Bate-papo no PAF 3 da UFBA (Ondina, Salvador) - 13 de julho de 2017

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30 de dez de 2012

Entrevista de Cidinha da Silva a Marcos Fabrício - Parte II


  • 8. Aponte um conjunto de artistas e obras com o qual você dialoga em seu processo de escrita. Exemplifique, a partir da sua obra, como se deu esse diálogo.
    É bem difícil, mas vou tentar. Nas crônicas de Paulo Mendes Campos, aquelas selecionadas para crianças e adolescentes, na antiga coleção Para Gostar de Ler, da Ática, me encantava  a poesia e isso sempre persegui nas minhas crônicas. Estou preparando um livro novo, cuja pegada é a prosa poética. Quero que o livro doa de tanta poesia. 
    De Drummond me fascinam a leveza e a liberdade temática (busco as duas coisas e deixo para você e para os demais leitores e críticos avaliarem se estou conseguindo ou não). Do poeta de Itabira gosto muitíssimo de Fala amendoeira e Cadeira de balanço! De Fernando Sabino gosto do fôlego para criar crônicas longas. O Encontro marcado foi um daqueles livros que tornam nossas experiências que não tivemos.
    Quando conheci Adélia Prado foi um alumbramento. Eu tinha uns 17 anos e ouvi aquela mulher declamando "quando nasci / um anjo anunciou / vai carregar bandeira... vai ser coxo na vida é maldição pra homem / mulher é desdobrável / eu sou." Eu me lembro que isso  aconteceu num domingo à noite e na segunda-feira seguinte juntei todas as minhas parcas economias e depois da aula do 3o ano do ensino médio, fui para o centro da cidade e peregrinei pelos sebos à procura do Bagagem, primeiro livro dela, que eu li no ônibus de volta para casa e permaneci lendo e relendo por vários anos. Até hoje é meu livro de Adélia mais querido. Gosto muito também de Solte os cachorros e Cacos para um vitral. Adélia foi a primeira voz de escritora que ouvi dizendo coisas que dialogavam com minhas inquietações sobre amor, sexualidade, feminismo (sem "acusá-la" de ser feminista, por favor, me entendam).
     Antes de Adélia, quando tinha uns 15, 16 anos, O romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles também me marcou. Eu sempre tive paixão pela História e aqueles poemas longos, rimados, contando a história da Inconfidência Mineira me encantavam. Antes disso, quando tinha 12, 13 anos tive contato com a poesia ( e a música) de Vinícius de Morais num trabalho de Feira de Ciências (que naquela época começava a englobar o Português e outras disciplinas diferentes das Ciências Naturais) que envolvia os melhores trabalhos das escolas da Rede Municipal de Contagem e lá tinha uns rapazes, estudantes do noturno de uma dada escola, portanto mais maduros que a minha turminha, que apresentaram a obra do Vinícius. Não me lembro se ganharam, mas foi o trabalho que mais gostei e me marcou. A partir dali fui buscar Vinícius na biblioteca. Meus mantras da época eram Soneto de fidelidade e Valsinha, a música. Depois passei boa parte da vida emburrada com Vinícius, julgando-o machista e também detestava aquele negócio dele se dizer "o branco mais preto do Brasil", direito dele, mas me irritava. Só voltei a lê-lo depois dos 40 e concordo com João Cabral, ninguém falou  de amor tão bem quanto Vinícius. Como isso dialoga com minha produção? Meu texto é um texto amoroso, eu sei, mas, falar de amor sexualizado é algo que venho conquistando devagarzinho e, ler Vinícius me liberta. É um amor tão rasgado, descarado e belo, em que pese, realmente ser machista, muitas vezes. 
