Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

Postagens populares

Visualizações de páginas da semana passada

Google+ Badge

Translate

11 de jan de 2013

Cidinha da Silva comenta a crítica de Ricardo Riso a Oh, margem! Reinventa os rios!



Por Cidinha da Silva 

É bom começar o ano recebendo uma crítica consistente ao nosso trabalho. Pouco importa se gosto ou desgosto, concordo ou não. O fundamental é que haja argumentos, leitura atenta da obra, desvelamento de mistérios.

Uma incursão desta revolve a terra quando o crítico afirma: O texto de Cidinha atinge o cânone literário, é transnegressor no sentido de buscar uma dicção própria dentro da literatura negro-brasileira, ao procurar tratar as tensões raciais com sutileza, conseguida em vários momentos”.  Quando não terá conseguido? Onde morreu na praia? Só afirmações dignas de crédito levam autoras e autores a perguntas desestabilizadoras.

Causou-me surpresa o terceiro eixo do Margem, criado pelo crítico: “incursão de negras e negros na universidade”. A estranheza se deu porque compreendo um eixo de uma obra literária como um conector-articulador, algo que amealha convergências. Nesse sentido, a escolha de tal eixo em Oh, margem! Reinventa os rios! é política, mais do que qualquer outra coisa, em detrimento, inclusive, de um esperável eixo de gênero, gênero e sexualidade ou talvez um terceiro, tão importante quanto, de frugalidades. Mas, trata-se de uma leitura legítima e válida, uma interpretação a partir dos valores e concepções de quem lê a obra, acima de qualquer concepção da autora. E que ela motive outras leitoras e leitores, como vem acontecendo.

É curioso como as diferentes leituras subvertem uma crônica. Para a autora, a universidade é o cenário para desenvolver a história “Solidariedade”, apenas isso. Está distante de ocupar o foco central, representado por conflitos de gênero, intra-gênero, vividos por duas mulheres negras em espaço universitário tenso, também pelos aspectos ressaltados pelo crítico (ausência ou presença subalternizada de negros nas universidades brasileiras e/ou presença que incomoda), mas, principalmente, porque o homem negro, objeto do desejo das duas mulheres em tela, “trocou uma pela outra” porque, uma vez mestrando, julga-se objeto de maior valor no mercado afetivo. Escolhe, então, para parceira, uma mestranda, que tem tanto valor social quanto ele. Este conflito intra-racial, um pouquinho mais complexo do que o significado político da presença negra na universidade é que mereceu luz forte no caminho narrativo escolhido pela autora. A universidade, ali, é um cenário, como outro qualquer e, como tal, mereceu atenção para caracterizá-lo subjetivamente, para além de descrevê-lo como espaço físico determinado.

Entretanto, o crítico, em leitura político-racial da crônica, destaca aquilo que julga mais importante e que dialoga com seus próprios interesses e saberes. E isso é a realização da literatura, não? O novo que nasce da leitura que se faz da escrita.

Dentre o que gostei (quase tudo), embora isso não seja o mais relevante, o importante é a consistência da crítica, destaco os comentários de Ricardo sobre as cinco crônicas que compõem o bloco “Colônia Africana em Porto Alegre”.  Este conjunto textual efetiva a idéia de Diáspora africana, da liberdade que a autora mineira confere a si mesma para abordar a vida e os modos de viver de negros gaúchos, do desafio para encontrar a própria  voz narrativa em meio a depoimentos e fotografias.

