Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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8 de mai de 2008

Herança africana nos fragmentos do Diário Íntimo de Lima Barreto

“O diário íntimo”, informalmente, é dividido em duas partes. A primeira, à qual corresponde a descrição feita no primeiro texto desta tríade, é confessional e se atém a relatos dos dissabores cotidianos de Lima Barreto. A segunda, desconfio, é pura criação literária, a partir de fatos também corriqueiros da vida do autor. Os assuntos são abordados em tópicos, a saber: herança africana; apontamentos de história ( apontamentos de Lima Barreto sobre o Reinado de D. João VI, tendo em vista a participação em um concurso de memórias promovido pelo Instituto Histórico); Rio de Janeiro; Vida intelectual; Aforismos; Da hipocrisia; Profecia; Amor e Futebol. São textos curtos, com níveis elevados de fina ironia e crítica social, têm muito humor também, neles, Lima Barreto consegue rir de si mesmo. Parece que o escritor se revela e transcende o relato em favor da literatura. Escolhi um trecho de “Herança africana” para postar aqui: “Hoje, dia quente, cheguei um tanto mais tarde na secretaria. À minha banca, veio-me falar o Major Vital. Esse major é um pretinho, fula, magrinho, de crânio deprimido, olhos quase à superfície da fisionomia, pele de sapato velho que nunca foi engraxado. Esse pretinho usava farda de major honorário, e, tendo estado no Paraguai, obtivera umas honras militares. Depois, com sucessivos acontecimentos, as honras foram aumentando e, um belo dia, surge um, em Pernambuco, de igual nome, branco, que também tinha estado na campanha. Papéis pra lá, papéis pra cá, o branco foi considerado como sendo o que de direito. O major foi despedido de servente do Arsenal de Guerra, excluído do asilo, ficou na miséria. Vou-lhe dar algumas roupas velhas e uns cobres. Não tenho absolutamente convicção de que seja ele o verdadeiro major, nem tampouco que não é o outro ou um terceiro; entretanto, julgo que a ele competiam as honras; pobre e obscuro, ele precisava qualquer coisa para disfarçar isso, e ainda mais negro... Por falar nisso, o Belo, primeiro oficial, que foi do gabinete do Benjamim, contou-me que a nomeação do Hemetério (é um negro), para Professor do Colégio Militar, foi sustada na gaveta por ordem do Lauro Sodré, que sempre lhe recomendava, ao ele ir lhe pedir para expedir, que esperasse, que esperasse. É singular que, fazendo eles a República, ela não a fosse de tal forma liberal, que pudesse dar um lugar de professor a um negro. É singular essa República” (p.28 e 29; 10/01/1905). A título de curiosidade e regozijo egóico, informo ao ilustre visitante deste blogue que sou amiga de uma Hemetério, bisneta daquele senhor citado pelo Lima Barreto. Sim, ele existiu e, segundo Heliana (é com H mesmo), a parenta, o bisavô, que tempos mais tarde conseguiria a nomeação, seria amado e reverenciado pelos estudantes e secretaria de educação, a ponto de se tornar nome de escola no Rio de Janeiro, era danado. Filho de ex-escravizados, tinha o sobrenome daqueles que se arvoravam em donos dos pais dele. Ao iniciar a própria prole decidiu que não impingiria aos filhos o sobrenome de quem havia escravizado seus avós. Decidiu então transformar o nome próprio em sobrenome e assim nasceu a família Hemetério. Ta vendo aí? Blogue também é História, poesia e cultura útil.
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