Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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5 de out de 2012

Novelas



Por Cidinha da Silva

Esta crônica poderia ter sido escrita a quatro mãos, as minhas e as do amigo querido e dramaturgo premiado, Anderson Feliciano. Passamos os olhos pelas novelas e depois comentamos o texto, os diálogos, o desempenho de atrizes e atores que nos interessam.

Ficamos encantados com a cena vivida por Lázaro Ramos e Milton Gonçalves na novela das seis, no dia seguinte à revelação de que Isabel (Camila Pitanga) está grávida de outro homem, não do noivo, Zé Maria, personagem do Lázaro. Quanta beleza! Que intensidade de sentimentos nos deram dois grandes atores, o veterano e seu herdeiro. Que memorável encontro de gerações para dizer um texto pleno de lirismo, um diálogo de dois homens negros sofridos e conservadores, ainda que ligeiramente à frente do próprio tempo.

Fomos à novela, impelidos pelos depoimentos de Lázaro e Camila sobre a novidade positiva e pró-ativa que Lado a lado representa na teledramaturgia brasileira. Até o momento, não exageraram. As personagens negras são dignas, altivas, participam de toda a história, têm vida plena no núcleo central, constituem o núcleo central. Às vezes há um tom bastante didático na boca dos personagens encarregados de verbalizar as lições éticas da trama: o jornalista, dono do falido jornal de oposição; a tia branca, solteirona e bem resolvida, irmã das vilãs; o padre correto e humano; a tia de Isabel, Jurema, representada por Zezé Barbosa. Esta, aliás, tem textos primorosos e merece maior esmero e densidade na interpretação. Também Sheron Menezzes ainda não disse a que veio com a personagem Berenice, estamos aguardando.

Isabel, por sua vez, é a mocinha múltipla, cheia de frestas interpretativas que lhe permitem vários caminhos e um ar de arejamento quase eterno. É uma mocinha não convencional, assim se espera, é uma mocinha negra, filha de um ex-escravizado. É esta mocinha atípica que protagoniza a belíssima e forte cena da confissão de Isabel a Zé Maria, sobre a gravidez, fruto do “erro.” Ela chora desesperada, mas mantém alguma racionalidade e, acima de tudo, a dignidade. Reconhece que “errou”, mas pede ao amado que não a humilhe, pois isso seria insuportável. Um texto humano, bem construído e a interpretação magnífica de Camila e Lázaro, com carga dramática na medida.

Interessante, que mesmo com todo o discurso libertário de Jurema, a quituteira e mãe de santo, confidente de Isabel, o aborto não apareça como possibilidade para que uma mulher negra interrompa a gravidez, fruto de um “erro” com um homem branco. Ainda que esta mulher não aceitasse, que tivesse uma crise moral-cristã, etc, etc, há, com certeza, duas ou três folhas e raízes de eficácia inconteste, quando tomadas na freqüência e quantidade adequadas, conhecidas por Jurema. Com essas mesmas plantas abortivas, Jurema já deve ter socorrido a mulheres negras que não poderiam ter engravidado e também a mulheres brancas, aquelas que quando não conseguiam abortar, desde o século XVIII, internavam-se em conventos durante a gravidez e depois deixavam os “frutos do pecado” na roda dos enjeitados das casas de misericórdia. As índias não precisavam da ajuda das Juremas, também sabiam como fazer.

 Comentamos também o desempenho de Cacau Protásio (Zezé) em Avenida Brasil. Torcemos para que a ótima atriz não seja aprisionada em personagens cômicos e estereotipados. Que Cacau consiga, como Ailton Graça, firmar-se como atriz que tem também veia humorística, mas não se resume a isso.
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