    Com 12, 13 anos também, conheci Machado de Assis e Lima Barreto e me interessei muito pelos dois, interesse que permanece. Do Machado à essa época, li Dom Casmurro e depois outros romances. Poesias e contos dele, só li bem mais velha. A linguagem rebuscada do Machado sempre enriqueceu meu vocabulário. Eu via as palavras que ele usava, entendia direitinho o sentido, robustecia-o com consultas ao dicionário e depois saía usando nas minhas redações, que eram rebuscadíssimas.  Do Lima li Os Bruzundangas, que escolhi na biblioteca pela sonoridade do título. Décadas mais tarde li toda a crônica do Lima. Como autor, ele sempre me intrigou. Eu queria conhecer a personalidade por trás da escrita. E quanto mais conheço o Lima, mais ele me dói. Acho que, no mundo, a gente se organiza em confrarias e eu sou taurina, como ele era. 
    Aos 14, 15, conheci Mário Quintana e adorei aquela poesia simples, tão acessível, sem ser simplista. São dessa época os versos: "todos esses que passam / e atravancam meu caminho / eles passarão / eu passarinho". 
    Edimilson de Almeida Pereira eu encontrei quando tinha exatos 20 anos. Foi um divisor de águas. Aquele menino, pouco menos menino do que eu, mas aquele espírito velho, tão maduro, tão íntegro, tão determinado. Aos 17, 18 anos, eu havia lido um livro chamado "Raça e cor na literatura brasileira" que me situou em relação á produção de autores negros no Brasil. Entretanto, Edimilson foi o primeiro poeta negro que me balançou. Eu conhecia Adão Ventura, conhecia os Cadernos Negros (não distinguia autores, só Mirian Alves, porque nos cruzávamos em umas baladas paulistanas), mas, se você me perguntar qual foi o primeiro poeta negro que me atordoou, que li a obra e me enterneci, descobri alguma coisa fundamental para minha vida, foi o Edimilson. Aquele cara tímido quando lia os próprios poemas tornava-se um gigante. Confesso que sempre persegui a segurança e a expressividade do Edimilson para ler. Era o modelo que me servia, porque performadora, desde sempre, sei que nunca seria, mas eu poderia ser uma boa leitora. E pelo que dizem por aí, sou, e eu também acho. Edimilson foi minha inspiração primeira, embora ele seja verdadeiramente  modesto. 
    Ô Lapassi & Outros Ritmos de Ouvido é um livro que se tornou mantra só pela sonoridade do título. O livro de falas também era (é) um trem bonito demais, daqueles títulos muito felizes. Eu me lembro que passei muitos anos sem ver e sem falar com Edimilson, mas acompanhando os livros dele. Então, Em 2003, quando lancei meu primeiro livro, um livro de ensaios sobre ações afirmativas para estudantes negros no Brasil (Ações afirmativas em educação; experiências brasileiras) nós nos vimos no FAN - Festival de Arte Negra, em BH. E fui apresentar meu livro para o Edimilson. Ele olhava para o volume com tanta alegria que me surpreendeu. E me felicitou muito, desejou que eu continuasse sempre a escrever. Ganhei aquele dia. 
    Da obra antropológica do Edimilson eu gosto demais de "Assim se benze em Minas Gerais", "Mundo encaixado" e "Os tambores estão frios." Ah... "Ouro Preto da palavra" também é uma coisa do outro mundo, já li umas 5 vezes. Sobre o "Malungos na escola" tenho anotações para uma resenha que ainda não encontrei tempo para escrever, Ali, gosto especialmente do item "A senzala, o quilombo e a casa". O Edimilson é genial para fazer ligações entre as coisas, entre mundos, se não é um homem de Exu, é afilhado dele. O conceito de cantopoemas e cantopoetas me fascina também. Logo, logo, quero ler "Ranhuras no objeto: ou hipótese para um diálogo entre Arthur Bispo do Rosário e Jean-Michel Basquiat", ensaio recente do Edimilson. Dos infantis eu amo "Rua Luanda", "Os reizinhos do Congo" e o belíssimo "Histórias trazidas por um cavalo marinho". Edimilson para mim é mestre, espelho, embora, obviamente, minha produção esteja muito aquém da qualidade dele. O Edimilson é prolífico e profícuo, é fértil, semeador. É o meu cantopoeta!
