante do livro. Estou numa fase de burilá-la. Temos brigado muito. É que às vezes, em muitas passagens, ela rompe com a minha moralidade. Ultrapassa todos os limites do que vejo como aceitável nos relacionamentos afetivos. Deleto. Reescrevo. Mas ela é rebelde. Exibida. Tem uma personalidade forte e nem se preocupa em deixar o mundo se danar. Bem mais que eu. Então, deleto outra vez... Reescrevo. Uma rinha. Vamos ver quanto tempo essa peleja vai durar. Disso depende a finalização do livro. Mas a tendência é eu me render à personagem. Ela é fascinante. Ambas, escritora e personagem, são cheias de razão. Mas a tendência é ela ganhar. Mas a história gira em torno de quê? Fátima Oliveira - De estados de paixão. De amores ensandecidos e seus lances inusitados de doce erotismo, em um contexto de patriarcado, tendo como ponto de partida a recuperação da história das mulheres carpideiras – as cantoras de “incelências”, que choram o defunto alheio, mediante pagamento ou apenas por solidariedade. A carpideira – mulher paga para chorar nas sentinelas (funerais), é uma profissão que remonta ao antigo Egito. O ritual das carpideiras é parte também da cultura dos escravos e dos índios brasileiros. Ainda é muito presente nas comunidades suburbanas e rurais nordestinas. Mas o meu romance, Reencontros na Travessia, tem como eixo amores que acontecem e histórias de vida que cursam num contexto que mescla modernidade com um mundo considerado culturalmente feudal e patriarcal. É uma linda história. Espero conseguir contá-la bem". (Extraída de O feminismo é uma expressão de tomada de consciência Entrevista de Fátima Oliveira: Exlusiva para o Portal Mhário Lincoln do Brasil, em 1º. De janeiro de 2007. Extraído de: www.mhariolincoln.jor.br )
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