Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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25 de jan de 2008

O Padê de Juçara Marçal!

Juçara Marçal é dos raros luminares negros da cultura popular urbano-paulistana, em meio a um mundo de artistas e pesquisadores que bebe nas fontes africanas do interior paulista – lundu, congada, jongo, batuque -, nos terreiros das velhas guardas e nos saberes de negras e negros velhos. Salve Juçara Marçal! Salve Fabiana Cozza! Salve Beth Belli! Saudades, Ney Mesquita! É cantora de fôlego e afinação imensos. Compõe, dá aulas de canto e língua portuguesa. É mestre em literatura brasileira pela USP e integra os grupos “A Barca” e “Vésper Coral”. “Padê” é seu primeiro disco solo, feito em parceria com Kiko Dinucci. Por falar no parceiro, quem não o conhece e vê a gravura da capa, Kiko por ele mesmo, vê um rapaz... mestiço, digamos. Ao ouvir a música você compreende o auto-retrato, trata-se de um "branco-afro-macarrônico". Já que não existe negro de alma branca, também não existe branco de alma negra. É um desses moços urbano-paulistas que bebe nas fontes africanas com seriedade, respeito e competência. O disco é delicioso. A música de abertura é "Padê", composição de Kiko Dinucci. É brado de chamada, de iniciação ao canto de Juçara Marçal. O baixo de Marcelo Maniere dá um toque especial a este arranjo para Exu. É mantra de dormir e acordar. Laroiê! Em "São Jorge", também de Kiko, novamente o baixo se destaca, do mesmo Marcelo. O poeta Kiko vem montado em cavalo baio e vestido de gala: "a guimba e a fumaça do meu cigarro/cega o olho do soldado que pensou em me ferir/com um sorriso derrubo uma tropa inteira/mesmo que na dianteira a sombra venha a me seguir". "Machado de Xangô" é a próxima e tem um quê de música cubana ou de outros lugares do Caribe, assim anos 40,50, impossível não ouvir com os quadris. O violão de Kiko faz magia e cadencia tudo, somam-se os atabaques e a voz de Juçara e somos transportados para um barracão de encantados ou para a mata... "se eu perder a fé no meu senhor (Xangô)/ ele rola a pedreira por cima de mim / ele rola a pedreira po cima de mim". É papo para iniciados, gente senhoriada por Xangô sabe que a coisa é mesmo assim. "Atotô" é simples e portentosa, como Obaluaê. Kiko é preciso e Juçara é incisiva. "Jatobá" apresenta a cantora-compositora e o canto lembra tanto Ná Ozzetti, e a poesia é Lira Paulistana renascida com tônus de sabedoria africana enraizada em São Paulo. O arranjo e o piano de Lincoln Antônio são magistrais. A Lira Paulistana prossegue em sua visita pelo disco. Opa! Mas é Candeia, em "Cabocla". Nada é impossível, deve ser efeito do arranjo vocal e do baixo, outra vez. "Mar de lágrimas" é a letra mais fraca do disco, é pretensiosa, mas não diz nada. É salva pela voz encantadora de Juçara e pela combinação piano-tamborim, lindas. Assim mesmo, dói no ouvido a tal "culpabilidade" no meio de uma poesia. São inevitáveis as lembranças de letras bobas cantadas por Leny Andrade, dentre outras musas, protegidas por arranjos belíssimos, músicos primorosos e voz sem adjetivos. Santa proteção à Juçara. Em "Engasga gato", a cantora brinca um pouco mais com a voz, emoldurada por tambores e baixo, maraca e reco, quando os tambores descansam. Um quê rumbeiro nos arrebata. Mais brincadeira com a voz em "Samba estranho", talvez a música mais pop do disco. Enredo de samba de breque, colorido de Itamar Assumpção, ritmo de cartoon e a cantora imprime marca cinematográfica à música. "Velha morena" parece nos levar de volta aos 80, tempos da Lira Paulistana e leva mesmo, é Luis Tatit em ação. No arranjo vocal Juçara brinca como brincam o Rumo, Itamar Assumpção, Luis Tatit, Ná Ozzetti. "Imitação" é só voz e volão, Juçara, Kiko e boa poesia: "dona solução/reveja o meu caso com atenção/a esperança que é forte/mora no meu coração". "Batuque para Ney" saúda e evoca Ney Mesquita, um luminar que já se foi, aquele que lançou Kiko Dinucci: "Cadê Ney Mesquita?/cantou violão, tambor gritou"... E dá-lhe matraca de Renato Ihu: "eu sou do tempo da coruja batuqueira/conheço batuqueiro/é pelo jeito que ele bate". "Roda de Sampa", um samba bom e bem paulistano de Kiko, encerra o disco. E a voz melodiosa de Juçara reverbera nos tímpanos da gente.
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