    Um fato curioso é que eu e Edimilson divergimos certa feita. Numa dada situação, que não me lembro exatamente qual foi, creio que em alguma discussão decorrente do meu primeiro livro, eu afirmava que algumas coisas, só aos iniciados era dado saber e só eles poderiam falar sobre elas, saberiam como falar sobre elas. Edimilson discordou e discorreu bastante sobre a natureza da pesquisa antropológica e sobre o papel da criação na literatura e tal. Eu ouvi, mas firmei meu ponto, se é que vocês me entendem. Eu disse ao Edimilson que ele não era iniciado, mas o pessoal da Congada o tratava como se fosse e os mais-velhos só lhe franqueavam acesso a certos segredos porque tinham certeza de que ele não iria revelá-los. Que eu me lembre, o assunto morreu ali. 
    Não posso também me furtar de mencionar a generosidade do Edimilson. Para um escritor consagrado como ele, às vezes, apresentar uma autora nova, que não nasce pronta, como foi o meu caso, com um texto errático, promissor, mas com muitos problemas e desníveis, pode causar ranhuras na imagem (penso eu). Tem muita gente que só aceita convites de amigos do clã, aos quais louva, a despeito de terem ou não qualidade literária (é um direito deles, lógico, não questiono, mas lamento, principalmente quando a solidariedade racial não tem peso). Edimilson aceitou escrever o prefácio da segunda edição do Tridente e fez um texto duro, teve até uma parte que me levou a reclamar, "poxa, isso aqui você deveria ter me dito antes, para me ajudar a escrever melhor, não agora, na apresentação do livro". À época, o texto não me felicitou tanto, porque o Edimilson apontava meus defeitos, vícios, fragilidades, não fazia a tal louvação do clã, que talvez eu esperasse. Mas ele me ajudou demais e sou muito grata por sua honestidade intelectual e respeito para comigo, bem como por sua coragem, compromisso e generosidade, em emprestar o próprio nome para abrir meus caminhos. Obrigada, mano velho, afilhado de Exu!
    No período em que conheci Edimilson também conheci Leda Martins e Nazareth Fonseca, esta última, importantíssima na minha vida e de toda uma geração de mulheres negras que estudava na UFMG e/ou gravitava por lá, naquele período. Por sua generosidade, carinho, disponibilidade para nos orientar, nos aconselhar e nos proteger, porque não. Leda me assombrou pela densidade intelectual. Depois de Sueli Carneiro, ela era a mulher que mais havia me impressionado até aquele momento. A terceira, por ordem de entrada na minha vida foi Luiza Bairros. Eu li alguns textos da Leda, mas apanhava muito, era complexidade demais para minha compreensão. Também, eu era metida e pegava textos da pós-graduação, não era para entender mesmo. Anos mais tarde li "Afro-grafias da memória" e o esmero de Leda com a construção de cada frase foi uma das descobertas mais marcantes da minha vida. Eu dizia a mim mesma: quando crescer quero escrever como ela. Não consegui, lógico, somos pessoas diferentes, com histórias diferentes, formação, talento, capacidade de escrita, etc, mas Leda Martins é também modelo para mim. Um dos maiores orgulhos que tenho é de ter sido a primeira pessoa a falar dela para Sueli Carneiro. Dela e de Edimilson, joias da coroa banto mineira que a rainha da coroa banto paulista ainda não conhecia. 
    Elisa Lucinda foi uma descoberta paulistana, eu devia ter entre 25 e 27 anos. Acho que ela ainda não tinha livro publicado, mas fazia performances com aqueles poemas arrebatadores, lembro-me de "Aviso da lua que menstrua", cito de memória e não sei se o título é exatamente este. Ao longo dos anos li vários livros dela e vi alguns espetáculos. Gosto muito de "O semelhante" e "Contos de vista." Elisa também me liberta para falar de amor e sexualidade, com dengo, que é a especialidade dela. 
