Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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20 de mai de 2008

Um livro pra se ouvir

(Por: *Rogério Coelho) "Tum-dum, e assim, ouvimos: Tum-dum. Vulnerável é mesmo nosso controle de pensamentos em torno da força de propagação de um simples bater de tambor. Podemos falar sobre ondas sonoras, e as interferências físicas de barreiras; de outros sons, outros ritmos, outras tribos, outras crenças. Divagamos sobre um estampido seco, ora um latido roto, ou um pulsar frenético, que soa a sexo e paixão, tal qual a agitação desanda num ferver endemoniado, o que faz do ritmo um latejar constante. “É fogo”. Exatamente sobre esta última concepção, é que nos debruçamos para “ouvir” o mais novo livro de Cidinha da Silva, Você me deixe, viu?Eu vou bater meu tambor (Mazza Ed. 2008, 78 págs). Devemos, ainda, acrescentar aí um rufar enérgico, em prol dos temas como as relações raciais assimétricas, entoados no ritmo de vida da autora que, além de ativista do movimento negro durante anos, sente a literatura como mais um artifício de fruição das questões raciais. Assim, armada com o poder da palavra, de uma literatura muito fértil e versátil, Cidinha nos apresenta esse “tambor”, que parece metamorfosear-se em um próprio peito: tão garrido de mágoas, porém solfejado de um lirismo desigual; tão apertado da descontinuidade do amor, sem deixar que se perca a leveza fundamental do conjunto. São vinte e cinco contos/crônicas/prosas poéticas que, sobre o prefácio da Profª Dra Mª Nazareth Fonseca e orelha do cineasta Jeferson De, formam o que a autora chama carinhosamente de orquestra. Tantos são os múltiplos que podemos encontrar que a denominação de “orquestra” veste o livro como luva em forma de metáfora: a multiplicidade da estrutura, dos elementos, que conflui para uma fina harmonia. Contos, crônicas e prosas poéticas, fundidas às gravuras de Lia Maria, sem rostos, porém carregadas de expressões; o azul fluido da capa, deixando em relevo o peixe multi-elemetos e multicor, enfim, a dança das várias leituras que nos saltam aos olhos é, nada mais, que o evento do hibridismo a que a autora nos submete e nos envolve, a fim de promover a tentativa primordial do ser humano: Preencher as lacunas da vida. O peito do narrador é instrumento principal dessa orquestra no enunciado. Caixa amarrada em pele ressequida e maltratada de marteladas da mão, que bate marcando o compasso da afirmação de ser mulher arguta; de questionar a submissão do casamento por ele mesmo; de guerrear com as dores incondicionais do amor que grita um desafino, como Tire seu sorriso do caminho, e depois se entrega a um tipo de Amor na pós-modernidade. Estrutura rústica de um Tambor de harmonia suave, síntese singela da dialética do amor da mulher condicionada às mazelas da vida conjugal, ou melhor, da vida desigual. O corpo em evidência no livro, em desassossego, produz o som que faz arrebatar os clamores do peito do leitor. Esta resenha, ao contrário de fazer um convite à leitura do livro, é apenas um diapasão, que orienta a audição do leitor, começando logo na primeira página do Tambor de Cidinha. Aquele que se vale de co-autorias, de lirismo não gratuito, de Tereza Cristina à Paulinho da viola, numa dicção de vozes e melodias tão felizes ao intertexto. E porque não dizer à “intermúsica”? Uma vez que somos nós, leitores, os maestros de coração e olhos de batuta. Boa música para os olhos"! *Rogério Coelho é paulistano, mas vive em Minas Gerais, Belo horizonte há 20 anos. Mestrando em Literaturas de língua portuguesa pela PUC-MINAS e graduado em letras, é autor da peça teatral O canto da Hora amarga (2007), e outras publicações científicas sob a linha de pesquisa Identidade e alteridade na literatura.
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