Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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27 de jan de 2013

Sobre o legado de Sabotage



Do Portal Áfricas
Há 10 anos o eterno maestro do Canão continua fazendo eco pelas periferias do Brasil
São Paulo é a terra dos contrastes e também o lugar onde tudo começou e acabou na vida de Sabotage. Ele ficou conhecido como o Maestro do Canão, mas foi na favela do  Boqueirão, também na Zona Sul de São Paulo, que Mauro Mateus dos Santos viveu os últimos anos de sua vida.
Na manhã de 24 de janeiro de 2003, quando o assassino de Sabotage apertou o gatiho e disparou quatro tiros, muitos acharam que a história do Maestro do Canão havia chego ao fim. Mas as balas de um revólver podem matar um homem, não um mito. Sabotage continua vivo e seu rosto estampado em camisetas faz com que sua presença seja marcante. Suas rimas serão lembradas por todas as gerações do hip-hop e o legado que ele construiu jamais será apagado.
Dez anos se passaram e a história de Sabotage continua sendo escrita. Um novo disco, com músicas inéditas, um documentário e um filme, são alguns dos projetos protagonizados por ele.
Sabotage teve três filhos, Larissa, Tamires e Wanderson, os dois últimos com Dalva, com quem era casado quando morreu. A família continua  morando no Boqueirão e foi lá que abriram a porta da casa simples, localizada no meio da viela,  para  compartilhar um pouco das lembranças, saudades e novidades sobre Sabotage.
A saudade de Sabotage ainda dói no peito de milhares de fãs espalhados pelo país inteiro, mas é na casa onde eles moravam que estão as pessoas que mais sofrem com sua ausência. . “De 2003 para cá foi uma época difícil, não ficamos bem de vida, trabalhamos como pessoas normais, mas não passamos necessidades. Tivemos que aprender a viver sem meu pai. Antes dele ser o Sabotage era o Maurinho, meu pai. Eu era pequeno, mas me lembro dele chegando em casa a noite depois dos shows, ensaiando junto com o pessoal do RZO, as visitas dos caras do RAP. A  Dina Di era muito amiga dele vinha aqui em casa também. Eu mesmo só me dei conta da fama dele, depois que o vi  no jornal e na MTV recebendo o prêmio. Até então ele era apenas o meu pai”, nos confidencia Wanderson, conhecido como Sabotinha.
O Maurinho antes de virar o Sabotage e mostrar para o mundo que um bom lugar se constrói com humildade, teve que enfrentar na pele o racismo, o preconceito, a violência e opressão do sistema. Passou por debaixo de muitas catracas de ônibus, levou muito enquadro da polícia e chegou ao ponto de ter que pagar para cantar. Um começo difícil, doloroso, mas que o guerreiro soube enfrentar. Sabotage era despreocupado e não media esforços para conseguir o que queria.
Desde muito novo já mostrava que as barreiras foram feitas para serem ultrapassadas. “Meu pai era muito travesso, deu muito trabalho para o meu tio Deda (risos), que também já é falecido. Foi meu tio que o apelidou  de Sabotage.  Quando ele ainda era menor de idade e não podia entrar nas baladas ele teve a ideia de  pegar a carteira de identidade do meu tio Deda e trocar as fotos para pode sair a noite. Depois de um tempo meu tio descobriu, ficou bravo,  reclamou muito e e falou que ele só fazia sabotage. Depois disso o apelido pegou e os meninos da rua também começaram a chamá-lo assim. Meu pai acabou gostando do apelido e assim que surgiu o vulgo Sabotage”, relembra Wanderson.
E o menino travesso da zona sul conquistou seu espaço no RAP NACIONAL de forma avassaladora. O talento misturado com a humildade e o sorriso acolhedor se espalharam rapidamente.
Cantor, compositor e ator, Sabotage era muitos em um só, compôs dezenas de músicas e algumas se tornaram hinos pelas periferias do Brasil. A arte de Sabotagem continua sendo usada por vários artistas em forma de  samples, colagens e scratches de suas músicas.
O maestro do Canão chegou a um nível de sucesso tão imenso, esbanjando o verdadeiro talento vindo da periferia que nem a grande mídia conseguiu camuflar seu brilho.Sabotage teve várias aparições na mídia, entre matérias, entrevistas, participações em programas de televisão. Em uma época onde o RAP NACIONAL praticamente era ignorado pela imprensa, Sabota com toda a sua negritude e talento, soube ir e mostrar para o sistema o que era o RAP NACIONAL, maior expressão musical das perifeiras brasileiras, e provou que respeito é pra quem tem. “Depois que ele participou dos filmes Carandiru e Invasor e das grandes participações nas músicas do B. Negão, Charles Brown Junior, entre outros, a mídia voltou os olhos para o meu pai. Ele era muito humilde, podia ir ao Morumbi, Perdizes, onde quer que fosse. Ele não ligava se o cara era favelado ou playboy. Ele trocava ideia com todo mundo, ele tinha um coração doce com as pessoas”, comenta Sabotinha.