    Por essa época também descobri Toni Morrison  e até hoje leio mais suas entrevistas do que sua obra. O olho mais azul foi de difícil leitura e Amada foi impossível de ler, tentei por 4 vezes e não consegui. Um amigo me aconselhou que visse o filme, tentei, mas quando os fantasmas do infanticídio começaram a assombrar a casa de Celi (é Celli o nome dela, não é?) desisti. Assim, não li o livro, nem vi o filme. O levantado do chão, de Saramago, é outro livro que doeu demais e não consegui terminar de ler.  De Alice Walker li A cor púrpura e Vivendo pela palavra, alguns artigos e muitas entrevistas. Das duas autoras admiro a força, a firmeza de propósitos intelectuais, criadores e políticos. Chego a achar engraçado quando vejo uma autora brasileira ter a obra comparada com a dicção de Alice e ela, presunçosa, diz que também a comparam com Toni. Acho que é uma diminuição burra de Alice e pretensão inominável aproximar-se da densidade intelectual de Toni. Esta, como Paulina Chiziane é uma força da natureza e como tal, inigualável.
    Paulina foi um grande e feliz encontro. É minha escritora predileta. É um modelo que estudo, uma fruição que aspiro. A ambiência do Pentes tem muito a ver com um desejo de me aproximar da fruição de Paulina, em que pese todos os meus limites.
    Dentre os autores chamados de contemporâneos no Brasil gosto muito de Milton Hatoum,Marcelino Freire, Paulo Lins e Ana Maria Gonçalves. Minha aproximação geográfica com a obra de Hatoum, ambientada no Amazonas, vem de Belém. Depois que li Dois irmãos pela primeira vez, tive necessidade de lê-lo pela segunda em Belém, descobrindo a cara do tajá e do tajá branco, sentindo o pitiú de cobra e correndo de medo, além daquela vegetação amazônica toda, aquelas árvores frutíferas que a gente encontra nos bairros arborizados de Belém. Foi a leitura de Hatoum que me deu coragem para passar horas sozinha em um barco, de Belém à Ilha de Marajó. 
    O Edimilson é um cara generoso, como disse, o Marcelino é generosíssimo, mal me conhecia e aceitou ler meus textos, comentá-los comigo e depois que disse ter gostado, convidei-o para apresentar o livro e ele aceitou. Eu só me senti segura para publicar o Tridente depois da leitura do Marcelino que me disse "você tem um livro aqui!" Li todos os livros dele, exceto o Rasif (li de maneira esparsa, não sistemática) e o mais recente, Amar é crime. Meu livro predileto  é Angu de sangue. Outro dia escrevi um texto, Quilombolas for ever! que tem uma pegada do Marcelino, parece até cópia, mas não foi, juro! É que muito da originalidade dele impregnou meu imaginário e é inevitável que uma coisa outra saia parecida e até pareça imitação, mas não é. Cidade de Deus, do Paulo Lins e Um defeito de cor, da Ana Maria Gonçalves, são dois dos melhores livros que li na vida. Ambos os autores estão no meu panteão dos maiores e eles são modelos para os romances que quero escrever no médio prazo. São textos de fôlego que não têm altos e baixos, isso me encanta. Me cansam os textos que vão aos píncaros e depois esborracham no chão porque falta fôlego a quem escreve. 
    Gosto também de  Pedro Juan Gutiérrez, autor cubano. Deste, minha obra favorita é Trilogia suja de Havana. Escrevi uma crônica que se passa em Havana e um amigo cubano, Julio Morasen, não acredita que eu nunca tenha ido a Cuba. É que li quase toda a obra de Pedro Juan, publicada por aqui, explico a ele. 
