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16 de jan de 2013

À Cidinha, o pente do Griô




*Por Emerson Inácio
"O grande desafio de todo autor que escreve literatura para crianças e jovens é não tornar esse texto nem infantil demais, no sentido negativo assumido por esta palavra, e nem didático em excesso. No caso de “Os nove pentes d´África”, felizmente, não vemos nem um nem outro caso. Aliás, os vemos, sim, mas revestidos de uma outra dinâmica capaz de torná-los, pela mão de Cidinha da Silva, definitivamente valiosos, uma vez que esvaziados como andam, podem muitas vezes indicar “mais um texto chato dedicado a ensinar alguma coisa relevante a um público pouco interessado” ou com o objetivo de ocupar o lugar dos pais na construção da cidadania e da identidade de seus filhos.

Ao contrário, o livro mostra que é na roda do mundo, na roda do mundo grande de Oxalá é que se aprende, se apreende e se faz do exemplo afetos guardados para sempre. Só nesse círculo-mundo é que sentimos a vida e nos deixamos invadir e dominar pela eterna palavra. De infantil e didático – lugares hoje tão comuns – a história que Barbinha narra, nada tem. Pelo contrário, como um texto que se constrói pela experiência, ele me parece ter nascido de uma clara vida vivida que por si só já se constitui como exemplo e reclama, como é a tarefa de todo mais velho contador de história, de toda mãe e pai de santo, não necessariamente ensinar, mas ajudar a vida e o mundo a fazerem sentido, para que este não perca a sua ordem natural dos homens e mulheres e para que se constitua a circularidade da existência e a permanência da memória. E nesse sentido, “Os nove pentes” cumpre bem a sua tarefa, que é a de demonstrar que as histórias contadas, quando vividas, continuam na vida do outro também, a quem cabe dar continuidade ao barco inacabado do Francisco Xangô Ayrá, seja pela outra arte do Zazinho, seja pela leitura gostosa e afetiva que fazemos desse livro. Talvez, seja tudo mesmo uma questão de saber tanger as palavras, resgatando o seu poder encantatório, sua força perdida, seu poder emancipatório. E isso, me parece, Cidinha da Silva traz na memória da pele, o que já foi muito bem demonstrado em Cada Tridente em seu lugar e Você me deixe, viu? Eu vou bater meu tambor!. Aí, nesse caso, ser infantil e didática passa ser um valor inerente à obra e não um quase-prejuízo ao leitor. Pelo contrário, o que se enfatiza nesses pentes que penteiam os cabelos da vida, é essa força que nos mitos africanos faz com que sejamos todos uma pequena parte do grande todo. E, no caso, a história infantil – o missosso revisitado de Cidinha – não vira fábula com moral no final, mas resgata em nós uma memória perdida, distanciada, que precisa viver novamente e ganhar no hoje um novo significado.

 A dedicação de Cidinha da Silva a este livro, que eu, como leitor apenas, comento aqui, acaba por produzir uma obra de arte efetivamente engajada, no sentido adorniano do termo. Ou seja, “Os noves pentes” é tão acercado pela experiência política da autora que este dado se demonstra não como algo que nos salta aos olhos, mas como parte inerentemente íntima dessa história. E no caso de ser uma obra dedicada ao publico infanto-juvenil, esse dado se demonstra como uma associação valiosa entre a enunciação de um discurso étnico-racial e a necessidade premente de tornar o homem e a mulher negros sujeito e objeto da sua própria narrativa.

Assim, o livro cumpre a tarefa, cidadã, de dar a conhecer a este público em específico às questões mais candentes da atualidade, em tempos de presidentes, desembargadores e protagonistas de novela negros. Principalmente por que demonstra que a questão étnico-racial no Brasil precisa ser assumida como um dado inerente à identidade da maioria dos cidadãos desse país, em maior ou menor grau descendentes dos que vieram de África e, não necessariamente, pela via romântica e pelo esvaziamento com que certas questões vem sendo tratadas. Em outras palavras: a constituição da identidade do negro no Brasil atual precisa necessariamente passar pelo reconhecimento de sua memória, de sua arte, de suas tradições específicas, de sua forma de viver e pela história de seu corpo.

 Para o público a que se dedica e não só, este texto fundado na experiência de mulher negra que Cidinha da Silva representa, é um efetivo exemplo do que hoje podemos chamar de uma literatura afrodescendente, cuja história, começada há 150 anos por Luis Gama e Maria Firmina dos Reis, Solano, Oliveira Silveira, Cuti, Miriam Alves, passa pelos Cadernos Negros e hoje desemboca nesses pentes. Daí que esta maka, novela, missosso, romance, conto, ou numa palavra, história da vida seja toda ela tecida não só pela mão da autora, mas por todas as mãos negras que escreveram antes dela e que nela continuam a escrever. “Daí, será necessário começar tudo outra vez.” “Tudo, tudinho, mestra?” “tudo, tudinho, minha menina.” E essa literatura negronascida é isso mesmo: um jeito de começar a escrever esse cânone literário pelo lado de fora, no esforço de tecer fios, encaixar as missangas, trançar os cabelos, descobrir a cor, os tons e entretons do arco-íris, atar no Brasil o fio perdido da história africana, esticado até aqui. E mais: é a palavra literária que extravasa do corpo negro dessa mulher, pela mão que escreve a experiência, que vivifica a história, marcada pela nossa História de povo negro, marginal e silenciado, que pela letra de Cidinha e dos mais velhos que nela escrevem, pelos noves pentes, se desubalterniza. Nossa abolição se celebra também agora, quando plenamente nos vemos representados na sua fala, sujeitos não só da nossa história, como de nossa representação na arte e na literatura.

 A propósito: meu primeiro contato com Cidinha, há um pouco mais de um ano atrás, na FLAP, foi entrecortado por mim, por uma frase bombástica: “Não é o fato de ser negra, lésbica, pobre e morar na rua de trás que faz de uma autora uma grande autora”. Frase esta seguida pelo seu olhar, prescrutador e indagativo. Hoje me auto-ironizo e declaro: Enganei-me, felizmente!"

* Emerson é professor de Literatura na Universidade de São Paulo - USP). 
Texto publicado originalmente em março de 2010.
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