Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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23 de jan de 2008

Uma Pilha de Cadáveres Negros... Bom dia, Direitos Humanos! Bom dia, Nova Bahia!

(Por Vilma Reis*, do Irohin) "Djair Santana de Jesus, negro, 16 anos, estudante do ensino fundamental, com mãe negra chefa de família, foi assassinado pela Polícia Militar da Bahia, na comunidade do Alto da Esperança, na região das Sete Portas, sob a acusação de ter trocado tiros com os policiais da ROTAMO. As mulheres que protestaram a sua morte foram covardemente espancadas e sua tia, dona Jaciara Santana, foi baleada nas nádegas. Toda a comunidade presenciou, com medo e tristeza, o sorriso sinistro e jocoso do policial atirador. Mais uma ocorrência rotineira em Salvador, segunda maior cidade negra do planeta, onde ser negro ainda é sinônimo de perigoso, indesejável, fora do lugar e, fundamentalmente, descartável. Acompanho as ações das polícias na Bahia, desde a Operação Beirú, em 1996, quando o chamado “modelo de tolerância zero ao crime” foi a política de segurança pública dos senhores dos Aflitos, da Piedade e do CAB. Doze anos depois, com o comando da Polícia Militar nas mãos dos mesmos agentes do governo anterior, registramos a ocorrência de 1.307 assassinatos de cidadãos, sendo 96% das vítimas negros, 78% com o envolvimento direto da “polícia do Estado” no ano de 2007, a maioria em Salvador e na sua região metropolitana. A pergunta que os cidadãos e as cidadãs negras da Bahia fazem a Jaques Wagner, governador de um Estado com 77% de habitantes negros é a seguinte: o que Vossa Excelência fará com a pilha de cadáveres negros? Com esse questionamento, a nossa intenção é a de não morrer em silêncio, de bruços e com as mãos na cabeça, exterminados pelos tiros de misericórdia do Estado. Lutamos por mudanças na Bahia, onde, historicamente, uma minoria vem desenvolvendo uma cultura violenta de controle racial em todas as instituições, buscando dominar a tudo e a todos, sob o império do racismo institucional, que estrutura todas as relações nos Poderes públicos. Desse modo, os brancos poderosos definem o lugar do negro e o do branco e recorrem ao braço armado do Estado, para manter a maioria negra em “seu” lugar, o território da subserviência que nunca aceitamos. Aprendemos com as nossas avós a não aceitar migalhas, a não entrar pelas portas de serviço e a não falar baixo diante dos racistas. Disso depende a nossa continuidade. Por isso, pensar e agir “fora da zona de controle da Casa Grande”.é nossa missão, é o nosso destino! Essa memória ancestral e a nossa resistência nos protegem do massacre físico, cultural e mental. Damos bom-dia aos Direitos Humanos, pois os queremos com eqüidade de raça, gênero e diversidade afetivo-sexual, com liberdade religiosa e justiça agrária, com a garantia dos direitos das populações quilombolas, das mulheres negras e da juventude negra do campo e da cidade. Mas para que isso se concretize, é preciso que o Governador Jaques Wagner, exerça um real controle sobre a zona de terror e a política de intolerância racial que as Secretarias de Segurança Pública e de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos continuam a implementar em nosso Estado. A negritude de Djair está em cada um de nós, portanto a linha que separa cada pessoa negra da possibilidade de ser assassinada pelas polícias é muito tênue. Não queremos mais seminários para diagnosticar o óbvio, nem apenas cursos inócuos de formação em Direitos Humanos para policiais, Governador! Sua Casa Civil deve convocar as Secretarias responsáveis e instituir um diálogo verdadeiro com a sociedade civil negra, para buscar políticas públicas que se contraponham, radicalmente, à atual política de extermínio. É da responsabilidade de Vossa Excelência vir a público e declarar de forma inequívoca que o seu governo não vai mais tolerar o assassinato da população negra; não vai mais aceitar o disparo de balas em ato de misericórdia; não vai mais admitir as lágrimas das mulheres e das famílias negras pelo aniquilamento de seus filhos, maridos e irmãos apenas por serem negros. Só assim acreditaremos em Direitos Humanos. Só assim acreditaremos nesse governo como o que transformará a Bahia em uma “terra de todos nós” e não somente a de todos os brancos. Como Vossa Excelência já se pronunciou em falas públicas “o diabo mora nos detalhes”. Queremos lembrar que o racismo também". Salvador, 22 de janeiro de 2008. *Socióloga, Mestra em Ciências Sociais FFCH-UFBA, Coordenadora Executiva do Programa CEAFRO – Educação e Profissionalização para a Igualdade Racial e de Gênero do CEAO/UFBA e Presidente do Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado da Bahia.
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