Baú de Miudezas, Sol e Chuva

Baú de Miudezas, Sol e Chuva
A prosadora, como gosta de se definir, Cidinha da Silva apresenta ao público mais um fruto de sua profícua carreira de escritora, iniciada em 2006. Desde então, são oito livros, contando com este último, que passeiam por contos, textos opinativos, crônicas, narrativas infantis.... E são sobretudo crônicas, ou, como percebe o olhar aguçado da prefaciadora Grace Passô, “poesia transfigurada em crônicas”, que formam o consistente recheio de Baú de Miudezas, Sol e Chuva, lançamento da Mazza Edições, mesma editora na qual Cidinha da Silva começou sua trilha literária. O interior de Baú guarda 41 miudezas, e não por serem as crônicas, em sua maioria, pequenas em tamanho. Miudezas em função de outra acepção que esta palavra encerra: delicadeza. Essa qualidade Cidinha da Silva emprega em todos os textos, mesmo quando se trata de abordar temas nem sempre tão digeríveis, como amores frustrados, relacionamentos interrompidos ou a busca de liberdade para o amor homoafetivo. Aliás, Baú de Miudezas, Sol e Chuva escancara o amor, com todas as letras e lágrimas e sorrisos que costumam acompanhá-lo. Não há o que se estranhar, afinal, a autora é, declaradamente, uma amante, isto é, alguém que ama “grande” e se incomoda com aquele tipo de amor que se manifesta “apenas na parte interna da orelha dos livros”, como revela a crônica Memória. Sua poética arquetípica dos Orixás impregna sentimentos e personagens, são testemunho do coração livre e libertário de Cidinha da Silva. Como todo bom/boa cronista, Cidinha da Silva se alimenta, principalmente, do cotidiano, e mais ainda, dos pequenos fatos do cotidiano, a cuja narração empresta leveza, humor e subversão. Baú de Miudezas, Sol e Chuva é daquelas arcas que dão prazer abrir e contemplar os simples e pequenos tesouros que guarda. Mas, que o leitor não se engane, a literatura de Cidinha é “suave como o pássaro que controla o próprio voo”, é prosa poética refinada, corta e perfura tal qual lâmina de adaga.

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05/12/2012

O homem que falava javanês


Por Cidinha da Silva

Ouvi um gestor público afirmar que em sua gestão, os programas de conversas de escritores com o público foram cancelados, porque, ao cabo, isso não forma leitores. Ademais, aquilo que os escritores têm de melhor a dizer, está dito nos textos literários.

Lembrei-me imediatamente de um salão do livro em que me perguntaram o que seria  a tal formação do leitor. Para o inquiridor, isso daria a ideia de um processo com início, meio e fim. A pergunta me pegou na curva, nunca havia refletido a respeito, principalmente nos termos de um processo fechado. Mas, quando ouvi o gestor, voltei a pensar que os sentidos até então pensados por mim para a formação de leitores fazem sentido.

A mim, em particular, a assertiva do gestor é aplicável. O melhor daquilo que digo é vocalizado por minha voz literária, mas, que esse motivo não me impeça de ter contato com o público, principalmente via programas e projetos que remunerem meu trabalho. Também não quero perder a chance de mediar, por momentos curtos, a leitura de quem aprecia minha produção, de contar meu processo criativo, de discorrer sobre particularidades desse texto ou daquele. De mostrar o meu ritmo da escrita, minha cadência textual.

Entretanto, especulo o que haverá por trás da afirmação peremptória do gestor. Fico imaginando ali uma guerrinha suja entre escritores canônicos e para-canônicos (aqueles que aspiram sê-lo e julgam que, para alcançar o objetivo, devem negar o desejo, bem como atacar os canônicos). Fogueira de vaidades e labaredas de interesses multiplamente questionáveis.

Intuo  que escritores-moradores da torre de marfim façam cara de enfado quando em contato com o povo, que não saibam dialogar, que o ar os sufoque, tão acostumados estão ao bolor. Por outro lado, são esses os autores convidados para revestir de prestígio os eventos literários.

Michael Yakini, em mesa que dividimos na UNICAMP recentemente, apresentou o trabalho realizado pelo Coletivo Elo da Corrente e sua preocupação com a formação de leitores. Quando verifico que este é um tema para o Michael, ele continua a fazer sentido para mim.

A expressão do gestor reforçou o sentimento de que o ator mais fraco do aquecido mercado editorial brasileiro continua sendo o autor, a autora. Prossegue revestida de desimportância a figura da pessoa que escreve, sem a qual a obra literária não existiria. O autor! A autora!

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