Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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23 de out de 2010

Amores eternos nascidos no carnaval – texto 1 (do livro Colonos e Quilombolas)

Ela entrava majestosa no palco do Salão Modelo. Os olhos inchados. Na certa tinha interrompido o choro para cantar. Era hora de dividir as mágoas com as fãs. Junte tudo o que é seu. Seu amor, seus trapinhos. Junte tudo o que é seu e saia do meu caminho... As mães e as tias choravam por dentro. Toda mulher vivida se solidarizava com Dalva e sua coragem de cantar nas músicas as dores de amor por Herivelto. Qual é o casal que não briga? Era uma solidariedade recalcada. Da boca para fora criticavam porque Dalva expunha coisas do casal. Ela não se importava, cantava ao mundo sua dor. As tias solteironas tinham uma espécie de sentimento de vingança: fora bom não ter casado. Deus me livre sofrer daquele jeito. E nós, as mais novas, gostávamos da música porque nossos aspirantes a maridos, empenhados em nos conquistar, prestavam atenção à letra e faziam juras eternas, prometendo nunca nos magoar daquela maneira. Entretanto, gostávamos mesmo das músicas mais alegres, do lencinho branco querido, que enxugava as bocas molhadas, sem dizer que molhadas estavam. Na noite do baile eu vestia um vestido de organdi branco, acintado por uma faixa rosa bem clara, abaixo dos seios. Tinha um franzido discreto no tecido e a faixa ficava acima da cintura para não marcar os quadris. Os sapatos também eram brancos, fechados nos dedos e nas laterais, com uma tira de couro no meio, por onde passava a correia. O salto era de cinco centímetros, largo, bom para dançar a noite inteira. No cabelo, minha irmã tinha feito uma trança grossa de cada lado da cabeça e as duas fechavam um U na nuca. Tudo pronto para encontrar um príncipe da Colônia Africana. Eram vários os pretendentes, mas só um me interessava. Tínhamos nos visto na rua Esperança. Eu descia de braços dados com minha irmã e a mãe. Meu irmãozinho segurando a mão dela. Íamos para o desfile dos blocos. Ele subia sozinho. Ao passar fez uma mesura para a mãe. Ela não disse sim, nem não, mas o olhou nos olhos, era quase um sim. Ele me lançou um olhar cumprido e açucarado que durou o tempo de parar debaixo do lampião. Ainda estava escuro, o acendedor não havia chegado naquele ponto da Protásio. Ele preparou um cigarro e quando sorriu foi justamente no momento em que o acendedor subiu na escadinha e colocou a ponta da taquara dentro do lampião para acender. Um conjunto de marfins bem desenhados reluziu no rosto de canela dele. Eu gostava do Turunas, que era rosa e ele do Prediletos, que era verde. Descobrimos dançando, mais tarde. Já tínhamos uma afinidade, o branco que completava as cores dos dois blocos. Dali para o casamento foi um passo.
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