Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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25 de dez de 2008

"Assim canta meu galo"

(Por: Elisa Lucinda). Daquele natal lá de casa da minha infância,/ guardo o batimento cardíaco daquela véspera./ A surpresa dos presentes sobre os sapatinhos,/ o cheiro de plástico novo que vinha da carne cheirosa e macia das bonecas novas,/ a alegria dos meus irmãos,/ guardo o meu pai pintando a casa nas anti-vésperas/ que moram nos começos de dezembro,/ guardo o peru gostoso com farofa/ e todo o teatro da tragédia que antecedia sua morte para a nossa ceia./ (Sou da horda dos humanos que comemoram assim essa passagem),/ por isso vos falo:/ Guardo a certeza do vestido novo/ e uma música que castigava muito meu coração,/ a ponto de eu chorar, como até hoje o faz:/ “Eu pensei que todo o mundo fosse filho de Papai Noel.../ Papai Noel, vê se você tem a felicidade pra você me dá?”/ Abria logo meu brinquedo de chorar./ Essa música toca na praça pública da infância, da minha vida,/ num alto falante que até hoje me leva a ponto de soluçar./ Sei lá./ Parecia que nessa hora o mundo todo ficava pensando que era bom./ E o mundo ficava mesmo bom./ Parece, até hoje!/ Mesmo sabendo que se aproveita do sonho de ser bom,/ de fazer o bem, de caprichar considerando a existência do outro,/ se aproveita disso para se fazer comercial./ A cegueira do dinheiro./ A cegueira mais banal./ Enfraquece o movimento./ Meu sentimento é de que muitos, muitos natais moram em mim./ Penso que foi uma aula de esperança que eu recebi./ Como na minha infância ser pobre não era ser miserável,/ no Brasil capixaba que me cabia,/ eu pensava que quando ouvia aquela canção/ ”Eu pensei que todo o mundo fosse filho de Papai Noel”,/ me fazia crer que ele era uma espécie de Deus da justiça/ e certamente daria brinquedos para as crianças pobres também./ E era verdade./ Nas casas pobres da minha cidade,/ também tinha o retrato da alegria no quintal ou no terreiro em frente a casa./ Eu via meninos e meninas pobrezinhos,/ com a renda bem distribuidinha em forma de brinquedos mais simples,/ mais baratinhos e por isso mesmo,/ mais brinquedo assim./ Natal pode ser aula de solidariedade da vida então!/ Que coraçãozinho de criança iria acreditar que não?/ Quem que iria supor que a injustiça golpeasse ainda tanto?/ Posto isto, fora as severas palmadas de minha avó,/ poucas vezes me encontrei com a tristeza quando eu era criança./ Poucas vezes me encontrei com um pouco da estupidez/ que minha ingenuidade sabia sobre o mundo/ e um pouco da brutalidade desse mesmo mundo./ Achava que existia algum horror,/ mas nunca a ponto do mal poder vencer a batalha./ Por isso cresci fabricante de sonho e querendo aprender a produzir a paz./ (Sou da horda dos humanos que acha que pode mudar o jogo)./ Como sou errante,/ guardo essa sensação reluzente/ de pisca-pisca na árvore agradando a memória./ Guardo essa glória - o bordado em ponto-cheio e ponto- atrás,/ tramado ao jardim da toalha./ Dessa data guardo esse desejo de alegria,/ de agasalho, de fartura em todas as mesas do mundo./ E guardo essa madrugada para o dia principal, ardendo no meu peito!/ E é desse jeito./ Ainda dá pra salvar o mundo./ Todo o homem, em qualquer tempo, pode estar a ponto de renascer!/ Tudo pode ser sonhado antes de acontecer./ Já passa de 2000, quase 2010, você não vê?/ Canta, meu galo, canta,/ palavras existem para esclarecer!/ Agora, dentro do batimento cardíaco desta véspera,/ mas na madrugada daquela hora,/ vontade me dá que se receitasse versos para o mundo tomar,/ o mundo é um menino que nos escreve uma carta,/ pedindo para a gente dele cuidar./ Ainda hoje, quando faço isso que acabo de escrever,/ me sinto eu papel Noel sobre o telhado,/ portando esse poema para você e tendo que chegar com ele vivo às tuas mãos,/ antes do amanhecer. (Elisa Lucinda. Natal de 2008).
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