Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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8 de jan de 2008

Os Sementais de Yennenga - mostra de cinema africano em Brasília

(Por:Ricardo Daehn, do Correio Braziliense) "Parece um contra-senso, mas é justamente na árida região de Burkina Fasso, no oeste africano, que se dá visibilidade estrangeira ao potencial da cinematografia africana, por meio do maior evento competitivo audiovisual daquele continente: o Festival Pan-africano de Cinema e Televisão de Uagadugu. Mais conhecido como Fespaco, o evento bienal traz como premiação máxima o troféu Semental de Yennenga, representativo até no nome – que tanto remete à fecundidade das sementes quanto abarca a propagação de instintos de antepassados. Agrário por excelência, Burkina Fasso empreende a missão hercúlea de – sendo um dos líderes entre os mais baixos índices de desenvolvimento humano – disseminar esperança para uma realidade de mercado contaminada pelo domínio de fitas norte-americanas, pelo avanço da pirataria, pela decadência do parque de exibição e por ingressos inacessíveis aos padrões de consumo africanos. A valorização desse espírito de resistência do Fespaco figura na base da mostra Os Sementais de Yennenga, a partir de hoje, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Quase dois anos depois dos 18 títulos que compuseram Novo Olhar do Cinema Africano, o CCBB conta novamente com a parceria do Ministério de Relações Exteriores da França para dar acesso aos raros 15 longas-metragens africanos que compõem a programação, toda em DVD. Entre nomes pouco conhecidos no Brasil, o diretor Abderrahmane Sissako (criado em Mali) é uma das exceções, tendo participado, fora do circuito competitivo, do Festival de Cannes de 2006, com Bamako, espécie de ajuste de contas entre africanos e instituições comprometidas com o endividamento social do continente. Na mostra, porém, ele está representado por En attendant le bonheur, ambientado na Mauritânia e que apresenta o menino Abdallah, prestes a seguir para a Europa, num derradeiro contato com costumes africanos igualmente desconhecidos. A questão da adequação social também se derrama por outros filmes, como Histórias de um encontro e Identidade. O primeiro centra o foco em uma dupla de surdos-mudos que derruba as esperadas barreiras de comunicação, diante das distintas origens (norte-americana e argentina) pelas quais são influenciados. Também na mostra do CCBB, Identidade revela o reencontro de um rei do Congo com a filha, ausente desde o momento em que foi enviada à Bélgica para aperfeiçoamento nos estudos. Dilema que perpassa várias tramas integradas em Os Sementais de Yennenga, o casamento, atrelado ao status e à estratificação social, comanda boa parte das histórias. Despontam daí os enredos do órfão que recorre a um inescrupuloso tio para o pagamento de um dote (em Muna moto); do rapaz que deixa temporariamente a aldeia africana para amargar o enlace da própria noiva com o pai (em Tilaï) e o peso da tradição que surge como impeditivo para a união de dois estudantes da Costa do Marfim (em Djeli). Logo na abertura, a mostra do CCBB, agrupa na programação As mil e uma mãos (hoje, às 18h) – em torno da lucrativa cadeia de tapeçaria incrementada em Marrakech – e Sarraounia (às 20h), voltado para o espírito pacificador da homônima rainha africana. O mote, por sinal, em muito se aproxima da lenda em torno da princesa Yennenga, reverenciada no troféu do Festival Pan-africano de Cinema e Televisão de Uagadugu. Tido como fundador do império do povo mossis (dominante em Burkina Fasso), Ouédraogo teria sido gerado com a paixão alimentada entre um caçador solitário e Yennenga, a filha do rei de Gambaga, impedida de casar e destacada para liderar um exército. Circunstancialmente, ela acaba por providenciar o único herdeiro do reino do pai. Do continente fortemente influenciado por crenças extra-sensoriais ressoam temáticas como as exploradas em Budd Yam – no qual um rapaz marginalizado pretende provar seu valor, ao recorrer a um curandeiro – ou no longa Em nome de Cristo, que evidencia a capacidade de convencimento de um marfinense autoproclamado primo de Jesus. Com apenas duas lacunas no total dos 18 títulos premiados pelo Fespaco – faltam na mostra o vitorioso da primeira edição oficial (1972) e o da mais recente (2007) –, Os Sementais de Yennenga alinha, finalmente, filmes como Baara, Drum e Finyé. Pela ordem, um trata da projeção alcançada por um carregador de bagagens, auxiliado por um nada conformista engenheiro que se indispõe com a diretoria da fábrica onde trabalha; Drum se concentra na denúncia da perseguição governamental sul-africana à casta intelectual que espalhava ideais libertários; e Finyé, outro retrato de insurgência contra a classe dominante, construído a partir da amizade entre dois adolescentes saídos da opressora sociedade maliana". (Ilustração: Iléa Ferraz) Os Sementais de Yennenga Centro Cultural Banco do Brasil (SCES, Tr. 2, Conj. 22; 3310-7081). De hoje ao dia 27, exibição de 15 filmes premiados no Festival Pan-africano de Cinema e Televisão de Uagadugu. Sessões de terça a sexta, às 18h e 20h. Entrada franca. NR* 16 anos.
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