As crônicas “Carnaval”, “Os bailes”, “As lavadeiras”, “A benzedeira” e “Povo de santo” foram encomendadas  para o livro Colonos e Quilombolas, de 2010 (edição de Irene Santos e outras autoras). Este tem como tema geral, o desbravamento de um território que se iniciava na atual Cidade Baixa da capital gaúcha e passava pelos bairros Bom Fim, Mont’Serrat e Rio Branco, estendendo-se ao Três Figueiras, onde ainda subsiste o Quilombo dos Silva, reconhecido pelo Governo Federal, mas, diuturnamente contestado pela vizinhança, como é regra no tratamento dado aos quilombos, urbanos e rurais, em todo o país. Apesar de ter suas ruas inscritas nos mapas do século XIX, a região, popularmente conhecida como Colônia Africana, nunca foi oficializada pela Prefeitura como um bairro da cidade. Os depoimentos e as fotografias da publicação contam uma história de resistência e reinvenção da vida na busca da humanidade plena, roubada pelo racismo. Os moradores da Colônia Africana alertam, por exemplo, que os porto-alegrenses gostam de pensar que os judeus foram os primeiros habitantes do bairro Bom Fim. Não foram não. Os negros chegaram antes, bem no início do século XX. Aos poucos foram imprimindo suas marcas nas festas populares e de origem religiosa que envolviam os imigrantes europeus, também moradores do bairro. A região era povoada por homens e mulheres negros qualificados para diferentes ofícios: trabalhadores/as domésticos/as, tais como jardineiros, cozinheiras e damas de companhia; acendedores de lampião, roçadores de terrenos, lavadeiras, benzedeiras, condutores de carros e bondes, costureiras e músicos, dentre os predominantes. A autora procurou trazer essa ambiência para os textos.
As crônicas escritas para Colonos e Quilombolas não tiveram tempo para a revisão merecida, dada a premência da publicação e a entrada tardia de Cidinha da Silva no projeto. Republicá-las em Oh, Margem, entretanto, possibilitou a revisão criteriosa.

Tenho fortes restrições à crítica literária destinada às autoras e aos autores negros, produtores de literatura negra no Brasil, pelos seguintes motivos: por um lado verifica-se a abordagem canônica que despreza este fazer como genuinamente literário, enquadrando-os na categoria de relato de vida, depoimento pessoal, auto-biografia lacrimosa, textos menores, enfim. É uma crítica que não escrutina a obra, restringe-se a abordá-la de maneira superficial, insuficiente. De um modo geral, concentra-se mais na biografia “sofrida” e na legitimidade que pessoas com o perfil social de “guerreiros-escritores-negros” têm para escrever.

Por outro, entre os críticos negros e outros orientados por uma visão convulsiva dos ditames canônicos desenvolveram-se cacoetes, a saber: uma ênfase (positiva) à biografia da autora ou autor negro, principalmente àqueles aspectos que a/o vinculam ao ativismo político de combate ao racismo; uma postura condescendente em relação aos problemas de descontinuidade de texto, inconsistência literária e personagens frouxos que muitas de nossas obras apresentam; uma preocupação mais detida com a temática que, sob esse ângulo de visão, deve (preferencialmente) circunscrever-se ao combate ao racismo e a uma afirmação de africanidade vinculada à compreensão expressa pelo Movimento Negro, em detrimento de uma atenção à ética/estética do texto, dentre outras questões. Ou seja, tem sido uma crítica que confunde o apoio e respeito a autoras e autores negros, bem como o enfrentamento dos preconceitos canônicos, com certa benevolência em relação à obra da autora ou do autor negro, que, em última instância, os diminui como produtores de arte e os guetiza novamente. Desta feita, um gueto proposto pelos de dentro.

Há ainda os limites de muitos críticos, presos aos clichês interpretativos por falta de envergadura e repertório para fazer os vôos mais complexos exigidos por determinados textos. Bom exemplo disso é a crítica absolutamente rasteira e insatisfatória feita às dimensões raciais da obra de Paulo Lins, Ricardo Aleixo e Elisa Lucinda.

Este tipo de crítica não "ajuda quem escreve a desvendar os próprios processos de criação", para parafrasear o nonagenário André Carneiro, um dos pioneiros na criação da literatura de ficção científica no Brasil. A crítica de Ricardo Riso a Oh, margem! Reinventa os rios!, por sua vez, tem fundamentação ética e estética, não chafurda no opinativo "gosto ou não gosto e por isso o trabalho é bom ou ruim".

Em tempo, Cidinha da Silva aborda homossexualidade/lesbianidade em algumas crônicas do livro, faz oposição frontal à heteronormatividade ao longo da obra, e, nem por um momento, sequer, utiliza o insepulto “homossexualismo feminino e masculino”, seja como conceito de garras pegajosas, seja como semântica vazia de significado político para representar a gente LGBT. 
Postar um comentário