Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Postagens populares

Visualizações de páginas da semana passada

Google+ Badge

Translate

20 de mai de 2013

E se Michelle Obama deixasse o cabelo natural?


Por Charô Lastra

Michelle Obama ao natural
Michelle Obama ao natural
Colega de trabalho branco: Ah, mas eu não vejo muitas mulheres por aqui com cabelo igual ao seu.
Eu: Provavelmente porque elas fazem permanente ou usam perucas.
Colega de trabalho branco: Então….Michelle Obama, tem o cabelo natural, certo?
Eu: Não.
Colega de trabalho branco: É sim!
Eu: Não, realmente não é. Ela alisa.
Colega de trabalho branco: O quê?!?!?!? *Com aquela expressão de bunda*
Eu: É.
Colega de trabalho branco: *longa pause* Você tem certeza?

Esse diálogo, cujo original você pode ler no Curly Nikki, parece coisa de… Americano. Imagina que no Brasil as pessoas não sabem como é o cabelo natural de uma pessoa negra. Pois vou te dizer que nasci negra e passei 28 anos da minha vida sem saber como era o meu cabelo natural. Não ficaria espantada de descobrir que o mesmo aconteça com uma parcela considerável de mulheres negras. E porque não, pessoas brancas.
Lembrei de conversa que tive num ônibus da vida com uma senhora negra usavando apliques que já não mais escondiam a alopecia causada… Por apliques, igual a Naomi Campbell. Nas têmporas nuas, alguns fiozinhos cuja queda era uma crônica de uma careca anunciada, tracionados pelo cabelo artificial. Quando me viu, precisou olhar duas vezes. Na terceira, estava perto de mim. Com a mão hesitante em direção aos meus cabelos que, naqueles dias eram um black power de 3 anos, perguntou:
Senhora: Minha filha, como eu faço para ter cabelos como os seus?
Fiquei sem ação. Estava acostumada a chamar a atenção das pessoas (brancas) que me paravam para pegar no meu cabelo, saber se… Era de verdade! Mas agora era diferente. Aquela senhora estava me pedindo socorro e não poderia responder de acordo com meus ímpetos mais sinceros de dizer, sem nenhum rodeio, pra ela deixar o cabelo natural. Quer dizer, tinha de dizer exatamente isso, mas de um modo inspirador, reconfortante.
Fiquei hesitante porque ela tinha mais ou menos a idade de minha mãe. Uma geração alisada, usando peruca de náilon. Elas até são contemporâneas do Black Power, doNegro é lindo, do Tony Tornado, mas não foram ou não puderam tentar fazer as coisas de outra forma simplesmente porque não havia opção, tecnologia, gente próxima falando sobre cabelo natural. Seriam consideradas feias, sujas, malcuidadas. Por si e pelos outros.
Na dúvida e com medo, decidi pela objetividade.
Eu: A senhora tem…Tem… De deixar seu cabelo ao natural.
Decepcionada, baixou a cabeça entristecida. De algum modo sabia que essa seria sua reação. Certamente já havia deixado seu cabelo ao natural e não deve ter gostado nada, nada. Deveria haver outra solução que não essa. Deveria. Porque cabelo precisa de solução. Ainda mais os das mulheres negras que, se tem cachos, devem ser controlados, esses rebeldes sem causa, que não deixam um aparência profisisonal.
Bem, os tempos mudaram. Mas não deixo de me perguntar o que aconteceria se gente como Michelle Obama usasse o cabelo natural. Sem uma só palavra dita, todos saberiam que cabelo natural combina sim com a palavra poder, profisisonalismo, beleza. Mas também me pergunto porque ela alisa ou usa peruca. Porque faz o mesmo com as filhas. Eu sei, não é da minha conta, mas eu pergunto mesmo assim.
Postar um comentário