    A música é algo que dialoga muito com a minha obra, especialmente a música brasileira. Persigo cantoras de obra autoral na composição, tais como Chiquinha Gonzaga, Dolores Duran, dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Fátima Guedes, Joyce, Sueli Costa, Adriana Calcanhoto e a novíssima Ellen Oléria. Me interessa o trabalho autoral, a marca da compositora sendo impressa ao longo da obra. Composições para inflamar a massa não me tocam, no estilo "simbora gente", me servem para a diversão, mas não despertam meu interesse de análise. 
    Meus musos maiores, como já declarei reiteradas vezes, são Gilberto Gil e Paulinho da Viola e me interessa muito a relação de ambos com o tempo. O tempo na obra deles e também na minha obra, bem como a reflexão que fazem sobre o trabalho autoral.  Djavan também é um compositor interessantíssimo, mas é uma obra que estou por descobrir.

    9. Qual é o papel da crítica no seu fazer literário? Comente mais sobre como deve ser a relação entre o escritor e a crítica.
    André Carneiro,escritor nonagenário, um dos precursores da literatura de ficção científica no Brasil, afirma que "um bom crítico ajuda o autor a desvendar seus processos de criação", acredito nisso e anseio muito por esse tipo de crítica. Eu a encontro, em alguma medida, no olhar dos meus leitores e leitoras críticos, aqueles aos quais submeto meus textos antes da última leitura minha, que precede a entrega à editora. Esse diálogo é fundamental. 
    No que concerne à relação ente escritor e crítica, penso que deva ser uma relação de independência e autonomia em todos os sentidos. Será salutar se houver fundamentação ética e estética na crítica, para além do opinativo "gosto ou não gosto e por isso é bom ou ruim", e o autor ou autora, por sua vez, não deve escrever pensando em agradar a crítica. 
    Gostaria de acrescentar um terceiro aspecto que é a relação da crítica com os autores e autoras da literatura negra. Por um lado há a crítica canônica que despreza este fazer como genuinamente literário, são escritos enquadrados na categoria de relato de vida, depoimento pessoal, auto-biografia lacrimosa, textos menores. Certa feita, em 2010, salvo engano, saiu uma matéria sobre Conceição Evaristo na Folha de São Paulo e a maioria dos críticos convidados conseguiu não falar sobre a obra dela e um ou outro falou de maneira muito superficial. De um modo geral, concentraram-se mais na sua biografia e na legitimidade que pessoas com o perfil social de Conceição também tinham para escrever. Por outro lado, desenvolveram-se alguns cacoetes entre os críticos negros e outros orientados por uma visão crítica à crítica canônica, a saber: uma ênfase (positiva) à biografia do autor ou autora negro, principalmente daqueles aspectos que o/a vinculam ao ativismo político de combate ao racismo; uma postura condescendente em relação aos problemas de descontinuidade de texto, inconsistência literária e personagens frouxos que muitas de nossas obras apresentam; uma preocupação mais detida com a temática que, preferencialmente, deve circunscrever-se ao combate ao racismo e a uma afirmação de africanidade muito vinculada à compreensão do Movimento Negro, mais do que uma atenção à ética/estética do texto, dentre outras questões. Ou seja, tem sido uma crítica que confunde o apoio e respeito ao autor e autora negros e o enfrentamento dos preconceitos canônicos com a condescendência em relação à obra. A mim, em particular, esse tipo de crítica não "ajuda a desvendar meus processos de criação."

