Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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27 de dez de 2012

Entrevista de Cidinha da Silva a *Marcos Fabrício - Parte I



1. Em que sentido a literatura pode contribuir para uma expressão mais plena da alteridade?
Creio que no sentido da representação  profunda de quem compreende a si mesmo como indivíduo livre. No meu caso, em especial, a literatura é deveras libertadora e vou sentindo isso a cada livro, a cada crônica diária. Meu primeiro livro, o Tridente, ainda é de um tempo em que eu me considerava artivista. O Tambor também tem resquícios, mas melhorei bastante em relação ao primeiro livro. Hoje me sinto cada dia mais livre dos tons militantes e quando os adoto é de maneira muito consciente. Entretanto, não é uma batalha fácil, preciso estar atenta todo o tempo. Bom será o tempo em que as coisas apenas fluírem, em que eu não precise prestar atenção às armadilhas de uma manifestação identitária que aprisione. 
2. Quais são os principais vetores de criação que estimulam o seu fazer literário?
A observação é o principal deles e a partir dela eu crio. A espiritualidade e a memória são também vetores importantes. Mais recentemente, o sentimento amoroso para a construção de poemas bissextos, alguns bobos, um tanto ingênuos, outros levemente eróticos e um ou outro, um bom poema. 
3. Como se desdobram os seus ritos de escrita?
Sou uma pessoa solar, gosto do dia, então, meu melhor horário para criar é pela manhã. São minhas melhores horas do dia que procuro aproveitar para escrever. 
Não uso drogas ou qualquer outro tipo de estimulante/relaxante como o objetivo de potencializar a escrita, a criação produz endorfinas suficientes. Desculpem se parece uma afirmação desnecessária, mas outro dia me perguntaram, de maneira muito incisiva, que droga eu havia usado para escrever o Kuami. Fiquei muito surpresa porque a pergunta partiu de um escritor. 
O silêncio é algo essencial, mas às vezes ouço música, seja por ter vontade de ouvi-la, seja para anular barulhos externos. Quando estou escrevendo uma história longa, defino horários e/ou número de páginas para escrever por dia. A primeira coisa funciona melhor do que a segunda. Quando organizo um livro de crônicas, também defino horários e nestes escrevo pelo menos um texto por dia e reviso os que foram escritos nos dias anteriores, até que ache que é tempo de descansarem, até enviá-los a meus leitores e leitoras críticos. 
Não costumo escrever a esmo, de um modo geral estou sempre pensando em algum projeto de escrita, em uma coleção de textos orientada por um determinado mote.  Por exemplo, trabalho agora, simultaneamente, em dois livros de crônicas, o que ficará pronto primeiro é de trivialidades, aquilo que tenho vontade de abordar/criticar/problematizar/esmiuçar/re-significar e o segundo é um livro mais amoroso, com uma pegada  intimista e poética. Para cada um desses livros tenho uma lista de motes de criação dividida em 3 estágios: 1 - ideias, propriamente, temas pouco desenvolvidos; 2 - desenvolvimento da ideia / primeiras versões do texto; 3- ourivesaria que é quando texto vai sendo burilado, quando o grosso está pronto, é a fase de refinar, encontrar as palavras e verbos adequados, aparar arestas e cortar gorduras que ainda subsistem, de transformar expressões previsíveis e corriqueiras em expressões poéticas. 
4. Considerando a complexidade de construção literária, você destacaria quais personagens em sua obra? Por quê?
Os homens do Pentes, todos, João Cândido, de modo especial, menino de 12, 13 anos, cuja masculinidade vai sendo construída no espelho dos outros homens da família. Onirê também é um personagem forte e bem acabado. Ele é cheio de contradições humanas, espelho de seu pai, Ogum, que talvez seja o mais humano dos deuses iorubá. 
Kuami é um carinha amoroso que subverteu a história da sereia Janaína, que era o que eu pretendia contar, a princípio. Cassiano, em O super e Máximo, em O prisioneiro, crônicas do Margem, também são complexos e bem construídos. Há diversas personagens femininas também, mas, sobre elas já discorri detidamente em outra entrevista também postada por aqui. Acho que os personagens são mais densos, quanto mais arquetípicos consigo torná-los. Os que mencionei acima são arquétipos, mais do que indivídualidades. 

5. Comente o processo de transposição literária das culturas brasileiras e africanas como referenciais tão caros à constituição de sua literatura.
6. Quais são os procedimentos estéticos adotados por você na composição de seus textos?
Responderei as questões 5 e 6 juntas. É um processo que tem dimensões intuitivas, espirituais e vivenciais e outras tantas do campo da racionalidade também, quando existe da minha parte, intenção de trazer determinados temas ou criar certos personagens. As africanidades, a África reinventada na Diáspora e a África mítica são mananciais inesgotáveis, nos quais me alimento diuturnamente e os processo em minha vida, numa proporção ainda maior do que em minha literatura. Outro dia conversava com um grande poeta que se define como poeta... e negro. Eu dizia a ele que sou negra... e escritora. Esse é meu lugar de emissão de voz. Minha subjetividade é negra, minha humanidade é negra e minha alma não pode ser outra coisa que não seja negra. E isso é o que tenho de melhor e de mais universal para oferecer às pessoas que me leem. É importante dizer que minha literatura NÃO É DE COMBATE AO RACISMO! É uma literatura de promoção do humano do ponto de vista afro-centrado da mulher negra que sou.
7. Destaque e comente um momento da sua produção literária que tenha emocionado você especialmente.
A criação de Os nove pentes d'África foi especialíssima. Como tenho dito, dentre os meus livros, foi aquele que me deu a certeza de ser escritora, de verdade. Ele é especial também pela temática, a família de Francisco Ayrá e Bernardina. As famílias negras e suas dinâmicas, múltiplas, pois não existe um modelo monolítico de família negra, precisam ganhar a cena. Há muito a ser contado, desvendado, apreciado. Eu contei uma história, uma entre tantas. Lembro-me que ouvi muito o CD Tecnomacumba da Rita Benneditto enquanto escrevia. E no último dos 5 dias corridos em que escrevi o livro, não foi diferente. No parágrafo final do texto, enquanto as cinzas de Francisco eram depositadas na pedra mais alta da cachoeira das andorinhas e João Cândido gritava ao vento e às águas o nome de Kitembo, mais novo membro da família, nascido da prima Luciana, Rita cantava para Oxalá. Isso me emocionou muito. 
* Marcos Fabrício Lopes da Silva. Jornalista, poeta e doutorando em Estudos Literários/Literatura Brasileira pela Faculdade de Letras da UFMG. 
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