Um dos mais promissores rappers do Brasil que andava pelas ruas com a cabeça erguida e o coração tranquilo, não teve tempo de perceber que o ser humano é traiçoeiro e pode chegar mascarado por trás. Foram quatro tiros pelas costas e o último suspiro de quem a partir de então deixava de ser carne e osso para se tornar um mito do RAP NACIONAL.
Sabotinha era apenas uma criança quando tudo aconteceu, mas lembra-se muito bem. “Eu fiquei sabendo pela televisão. Quando vi a notícia até pensei que era engano, que estavam confundindo meu pai com outra pessoa. Então eu liguei para minha mãe e ela já estava no Hospital São Paulo. Nesse momento comecei a chorar e quase entrei em depressão. Muitos dizem que foi vingança, acerto de contas, mas foi à inveja que matou meu pai. O Datena falou coisas que não eram verdades, até no programa de Frente com Gabi ela falou mentiras. As pessoas acham que foi por causa de drogas que ele morreu, mas não é verdade, foi à inveja que motivou o crime”, desabafa. O enterro de Sabotage reuniu cerca de 4 mil pessoas, entre rappers, artistas, fãs, e imprensa. Uma multidão foi se despedir do maestro do Canão que a partir de então entraria para o seleto grupo dos eternos.
Não estamos exagerando quando afirmamos que Sabotage virou uma lenda, mesmo após dez anos de sua prematura partida o rapper continua fazendo eco e  permanece pulsando cada vez mais forte. “As pessoas sempre perguntam das músicas, o que eu ando fazendo, quando terá novidades do meu pai. É pela humildade e talento que meu pai é lembrado e considerado até hoje. Ele foi um dos melhores MCs que o Brasil já teve. Até hoje vou aos shows de RAP e sempre tocam músicas dele, sempre tem alguém usando uma camiseta com o nome dele. Eu fico orgulhoso,  afinal ele é eterno. Até me arrepio só de falar”, desabafa Sabotinha, com os olhos cheios de lágrimas.
Se para os fãs que até hoje se lembram, cantam as músicas e vestem a camisa foi difícil a dor da perda, esse sofrimento é muito maior para a família de sangue. “Imagina o dia dos pais, você liga a televisão e só tem comercial de pais e filhos juntos, você vai ao parque, restaurante a mesma coisa, os filhos e os pais juntos, aí a dor aperta o coração entende?. Crescer sem pai é terrível, mas eu penso assim que ele foi viajar, que ele tá viajando para tentar não sofrer tanto. Porque se não a mente fica só pensando bobagens e isso não faz bem”, finaliza Sabotinha.
Rappin Hood e Sandrão RZO foram os responsáveis por resgatar Sabotage para o RAP e até hoje são amigos e sempre que possível ajudam a família. O eterno Sabota que se inspirou primeiro em seu irmão Deda, que também cantava RAP, deixou para Sabotinha e para Tamires o amor pelo RAP. Tanto que os dois irmãos, que sabem da responsabilidade de levarem o nome do pai, atualmente fazem shows e palestras.
O nome de Sabotage e suas rimas inteligentes, cheias de ensinamentos, continuam fazendo eco. Uma geração cresceu ouvindo o rapper, muitos nem se quer tiveram a chance de vê-lo cantar, mas mesmo assim a história segue.
Porque a inveja pode matar o homem, mas nunca matará suas ideias e rimas como: O rap é compromisso, não é viagem e um bom lugar se constrói com humildade, estão para sempre eternizadas na história do RAP NACIONAL.
E o hip-hop só tem a agradecer ao maestro do Canão por tudo que foi ensinado e deixado marcado para sempre.
O legado de Sabotage continua
Sabotage escrevia músicas com imensa facilidade, afinal o RAP corria no sangue e deixou várias letras inéditas gravadas. O novo disco, com 14 faixas.
O disco terá participações especiais de peso:  B. Negão, Charlie Brown Jr, Racionais MCs, RZO, Rappin Hood, Ao Cubo, MV Bill, Sistema Negro, SNJ e Ndee Naldinho, são algumas delas. As músicas deste novo trabalho já estão prontas, restando apenas pequenos detalhes. Todas as letras são de autoria de Sabotage, algumas partes há registro da voz dele cantando e nas partes que ele não pode gravar, entram as participações.
Um documentário sobre a vida de Sabotage também esta previsto para ser lançado.  O vídeo, que esta sendo produzido por Ivan 13 Produções e se chamará “Mauro Mateus dos Santos o Sabotage”, terá um depoimento inédito de Sabotage e  também entrevista com diversos rappers que acompanharam a carreira do Maestro do Canão.
Outra novidade é um filme que será dirigido por Walter Carvalho, que já fez o documentário “O Início, o fim e o meio”, sobre a  vida de Raul Seixas.  A ideia surgiu do produtor de cinema Denis Feijão e do ator Daniel de Oliveira. A ponte entre a produção do filme e a família de Sabotage foi feita por Rappin Hood que os levou até a favela do Boqueirão para apresentar a proposta, que foi aceita pela família. Algumas reuniões sobre o filme já foram realizadas e as gravações devem começar em breve.
Por Paula Farias | Fotos do Sabotinha Toni C. | Matéria publicada originalmente na Revista RAP NACIONAL
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