    10. Quais são as virtudes e as limitações da mídia virtual para a promoção da (sua) literatura?
    Eu sou da segunda ou terceira geração de blogueiros/as. Quando comecei pensava apenas em ocupar um pedaço do espaço virtual com discussões raciais e de gênero. Tinha resistência em publicar literatura, era (e sou) amante do papel. Queria um canal ágil de comunicação com meu público e de divulgação de eventos literários nos quais eu estivesse, só isso. A instalação de um contador de visitas no blogue, entretanto,  mudou minha visão sobre ele. Eu não tinha dimensão de quantas pessoas me liam por dia. Àquela época, 2008, eram cerca de 100 visitas diárias. Essa constatação me fez redimensionar a importância do blogue e fiquei mais seletiva, revisei a estratégia de publicação. Meu blogue recebeu elogios como uma revista cultural diariamente atualizada (inclusive do Edimilson) e fiquei muito animada por isso. Passei de 100 para 250 visitas diárias e hoje oscilo entre 300 e 330. 
    Era um desejo antigo publicar crônicas. Ensaiei fazê-lo semanalmente em 2011, mas não consegui. Só em setembro de 2012 alcancei esse intento, com crônicas diárias, o que é melhor. À essa altura já experimentava também o Facebook que foi outro divisor de águas. É impressionante a reverberação proporcionada por esse veículo. Passei a ter seguidores, fãs, se posso chamá-los assim e, vez ou outra, quando me encontro com eles/as em eventos literários disfarço o susto, porque as pessoas leem de verdade, acompanham a mudança temática, fazem perguntas consistentes e, principalmente, expressam uma admiração que me encabula. Não sou uma pessoa tímida na acepção convencional da palavra, mas estranho o "assédio" e ainda estou assimilando a novidade. Tive duas experiências em 2012 que me marcaram nesse sentido, a primeira na UNICAMP, dentro da programação do "Quem tem cor, age" e recentemente em BH, com o grupo Negras Ativas. É gratificante, mas meio assustador, ainda.  
    Minhas crônicas são republicadas em vários blogues e portais e a recepção a eles é diferente em cada um. Às vezes um texto muito lido ou debatido em determinado veículo passa completamente despercebido em outro. O grande desafio é que esses leitores e leitoras dos meios eletrônicos também devorem meus livros. Esse é um caminho de pavimentação lenta. Existem textos com os quais tenho muito carinho e guardo-os para a publicação em livro, para que mereçam um olhar mais detido de quem lê.
    11. Quais conselhos você daria para quem está buscando publicar uma obra literária?
    Bem, sou de uma cultura que valoriza o conselho, justamente porque é dado, não é vendido. Sendo assim, aconselho primeiro que se as pessoas julgarem que é o momento de publicar, que selecionem o que publicarão e depois de selecionado o material, leiam, releiam, reescrevam, submetam a leituras críticas, escrevam novamente, releiam e só então publiquem. A coisa mais temerária para autores/as novos/as em minha opinião, é ficar juntando, catando material para publicar. É preciso selecionar. 
    12. Tem algum texto que você escreveu e publicou e gostaria de reescrever, se tivesse a oportunidade? Em caso afirmativo, do que se trata?
    Não, de reescrever, não. Mas há muita coisa no Tridente que eu não escreveria mais e se tivesse escrito, não publicaria. Não chegam a ser textos ruins, mas são muito militantes, me constrangem. Mas, o livro está na terceira edição, é meu livro mais vendido, muita gente gosta e concordo com Ariano Suassuna, a gente deve preservar o que escreveu, até para que as pessoas vejam que a gente melhorou, que cresceu. E tem gente que continua gostando daquilo que a gente escreveu. Eu adoro o Angu de sangue do Marcelino. Ele, como autor, deve achar que seus livros mais recentes são mais maduros e melhores e devem sê-lo. Entretanto, eu insisto no Angu, como muita gente insiste no Tridente, embora o Marcelino não tenha sido militante de nada no Angu, não é esta a aproximação. 
    Obrigada Fabrício! 12 foi um bom número, imagino que não saibas disso, mas é número do Xangô que te guia.
    * Marcos Fabrício Lopes da Silva. Jornalista, poeta e doutorando em Estudos Literários/Literatura Brasileira pela Faculdade de Letras da UFMG. 
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