Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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28 de mai de 2008

Hip hop e Internet ressuscitam o interesse pela 'palavra falada'

(Por: Tom Chatfield)* ”A poesia é a ocupação de uma minoria na Grã-Bretanha do século 21. Um olhar de relance para a magra, ou simplesmente inexistente, prateleira de poesia das principais livrarias confirma o fato. A "poesia séria" é normalmente terreno de acadêmicos, estudantes e bolsistas - todos eles, como observou ironicamente o falecido poeta Philip Larkin, ou são pagos para escrever ou pagam para ler. Há menos de um milhão de livros de poesia escritos por poetas vivos, dentre os quais apenas poucos conseguem vender mais do que 500 cópias. Ainda assim, as prateleiras e as vendas estão distantes da verdadeira história. Na arena do ao vivo e online, um tipo bem diferente de poesia está atingindo uma audiência que há dez anos atrás mal sabia que existia poesia fora do currículo escolar: os indivíduos com menos de 30 anos. Há bons motivos para isso: a popularidade do hip hop gerou um novo interesse em relação às letras das músicas; o crescimento da Internet deu às artes menos comerciais o acesso livre à uma comunidade mais ampla; e sempre há uma demanda por algo novo, ou pelo menos por algo velho reinventado. Mas será que devemos nos animar com essa nova tendência? Recentemente passei uma noite com um dos grupos de "spoken word" (palavra falada) mais novos de Londres tentando descobrir. (...) O PiP - "A Poem in Between People" (Um Poema Entre as Pessoas) começou sua carreira no final de 2005, com o nome "Two Black Guys and a Poem Between Us" ("Dois Caras Negros e um Poema Entre Nós"). Os negros em questão eram o poeta Joshua Idehen - nascido na Inglaterra em 1980 mas criado na Nigéria de 1984 até seu retorno em 1999 - e o saxofonista e clarinetista Shabaka Hutchings, mais conhecido por seu trabalho com luminares do jazz como Soweto Kinch e Courtney Pine. O nome veio, observa Joshua meio brincando, por querer "dizer o óbvio antes que os outros dissessem": eis um jovem negro interpretando poemas sobre a vida em Londres, acompanhado de um saxofone. Os dois caras negros logo se tornaram três com a chegada de Musa Okwonga, um advogado formado em Eton e Oxford que se tornou poeta e escritor performático (seu livro em homenagem ao futebol chamado "A Cultured Left Foot" foi publicado no mês passado). No final de 2006, as coisas se tornaram semanticamente complexas com a chegada de uma miscelânea de outros participantes - alguns dos quais não eram nem negros nem caras - fazendo com que o grupo chegasse a ter até oito integrantes em determinado momento. Era um redemoinho comparado ao ponto de partida do PiP. Em 2007, o grupo ficou um pouco mais disciplinado, com um núcleo fixo de quatro integrantes: Joshua, Musa e os novos Inua Ellams - um poeta e escritor de 23 anos nascido na Nigéria - e Catherine Martindale, também conhecida como PoetiCat, estudante e poeta que conheceu o grupo nas noites de microfone aberto no Poetry Cafe no centro de Londres. O que o PiP está fazendo, explica Inua, é o que o hip hop fez em suas raízes nos Estados Unidos nos anos 70, quando emergiu como uma forma de os moradores mais pobres das cidades expressarem suas vidas através da música. As performances de spoken word ainda têm uma relação difícil com a "verdadeira" literatura. Não há barreiras para entrar no meio; os truques retóricos podem dominar o cenário, e as noites de microfone aberto degeneram em competições de gritos ou em números de segunda linha. Ainda assim esses eventos estão ganhando importância quase que à revelia - porque muitas pessoas da geração do PiP se sentem deixadas para trás pelo verso escrito moderno e pela ausência de algo belo e transformador nas letras da maioria dos principais atores musicais. Será que a poesia performática é realmente capaz de escalar as alturas da qualidade ou do reconhecimento público? O PiP é menos catequizador do que se espera. Inua tem suas suspeitas sobre o futuro da spoken word - "se ela pode ser de fato boa? Com certeza há problemas de qualidade" -, enquanto Joshua está começando a usar mais ritmo, música e elementos do rap em seu trabalho, "para torná-lo mais fácil de ouvir. Você precisa fazer com que as pessoas voltem." Mas a experiência ao vivo, eles concordam, é o coração de algo com que muitos artistas perderam o contato - um lugar em que, de acordo com o nível de satisfação da audiência, "não há como pensar que você está indo bem quando não está." As melhores noites de spoken word são bem mais parecidas com um show de variedades do que com qualquer outra coisa, com piadas, músicas, leituras, performances e uma química fácil entre os participantes. Depois de anos comparecendo esporadicamente a esses eventos (e vez ou outra contribuindo com eles), ainda tenho minhas dúvidas, talvez porque esta seja uma forma de arte inerentemente mais efêmera do que a palavra escrita: um método apropriado para os nossos tempos, mas que tem uma relação bem mais tênue com a posteridade - qualquer que seja a posteridade possível na era digital. Você também tem de estar preparado para aceitar o mais grosseiro ao lado do mais refinado, para digerir o sentimental, o equivocado e o totalmente bizarro. Mas quando funciona, há algo eletrizante no trabalho que se desenvolve ao vivo na nossa frente. O poema "Midnight Music Marauders" de Inua, por exemplo, tece seu encanto com uma mistura sinestésica de sons e palavras: "We played like a dead French kiss reincarnated/as a saxophone with tendencies to hiss/galaxophonic secrets through the tombs of trombone/reborn as the lower bones of Bojangles, dancing/on bass drums prancing like songs of the railroad/set free." (em uma tradução livre: "Tocamos como um beijo à francesa morto e reencarnado/como um saxofone com tendência a sibilar desafinado/segredos galaxofônicos pelas tumbas do trombone/renascidos como ossos da perna de Bojangles, dançando/ao som do surdo sacudindo como canções de ferrovia/libertos.") Escrito, à primeira vista, o poema poderia quase ser uma paródia - um desastre de trem de idéias e imagens. Mas à velocidade do ouvido, torna-se melódico, refrescante e livre. A audiência pára, aplaude e dança quando o próximo artista entra no palco: Musa, com um trecho de sua rimada versão de Otelo. O futuro, aos tropeços, está a caminho”. *Tom Chatfield é editor-assistente da revista Prospect. Tradução: Eloise De Vylder .
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