Bate-papo no PAF I da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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19 de dez de 2012

Entrevista de Cidinha da Silva ao Correio Braziliense


Gabi Almeida - Quando começou a escrever?

Cidinha da Silva - Escrevo desde a adolescência, mas comecei a publicar literatura aos 39 anos, em 2006. Antes disso publiquei muitos ensaios sobre relações raciais, gênero, ações afirmativas, dentre outros temas.


Gabi - Seus textos chamam a atenção por diversos fatores, mas um deles é a profunda análise que você faz de questões negras inseridas no universo do entretenimento. A figura do negro na tevê e nas artes é algo que sempre te chamou a atenção?

Cidinha - Sim, embora eu não seja rato de TV como pareço ser. Na verdade, assisto aos programas que me interessam e comento-os porque são matéria para minhas crônicas diárias no blogue. Não consigo assistir, por exemplo, o programa de sábado à noite que tem uma personagem que avilta 
a dignidade das mulheres negras. Assistiria só se tivesse encomenda de um texto a produzir sobre isso, mas por interesse, não vejo não. Eu olho a TV e o mundo com olhar de cronista, olhar perscrutador. Quanto à nossa presença nas artes é o meu campo de trabalho, não é? Preciso participar dele de maneira crítica.

Gabi - Quando foi seu primeiro contato com a música de Ellen Oléria?

Cidinha - Eu ouvia falar da Ellen desde 2007/2008. Temos amigas comuns no DF, mas nunca rolou de nos encontrarmos.  Em 2009, uma amiga foi a um show dela, comprou o CD e me apresentou. Ouvi só uma vez e fiquei tomada pela doçura da voz, essa foi minha primeira sensação. Depois passei a vê-la na Web e fui selecionando o que mais gostava no repertório. Minhas canções prediletas são Haiti e Janaína. Esta última é uma epifania iorubá. Havia uma sensação que só Concha Buika me provocava e Ellen também me traz ao interpretar Janaína, a de que ela abriga a dor do mundo febril e tragicamente apegado a seu canto como sopro derradeiro de vida.

Gabi - O que nela te chamou mais a atenção? Você sempre acompanha realities shows?

Cidinha - A primeira coisa que me chamou a atenção em Ellen é sua presença oceânica. A existência de Ellen Oléria inunda os ambientes. A segunda é a ancestralidade de seu canto. A ancestralidade é aquilo que nos precede e também o que nos apresenta ao mundo. O canto de Ellen é ancestral, ele existe antes de nós e nos abre as portas do mundo com a candura dos pássaros e das flores. A terceira coisa é como ela é capaz de espalhar amor ao cantar. É uma energia de bem-querer, de beleza, de fartura. A força do canto de Ellen, a meu sentir, é comparável à força da prosa de Paulina Chiziane e da poesia de Elisa Lucinda. Quanto a realities shows, não assisto. O último que me lembro foi um Big Brother, logo nos primórdios, numa fase depressiva em que eu era umvegetal murchando em frente a TV. Esse agora, assisto porque a Ellen está lá. A coisa boa é que, além de vê-la ao vivo, semanalmente, descobri outros cantores e cantoras interessantes. Acho que está sendo um bom programa. 

Gabi - Como é a sua torcida? Você sempre vota muito?

Cidinha - Voto, voto muitíssimo e faço campanha para expandir a base aliada durante a semana. 

Gabi -  Você pretende torcer para ela neste domingo em algum lugar especial? Está se preparando para isso?

Cidinha - Vou assistir em casa, como sempre faço. Nessa final, com amigas, como em jogo de Copa de Mundo. A preparação é me certificar de que cada convidada trará uma ferramenta habilitada para votar no mínimo 21 vezes, esse é o valor do ingresso. 

Gabi - Qual é o papel de Ellen como mulher, negra e lésbica na final de um programa dominical de uma emissora como a TV Globo? Você acha que a grandeza de Ellen vai além disso?

Cidinha - Ellen é atlântica, é desmedida. O papel dela é auto-determinado. Só a ela cabe dizer a que veio, a mais ninguém. Quem sou eu, quem somos nós para dizer onde deve ir um oceano?! Entretanto, é patente o fato de vivermos em um país racista, sexista, lesbofóbico, do qual a Globo é um dos principais tentáculos. A História faz alguns desafios a Ellen, que parece encará-los tranquilamente. Faz muito bem à alma d@os inconformad@os com esse estado de coisas, a existência artística e política de Ellen Oléria. No programa, especificamente, Ellen abriu um leque de amor e arte ao apresentar a namorada ao público, junto com a mãe, que já conhecíamos, enquanto cantava: "deixa... que falem, que digam! Deixa isso pra lá, vem pra cá, o que é que tem?" Ellen faz arte e política pelo direito humano de expressar seu amor pleno. Ellen é também magma e na leitura poética que faço da palavra, invento que ela compõe o radical da expressão magnânima. Ellen chega aos nossos corações assim, como magma incandescente que dissolve tudo o que deve ser dissolvido: dor, mágoa, tristeza, desamor e quando passa, deixa a terra fertilizada para florescer e frutificar. Enquanto isso, na Câmara dos Deputados, o ogúnico (porque se veste de Ogum e é único, singular) Jean Willys luta também pelo direito à expressão da plenitude amorosa, no campo da política, estrito senso. Seja ao enfrentar os profetas que pregam a extinção da diversidade humana, ou ao formular e aprovar leis que protejam o amor entre iguais. Afora isso, Ellen é compositora, herdeira de gente como Dolores Duran, Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Joyce, Fátima Guedes e repaginada pelo vento da juventude. Do lado de cá, já ratificamos Ellen Oléria como primeira ministra da CPP - Confraria das Pretas Poderosas. 

Gabi - Fique à vontade para mais considerações 

Cidinha - Eu gostaria de registrar que Brasília, além de gerar artistas divinos como Ellen Oléria, Hamilton de Holanda, Cris Pereira e Dhi Ribeiro, tem o melhor pão de queijo que a gente encontra fora de Minas Gerais.
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