Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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17 de jan de 2013

O amor da novela



Por Cidinha da Silva

Passei uns dias em festa, outros dormindo com as galinhas e acordando com o alarido das saracuras e deixei de assistir a vários capítulos de Lado a lado. Não tinha televisão, a internet oscilava e havia um único modem, além de um tablet de bateria preguiçosa para quatro pessoas, portanto, a mim, em férias, restou a utilização básica e essencial da máquina, enquanto outros trabalhavam.

Quando voltei à telinha, depois de ler o resumo do suposto capítulo do dia, esperava que Isabel e Zé Maria finalmente superassem os obstáculos e passassem à próxima etapa do amor, a construção da vida juntos, mas isso só viria uns quatro ou cinco capítulos depois. Entretanto, me deleitei com a poesia do encontro de Isabel e Zé Maria. Ela pegava o açucareiro para adoçar o próprio café, e Zé, o cavalheiro, argumenta que não tinha tostão para pagar a bebida de ambos, mas gostaria de, pelo menos, passar o açucareiro (metáfora do doce da vida) às mãos da amada. Ela aceita e pede desculpas, é que está se acostumando a ser sozinha. O açúcar a desperta e Isabel diz ao amado: Zé, eu não quero me acostumar, não. E ele vai embora, corre para fugir ao constrangimento de não poder pagar o café, mas ao mesmo tempo move-se em direção ao trabalho que lhe dará dignidade e recursos (exigidos por ele mesmo) para interromper a solidão de Isabel.

Vi a cena e pensava naquilo que nos move nas novelas, no quanto aquele casal realiza nossos amores frustrados, inalcançáveis, platônicos, surreais. O amor da novela renova a esperança de que o nosso amor seja possível, de que o sexo com o marido não seja mais uma obrigação doméstica no fechamento do dia.

O amor da novela nos permite o sonho do beijo-acalanto, bálsamo depois do insulto do patrão, do transporte enguiçado na chuva, do aperto no trem, do corpo esburacado estendido pelo caminho, do jornal da noite que detalha as mortes individuais violentas e chacinas da noite anterior.

O beijo da novela nos restitui a humanidade, a dignidade, o desejo. Não é ópio, é sonho de padaria, o doce que se pode comprar clicando o power da TV.  
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