Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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19 de out de 2010

Pantera negra coloca ouro à venda

O juízo de valor do repórter ao final da matéria é ridículo, simplista e inaceitável. Incompatível, inclusive, com o mosaico de aspectos da questão desenhado ao longo da reportagem. O grifo no corpo do texto é meu. (Deu no "NEW YORK TIMES", por Wiliam Rhodem). "A notícia era perturbadora e ligeiramente inacreditável. Tommie Smith, o norte-americano campeão olímpico, colocou sua medalha de ouro em leilão. Justo Smith, um homem orgulhoso, disciplinado e de princípios. Mas lá estava, à vista de todos, no site da empresa responsável pelo leilão, a Moments in Time Memorabilia, a famosa foto que mostra Smith, Peter Norman e John Carlos, ouro, prata e bronze nos 200 m na Olimpíada da Cidade do México, em 1968. Carlos e Smith, com a cabeça inclinada, erguiam para o céu seus punhos calçados com luvas negras, enquanto a bandeira dos EUA subia ao som do hino nacional. A imagem continua a ser uma das mais conhecidas demonstrações de protesto e resistência na história do atletismo e serviu como perfeito símbolo para uma geração. Por que Smith, 66, desejaria vender algo associado a um momento tão histórico? Especialmente seu ouro? Quando a notícia surgiu, o primeiro nome que me ocorreu foi o de David Steele, colunista da AOL e coautor de "Silent Gesture", com Smith, projeto que demorou quase dez anos para ser publicado. Steele disse que estava surpreso, mas recordou que Smith já havia tentado vender o ouro nove anos atrás. O ex-velocista queria levantar dinheiro para sua fundação. Por que recolocá-la à venda? Será que Smith está com problemas financeiros? Steele não acha que é o caso. "Preocupa-me, com a divulgação dessa notícia, que todo mundo venha a ter essa impressão. A menos que alguma coisa tenha mudado nos últimos 12 meses, não creio que seja o caso", disse. Para muitos, o gesto se tornou inspirador símbolo de desafio. Para Smith e Carlos, que sofreram muito por ele, a medalha se tornou o símbolo de um pesadelo. Talvez, caso a venda ocorra, Smith consiga encerrar esse capítulo, ainda que na realidade ele e Carlos devam ser sempre definidos por aquele momento. "Ele jamais passou nem perto de se arrepender, mas tudo o que ocorreu desde então lhe causou muita dor. Ele continua a receber ameaças de morte", afirmou Steele. "Por outro lado, tem 66 anos. Talvez já não pense na medalha como objeto ao qual deve se apegar. É possível que haja um uso melhor a ser dado a ela", completou. Gary Zimet, representante da Moments in Time Memorabilia, também está vendendo as sapatilhas que Smith calçou na noite da conquista. Ele disse ter contatado Smith um ano atrás e perguntado se ele ainda tinha a medalha e desejava vendê-la. "A resposta foi: "De jeito nenhum"." Mas Zimet persistiu. Três semanas atrás, viajou à Geórgia para se encontrar com Smith e fechou o negócio. "Sei que ele deseja financiar uma iniciativa para a juventude e que boa parte do dinheiro da venda seria destinada a isso", disse Zimet. Quanto vale a medalha de Smith? Algumas casas de leilões de artigos esportivos estimam valor de venda entre US$ 8.000 e US$ 10 mil (entre R$ 13,3 mil e 16,6 mil). Zimet afirma que o valor mínimo para os lances é de US$ 250 mil (R$ 416,5 mil). O Dr. Walter Evans, proeminente colecionador de arte e proprietário de uma das maiores coleções mundiais de artefatos da cultura negra dos EUA, disse que, para colecionadores em seu campo, aquela medalha vale muito. "Smith é uma figura história. Não se trata de Martin Luther King ou Malcolm X, mas todas essas coisas combinadas ajudaram a mudar o rumo de nossa história." Smith não quis comentar sobre a venda, mas sua mulher, Delois, declarou por telefone que, "caso o leilão não propicie a soma que Tommie tem em mente, pode crer a medalha não será vendida". Zimet também procurou Carlos, bronze na mesma prova. Enviou um e-mail perguntando se Carlos estaria interessado em vender a medalha. "Não recebi resposta", afirmou Zimet. E nem deve recebê-la. "O cara nem deveria ter me procurado", declarou Carlos, em entrevista por telefone. "Ficarei com a minha medalha. Não a venderei, qualquer que seja a proposta. Minha filosofia é a de que ela é o legado que tenho para meus filhos. O que quer que decidam fazer com ela depois que eu me for é problema deles." Smith e Carlos foram a Orlando, Flórida, na semana passada para admissão à Galeria da Fama do National Consortium for Academics and Sports, organização dirigida pelo sociólogo esportivo Dr. Richard Lapchick. Carlos contou que Smith não mencionou o leilão. "Não me disse uma palavra a respeito", afirmou. "Ele ganhou a medalha. É dele. Tem direito de fazer com ela o que bem entender. Ele a merece, e a responsabilidade de dispor dela como preferir é sua. Espero que pense bem no que está fazendo, mas, ao mesmo tempo, não o desrespeito por isso." Smith deveria pensar com sabedoria sobre a venda. Sim, a medalha é dele, mas vem sendo apreciada há gerações por muitas pessoas que recordam o momento e por muitas outras que viram imagens da cena. O gesto está entre os momentos mais decisivos na história social e política do esporte nos EUA, em companhia da entrada em campo de Jackie Robinson para pôr fim à segregação no beisebol e à recusa de Muhammad Ali de servir o Exército. Smith e Carlos ergueram os punhos, em um gesto silencioso, mas muito forte. Agora, Smith quer faturar. Em um mundo ideal, alguém compraria a medalha de Smith e a devolveria como presente. A integridade não deve e não pode estar à venda. Smith deveria saber disso. Não foi por isso que agiu como agiu"? (Tradução de PAULO MIGLIACCI).
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